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Sobre credibilidade

O Estado de S.Paulo

17 Agosto 2014 | 02h 05

O que define a importância de um veículo de comunicação, daquilo que podemos chamar genericamente de Imprensa - inclusive com sua extensão na internet -, importância essa traduzida em quantidade e qualidade de leitores, ouvintes e telespectadores? A resposta é simples e óbvia: credibilidade. A mídia impressa e a programação jornalística de emissoras de rádio e de televisão só conquistam leitores, ouvintes e telespectadores na medida em que esse público acredita que lhe estão sendo oferecidas notícias e informações corretas e opiniões relevantes e úteis.

A credibilidade de um veículo de comunicação resulta da avaliação feita pelo público de sua capacidade de apurar e de divulgar notícias com isenção e objetividade, prestar informação precisa e confiável sobre assuntos de interesse e oferecer opinião fundamentada sobre questões relevantes, sejam opiniões divergentes que ajudem a esclarecer temas controversos, seja a opinião própria do órgão de comunicação, esta claramente exposta em espaço editorial claramente definido.

Cumpridos todos esses requisitos que a habilitam - com seu trabalho de noticiar, informar e opinar - a exercer algum tipo de influência sobre a opinião pública, a Imprensa passa a ser um estorvo para os poderosos mais preocupados com o poder do que com qualquer outra coisa. E é exatamente nesse momento que ela cumpre, em toda sua amplitude, o papel talvez mais importante que lhe cabe numa sociedade democrática: fiscalizar o poder público, cobrar-lhe promessas, denunciar malfeitos, alertar sobre ameaças ao bem comum. Possibilitar, enfim, que o eleitor saiba o que está sendo feito com seu voto, que o cidadão conheça o que está sendo feito em seu nome e com o seu dinheiro.

É por essa razão que, para ter credibilidade, a Imprensa deve, por princípio, manter uma postura de distanciamento crítico dos poderosos. Mesmo que haja alinhamento ideológico ou programático com os governantes de turno, a sociedade espera que os veículos de comunicação estejam permanentemente dispostos a apurar e a denunciar eventuais desvios de rota ou de conduta. Fora disso, o que existe é Imprensa "chapa branca", cuja credibilidade se esgota nos limites dos interesses políticos dos governantes.

Não é sem razão, portanto, que, no momento em que as eleições passam a apresentar uma ameaça ao projeto de poder do lulopetismo e a Imprensa, além de cumprir seu papel fiscalizador, ecoa o sentimento nacional de frustração diante da marcha à ré geral que o atual governo impôs ao País, o comando da campanha reeleitoral de Dilma Rousseff reforça a decisão estratégica de concentrar seus ataques na "mídia derrotista e pessimista" que se recusa a alardear as realizações da era petista. Por intermédio do Instituto Lula, foi lançado um novo site, "O Brasil da Mudança", que oferece a todos os brasileiros a oportunidade de fazer uma incursão pelo universo onírico dos 12 anos de reinado de Lula e de sua criatura.

No evento em que, em Brasília, ambos anunciaram o novo site que, segundo Dilma, "vai ajudar a gente a enfrentar o derrotismo e o pessimismo" da mídia, Lula fez blague e as habituais referências debochadas à Imprensa: "Não é para pedir que falem bem. A gente só quer, pelo menos, que as pessoas sejam honestas no tratamento da cobertura". Ou seja, que a mídia em geral se comporte exatamente como as emissoras de rádio e de televisão oficiais, nas quais o noticiário, pago com recursos públicos, é tão honesto que tem uma credibilidade perto de zero, como demonstram os índices insignificantes de audiência de que desfrutam.

Esse é um problema para o qual o PT tem solução: a "democratização da mídia". Nenhum petista, nem mesmo Franklin Martins, o maior defensor da ideia, se deu ao trabalho de explicar o que entende exatamente por mídia "democrática". Mas dá para imaginar do que se trata, a partir da veneração de petistas pelo modelo cubano, no qual a imprensa é monopólio estatal, e seu reverente entusiasmo pelos regimes bolivarianos, que sufocam a liberdade de expressão.

Menos mal que Dilma se mantém firme na decisão, tomada logo após sua posse no governo, de engavetar o projeto urdido por Martins sob o olhar complacente de Lula, de quem era ministro de Comunicação Social.

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