Sem motivo para festejar

Para variar, uma notícia positiva: a atividade econômica cresceu 0,36% em fevereiro, segundo o IBC-Br, indicador mensal do Banco Central (BC). A novidade surpreendeu e intrigou. Como explicar essa melhora, se os números da indústria e do varejo foram negativos? Em fevereiro, a produção industrial foi 0,9% menor que a do mês anterior e o comércio varejista vendeu 1,01% menos. De onde pode ter vindo o impulso? Parte da resposta pode estar na base de comparação, muito baixa, porque em janeiro o índice havia recuado 0,11%. Mas deve haver algo mais que isso - um mistério embutido num índice divulgado sem detalhes, mas geralmente útil como antecipação dos dados do PIB.

O Estado de S.Paulo

17 Abril 2015 | 02h03

Os analistas do setor privado mantiveram as projeções de um ano muito ruim. O BC havia divulgado na segunda-feira levantamento em que a mediana das projeções do PIB apontava para uma contração de 1,01% neste ano e um crescimento de apenas 1% em 2016. Para a produção industrial, as estimativas indicam uma redução de 2,5% neste ano e uma expansão de 1,5% no próximo. As previsões para o PIB coincidem com as divulgadas pelo FMI e os economistas deverão esperar mais dados positivos para mudar suas expectativas.

Os números do BC melhoram apenas parcialmente o cenário. Apesar do crescimento mensal de 0,36%, o nível de atividade em fevereiro ainda foi 0,86% mais baixo que o de um ano antes em termos reais. O resultado de janeiro e fevereiro foi 1,1% inferior ao do primeiro bimestre de 2014. O de 12 meses foi 0,6% menor que o do período anterior. Na série sem ajuste, a diferença para menos chegou a 0,97%. Além disso, no trimestre encerrado em fevereiro a atividade ficou 0,56% abaixo da estimada para os três meses até novembro.

Se o IBC-Br de fevereiro for confirmado e esclarecido, ainda faltarão sinais convincentes, nos próximos meses, para confirmar uma recuperação, isto é, uma alteração de tendência. Até agora, poucos dados positivos apareceram. Os números apontam uma safra de grãos e oleaginosas maior que a do ano passado, mas isso não muda a direção geral da economia. As condições de emprego têm piorado, a inflação diminui o salário real, o crédito está mais caro e esses fatores devem continuar afetando a demanda de serviços e de bens de consumo.

A depreciação cambial poderá beneficiar as indústrias, encarecendo os produtos importados, barateando os brasileiros no exterior e favorecendo as exportações. Se isso ocorrer, a produção industrial poderá crescer, desmentindo as previsões de mais um ano de contração. Mas o efeito do câmbio sobre as exportações tem sido pouco significativo.

Apesar do superávit comercial de US$ 132 milhões nas duas primeiras semanas de abril, o saldo acumulado no ano continua negativo, com déficit de US$ 5,42 bilhões. No ano, o valor exportado, de US$ 68,48 bilhões, foi 15,3% menor que o de um ano antes, pela média dos dias úteis. O valor importado caiu um pouco menos, 14,5%, e a corrente de comércio - exportações mais importações - foi 14,9% inferior à de igual período de 2014.

Não há nenhum sinal evidente, portanto, de maior competitividade. A exportação encolhe, em parte pela piora do mercado internacional de commodities, em parte pelo desempenho ainda ruim da indústria. O valor importado também diminui, refletindo o baixo nível da demanda interna. A redução da corrente de comércio retrata um país em crise, com baixo nível de atividade e escasso poder de competição no mercado de bens manufaturados.

Se as projeções de recessão forem desmentidas pelos fatos e se, além disso, o crescimento econômico ultrapassar a pífia taxa de 0,1% de 2014, os brasileiros ainda terão poucos motivos para comemoração. O fraquíssimo desempenho da economia nacional nos últimos quatro anos foi muito mais que um fato conjuntural. A estagnação resultou de sérios problemas estruturais, agravados por uma invulgar coleção de erros de política econômica. Reconstruir a economia exigirá muito trabalho em várias frentes - infraestrutura, tributação, contas públicas e educação, para citar os mais evidentes.

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