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Opinião

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Sobra inflação, falta governo

A previsão mais otimista para a inflação brasileira, neste momento, é uma taxa próxima de 8% nos 12 meses até junho. Haverá quem festeje, mas o desarranjo ainda será muito maior que o observado na maior parte dos países emergentes. Nos países desenvolvidos a ambição é uma alta anual de preços de 2%, depois de longo período com taxas próximas de zero. Até lá haverá muito espaço para estímulos ao consumo e ao investimento e para a consolidação de um novo dinamismo. Não é o caso do Brasil, atolado na estagflação e comandado por um governo sem credibilidade e com pouca margem de escolha. A aposta nos 8% foi reforçada com a divulgação dos dados de fevereiro do Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA). A alta mensal passou de 1,27% em janeiro para 0,90% no mês passado. O acumulado em 12 meses pouco variou, passando de 10,71% para 10,36%. Mas o recuo de dois pontos no semestre, mencionado por dirigentes do Banco Central (BC), tornou-se mais plausível, segundo analistas do setor financeiro.

11 Março 2016 | 03h00

Não há motivo para festa. Nada garante, por enquanto, um resultado abaixo de 7% em 2o16 nem a convergência para a meta de 4,5% no próximo ano. O número de fevereiro foi muito parecido com aquele previsto pelas cinco instituições com mais acertos no curto prazo: 0,92%. Nesse quadro, divulgado pelo BC no começo de março, a inflação chegará a 8,64% em junho e continuará em queda no segundo semestre, fechando o ano em 7,24%. Na mesma semana, a mediana das projeções da centena de entidades consultadas pelo BC apontou para o fim de 2016 uma alta acumulada de 7,59%.

No ano passado, o conjunto dos preços aumentou 10,67%. Neste ano a elevação deve ser menor, segundo os analistas, por causa da recessão, porque alguns preços administrados, como os da energia elétrica, devem subir muito menos que em 2015, e também porque o impacto do câmbio será provavelmente mais suave.

Além disso, os preços por atacado têm subido menos. Mas a transmissão desses preços para o varejo nem sempre ocorre mecanicamente. Em 2014, por exemplo, a alta perdeu impulso no atacado, mas o aumento dos preços ao consumidor ganhou velocidade.

A transmissão depende das condições finais da demanda. Essas condições são determinadas pelo nível de emprego, pela renda familiar, pelo crédito, pela confiança dos consumidores e pela evolução das contas públicas. O desemprego, o crédito mais caro e a própria inflação têm afetado a capacidade de compra das famílias. Isso é comprovado pela piora dos indicadores do comércio varejista e dos serviços.

Além disso, várias pesquisas têm apontado consumidores menos confiantes, mais temerosos de perder o emprego e menos dispostos a assumir o risco de novas dívidas. Todos esses fatores apontam uma severa contenção da demanda final e indicam uma seguida perda de impulso da inflação.

Mas nada permite prever um ajuste das contas públicas mais sério e mais consequente que o do ano passado. O governo está quase travado. Tem pouca disposição para adotar um programa severo de ajuste, enfrenta resistência a suas propostas no Congresso e é pressionado pelo PT para afrouxar a política econômica. A decisão de usar os bancos estatais para aumentar a oferta de crédito é um lance provavelmente inócuo, por causa da baixa confiança dos consumidores e dos empresários. Mas é também uma tentativa de suavizar a política monetária.

No começo do mês, o BC decidiu, como em janeiro, manter os juros básicos em 14,25%. Há quem preveja uma redução nos próximos meses, mas é difícil, hoje, de imaginar uma boa justificativa para essa mudança. Mesmo com taxas declinantes neste ano, a inflação permanece muito alta e seu principal combustível, o desarranjo das contas públicas, deve continuar alimentando a alta de preços. Sem a certeza de uma política orçamentária muito mais séria, os dirigentes do BC cometerão uma irresponsabilidade, como em agosto de 2011, se afrouxarem o controle da moeda e do crédito.

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