Shoji Nishijima (1949-2012)

Nas quase duas décadas em que escrevo neste espaço, só uma vez foi um necrológio. Escrevo outro para homenagear um notável ser humano, grande economista, amigo meu e do Brasil, trágica e precocemente falecido no final de julho.

Roberto Macedo,

06 Setembro 2012 | 03h07

Começo por dizer quem foi o japonês Shoji Nishijima no campo em que mais se destacou. Concluiu o mestrado e o doutorado em Economia na Universidade de Kobe, da qual se tornou professor a partir de 1978. Foi diretor do Instituto de Pesquisas de Economia e Administração dessa mesma universidade, da qual foi também vice-reitor.

De 2002 a 2011 - para ficar só nessa fase mais recente de seu currículo -, continuou a mostrar grande produção acadêmica, publicando cinco artigos e dez livros, alguns em coautoria. Desse total, 11 têm o Brasil ou a América Latina nos títulos, revelando a continuidade de seu interesse pela região e por nosso país, nascido bem antes na sua carreira.

De uma amiga comum que o conheceu em Kobe em 1984 eu soube que já então ele se expressava bem em português. Nessa época era assistente do professor Yoshiaki Nishimukai, também estudioso do Brasil. Conheci Shoji no final dos anos 1980, quando esteve aqui como pesquisador visitante e frequentava a Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade da Universidade de São Paulo (USP), da qual eu era professor.

Nessa época o Japão concluía seu forte ciclo de desenvolvimento depois da 2.ª Guerra Mundial, que o levou à posição de segunda economia global. Nos anos 1960 o produto interno bruto (PIB) japonês cresceu a taxas próximas de 10% ao ano, as quais progressivamente caíram para outras em torno de 1,5% nos anos 1990. No início da mesma década o país passou por séria crise financeira, que incluiu o estouro de uma bolha de preços de ativos, em particular de imóveis.

Ao crescer e se consolidar como país rico, o Japão destacou-se, entre outros aspectos, pelos produtos eletrônicos de consumo e pela indústria automobilística. Recebia atenção só comparável à da China dos dias atuais, que acabou tomando a segunda posição do Japão. Mas este se mantém na terceira e honrosamente, pois é muitíssimo menor que a China em população e território.

Os brasileiros menos jovens hão de se lembrar do Walkman da Sony, um precursor das muitas inovações de aparelhos eletrônicos portáteis que vieram depois. E todo mundo sabe do prestígio da indústria automobilística japonesa. Entre outros méritos, trouxe novos processos altamente eficientes de produção com qualidade. E pelos últimos dados que vi, de 2010, a Toyota estava à frente da General Motors como a maior fabricante mundial.

No período 1960-1990 havia no Japão grande interesse pelo Brasil, estimulado pela presença aqui de uma grande comunidade de imigrantes daquele país e seus descendentes. E, também, pela crença no potencial econômico brasileiro, que deu demonstrações de bom desempenho até os anos 1970.

Depois que Shoji voltou a Kobe, em 1989 estive lá como professor visitante, atendendo a um convite que articulou. Além do muitíssimo cordial tratamento dele, de sua família e de seus colegas, alguns fatos ficaram gravados na minha memória. Num deles, fui até Hiroshima, uma visita marcante pelo que trouxe de reflexões sobre os horrores da guerra. Conheci então o trem-bala, este mostrando a tecnologia a serviço do homem, desde que saiba bem manejá-la, do que os japoneses são um bom exemplo. Antes da viagem, pedi que Shoji me escrevesse um papel com o nome da cidade em japonês para eu identificar a estação onde desceria se não tivesse placas no alfabeto latino. Ele me deu o papel, mas acrescentou que eu poderia descer também pelo horário. Ou seja, se estivesse marcado que o trem pararia lá, digamos, às 9h37, nesse horário a porta se abriria e eu estaria em Hiroshima. Não deu outra.

Entre outras tarefas, Shoji levou-me a ministrar uma palestra no Banco Central, onde entrei por uma porta errada e me deparei com uma sala cheia de funcionários lidando com enormes pilhas de papéis manuscritos. Isso numa época em que as tecnologias de informação e comunicação não eram tão disseminadas como hoje, mas revelando também a força de tradições. Outra palestra foi na Universidade de Sophia, uma prestigiosa instituição católica criada pelos jesuítas em 1913. Foi uma surpresa encontrar uma universidade como essa no Japão.

Shoji voltou ao Brasil várias vezes. Na penúltima oportunidade em que o vi, uns dois ou três anos atrás, veio estudar a produção de etanol. E, em maio ou junho deste ano, mandou-me um e-mail dizendo que passaria um ano como ministro da embaixada do seu país em Brasília.

Numa ida minha até lá, tomamos um café da manhã, renovamos cartões de visita, trocamos presentinhos à moda japonesa e pusemos a prosa em dia. No dia 28 de julho veio a tragédia. Numa viagem a Goiás, o carro em que estava bateu de frente com outro, o que causou a morte dele e de mais três pessoas. Sua esposa, Akemi, sobreviveu, mas com várias fraturas. E soube no início desta semana que ainda se encontrava em tratamento num hospital de Kobe.

Não tenho palavras para descrever a surpresa e o sentimento de perda que tive ao receber a notícia. Sei que a memória de Shoji Nishijima certamente será sempre reverenciada no Japão. E também pelos brasileiros que conheceu em suas andanças por aqui, bem como pelos que lá ajudou como estudantes e visitantes.

De minha parte fica a eterna gratidão por ter convivido com ele, e conhecido melhor seu país e seu povo laborioso. Com o qual temos muito que aprender, somando-se ao que nos ensina aqui a colônia japonesa, que tanto contribui para o progresso do Brasil.

* ECONOMISTA (UFMG,  USP E HARVARD),  PROFESSOR ASSOCIADO À FAAP,  É CONSULTOR ECONÔMICO DE ENSINO SUPERIOR

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