Situação da criminalidade

Ficaram abaixo das expectativas do governo - em relação às metas estabelecidas pelo programa de bonificação a policiais civis e militares - os resultados do combate ao crime no primeiro trimestre deste ano em São Paulo, como mostram as estatísticas da Secretaria da Segurança Pública. Embora o projeto que cria aquele incentivo ainda esteja tramitando na Assembleia Legislativa, se aprovado ele será retroativo a janeiro. Por isso, esperava-se que seus efeitos positivos na redução dos índices de criminalidade começassem a aparecer desde já.

O Estado de S.Paulo

07 Maio 2014 | 02h10

Tanto na capital como no Estado, os índices de roubos - com exceção dos de veículos - foram os maiores desde 1995, quando começaram a ser divulgados os dados. Os números das ocorrências foram 40.671 e 79.093, respectivamente, o que representa aumentos de 44,6% e 33,5%, em comparação com igual período de 2013. Como a meta fixada pelo projeto é que o índice desse crime no máximo iguale o de 2013, o desempenho da polícia ficou bem aquém do desejado.

Em consequência, o sistema de bonificação proposto sofrerá alterações. Segundo o secretário de Segurança Pública, Fernando Grella Vieira, as metas estaduais e regionais serão excluídas neste primeiro trimestre. A avaliação será feita, nessa primeira fase, apenas pelo resultado de delegacia ou companhia da PM. "Estamos excluindo o roubo e concentrando em roubo de veículos e em letalidade das áreas locais, para que sirvam de estímulo. É uma solução inicial", explica.

Outro dado preocupante é que o aumento do número de roubos (neste caso excluídos os de veículos, cargas e bancos)foi registrado em 85 (91%) dos 93 distritos da capital. E em 67 distritos houve alta também de roubos e furtos de veículos. Na capital, portanto, não se trata de fenômeno restrito a determinadas áreas. É geral.

O dado positivo - e de peso, tendo em vista a gravidade desse tipo de crime - ficou por conta dos homicídios. O comportamento desse índice foi muito melhor do que o de roubos, mas não suficiente para atingir a meta. No Estado, houve redução de 3,3% nos homicídios (de 1.189 para 1.150), sendo a meta de 7,4%. Na capital, a diminuição foi de 4,9% (de 304 para 289), igualmente abaixo da meta, de 9%.

Outro elemento que pode contrabalançar o forte aumento dos roubos é a franqueza do secretário ao tratar da questão, sem tentar jogar com os números para amenizar o quadro. "Em parte, a criminalidade cresceu. Nós sabemos que há uma tendência de aumento de roubos", afirma ele. Reconhecimento que é o primeiro passo para qualquer tentativa séria de melhorar a situação.

Ele vem acompanhado da promessa de fornecer, daqui para a frente, maiores informações sobre os crimes, tais como explicações a respeito das variadas modalidades de roubo e um perfil mais preciso dos homicídios: "Não temos medo da transparência. A partir do mês que vem, vamos publicar dados mais detalhados". Resta esperar que se cumpra a promessa, porque é um direito da população conhecer melhor o difícil e acidentado terreno em que está pisando.

Essa é a forma de tratar a questão que se espera do secretário, porque a situação da criminalidade em São Paulo continua grave, apesar dos inegáveis progressos dos últimos anos, que o colocam em melhor situação em relação aos demais Estados. O presidente da Comissão de Segurança Urbana da Ordem dos Advogados do Brasil, seção de São Paulo, Paulo Iasz de Morais, chama a atenção para outro aspecto do problema, que tem estreita ligação com os números decepcionantes relativos aos roubos.

A seu ver, ele é reflexo do baixíssimo índice de resolução de crimes em São Paulo e no País. Aqui, estima-se que só 2% dos crimes contra o patrimônio são esclarecidos, o que vira um "incentivo na hora que o ladrão faz a análise de risco de roubo". Sem atacar uma causa básica da criminalidade, como essa, não se avançará muito.

Uma promessa sempre reiterada por Grella Vieira, desde que assumiu a Secretaria, é o investimento nas áreas de inteligência e investigação. É por aí que se avançará na solução.

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