Senhora da situação

Se a crise que culminou com a saída do ministro Antonio Palocci fosse transformada em peça de teatro, a fala final poderia ser o seu resignado comentário a um grupo de parlamentares, na segunda-feira, véspera da queda, sobre o seu fracasso em desvendar "a esfinge" Dilma Rousseff. Seria um fecho apropriado para um enredo atual sobre a cegueira com que os deuses puniam, nas tragédias gregas, os mortais possuídos pela soberba. Ofuscado pela convicção de que suportaria o impacto do seu nebuloso enriquecimento e ainda sairia fortalecido do escândalo, Palocci não viu que a presidente já havia selado o seu destino.

, O Estado de S.Paulo

09 Junho 2011 | 00h00

A paixão pelo poder o impediu de aproveitar o parecer do procurador-geral da República, que lhe foi favorável, mas não poderia recompor a sua autoridade política desfeita, para sair de cabeça erguida. Em vez disso, soltou uma nota augurando que a decisão carreasse o embate político para os trilhos da razão, verdade e justiça. Quis assim exortar a chefe, os companheiros de governo e de partido, a base parlamentar e até a oposição a virar a página do caso e deixá-lo firme no seu lugar - uma impossibilidade manifesta. A ficha só começou a deslizar quando ele se deu conta de que a presidente continuava muda e queda.

Ainda assim, em desespero de causa e mudando radicalmente de curso, se ofereceu para se explicar no Congresso e deixar de usurpar as funções do colega das Relações Institucionais, em tese responsável pela interlocução com os políticos sobre os seus temas preferidos: cargos e verbas. A essa altura, ele ignorava, ou fingia para si mesmo ignorar, que a presidente não só já avisara Lula, o patrono da ida de Palocci para a Casa Civil, de que decidira tirá-lo, como chamara para a vaga a senadora petista de primeiro mandato, Gleisi Hoffman, do Paraná. Não bastasse ter exposto uma desprevenida presidente a uma tormenta política, depois não a ajudou a se abrigar.

O que Palocci sem querer proporcionou a Dilma foi um curso intensivo sobre as vicissitudes do poder, os cálculos políticos egoístas, conflitos de egos, divisões desarmônicas de trabalho e estruturas agigantadas que relutam a se deixar manejar. E tudo isso fazendo parede e meia com as demandas de um parceiro, o PMDB, que rejeita o papel de segundo violino e reivindica, isso sim, compartilhar a regência da orquestra. Dilma há de ter aprendido que a política não vai embora só porque se lhe dá as costas; que superministros, ainda mais por escolha alheia, tendem a ter, como se dizia de Palocci, "o rei na barriga"; e que a tutela do antecessor, ainda mais quando ostensiva, é uma via expressa para o apequenamento.

Apesar da convalescença de duração incerta que aguarda a presidente, a nomeação, de lavra própria, da senadora Gleisi indica que ela tem condições de se tornar senhora da situação, com um governo à sua imagem e semelhança, combinando os recursos de poder de que dispõe com um novo padrão de convivência com os aliados no Congresso. Escalada para ser "a Dilma da Dilma", como ouviu ao ser convidada, a advogada Gleisi, casada com o ministro das Comunicações, Paulo Bernardo, tem uma bagagem técnica respeitável. Foi secretária de Administração em Mato Grosso do Sul, diretora financeira de Itaipu e se especializou em Orçamento ao chefiar o gabinete de deputado federal do marido. Presidiu o PT no Paraná e se candidatou a prefeita de Curitiba.

A senadora é uma ferrenha defensora de Dilma. Foi a primeira petista a dizer (numa reunião da bancada com Lula) que o partido não devia quebrar lanças por Palocci, porque os seus negócios só dizem respeito a ele. Franqueza do gênero poderá lhe fazer mal, se a sua agenda incluir negociações sistemáticas com a base. Melhor que não inclua. Já é tempo de a Casa Civil voltar a ser, essencialmente, um Ministério do Governo, voltado "para dentro", como em outros países. O Executivo cresceu tanto que o acúmulo de funções no órgão se tornou inviável.

Já é tempo também de entregar a articulação política, outrora exercida pelos ministros da Justiça, a uma figura equivalente, um político de longa trajetória, familiarizado com o dialeto dos colegas e com o idioma do Planalto.

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