Solução enganadora

As dificuldades que os paulistanos enfrentam para se deslocar são cada vez maiores. Os congestionamentos continuam a aumentar - porque o crescimento do sistema viário não acompanha o da frota de veículos -, o que prejudica tanto o transporte coletivo como o individual; o sistema metroferroviário, embora rápido, está superlotado, funcionando no limite de sua capacidade; e o serviço de ônibus combina lentidão e superlotação. Como a expansão do Metrô exige tempo, a curto prazo só se pode fazer alguma coisa para melhorar o trânsito e o sistema de ônibus, o que cabe à Prefeitura.

O Estado de S.Paulo

28 Julho 2013 | 02h13

Fernando Haddad assumiu a Prefeitura prometendo dar prioridade ao transporte coletivo, em especial com a implantação de corredores e faixas exclusivas para ônibus, para que possam circular a uma velocidade maior.

Surpreendido pelas manifestações de junho, que tiveram como um de seus pontos principais justamente a melhoria do transporte público, Haddad resolveu não só apressar a criação das faixas, como aumentar sua extensão.

Essa opção é facilmente explicável. Os corredores são eficazes quando construídos à esquerda das vias - não atrapalham nos cruzamentos a manobra dos veículos que circulam nas outras faixas e, para garantir maior fluidez, devem também ter pontos para ultrapassagem dos ônibus. Mas eles são caros e sua construção é demorada. Por isso, os 150 km prometidos só deverão ficar prontos em 2016. Já a criação das faixas, que exige basicamente a sua delimitação por meio de sinalização pintada no asfalto, é rápida e mais barata.

Os 150 km de faixas previstos inicialmente aumentaram para 220 km e já começaram a ser implantados, em vias importantes como Marginal do Pinheiros e Avenidas Paulista e Doutor Arnaldo. Mas, ao contrário do que sugerem a pressa e o otimismo do prefeito com seus resultados, as faixas não são nenhuma solução milagrosa. Se fossem, já teriam sido adotadas em toda a cidade.

Os corredores e as faixas levantam alguns problemas, aos quais tanto as autoridades como a população precisam ficar atentas. Um deles é a necessidade de fiscalização rigorosa para evitar que seus espaços sejam invadidos por outros veículos. As faixas são mais vulneráveis a esse risco, o que levou a Prefeitura a destacar um bom número de fiscais para as que acabam de ser criadas. Estima-se que a Avenida Paulista, por exemplo, conte hoje com um fiscal a cada 300 metros.

Como os outros corredores e faixas, criados há bastante tempo, nunca contaram com fiscalização desse tipo - pela simples e boa razão de que não há agentes em número suficiente -, é quase impossível que essa intensa vigilância possa ser mantida. Não se aumenta o quadro de fiscais num passe de mágica. Infelizmente, tudo parece indicar que tanto a pressa na implantação das faixas como a rigorosa fiscalização sejam mais uma manobra de propaganda - uma jogada de marketing - do que algo sério e consistente.

Outro problema diz respeito à viabilidade de implantar corredores e faixas como uma medida isolada. Ao destinar uma área exclusivamente para os ônibus, fica ainda mais reduzido o espaço, que já era insuficiente, para os demais veículos. Como a frota destes não para de crescer, e rapidamente, a consequência dessa combinação de mais carros, caminhões e motos e menos espaço para sua circulação só pode ser o aumento dos congestionamentos, que já são enormes.

Isso só não aconteceria se, ao mesmo tempo, fossem adotadas medidas capazes de melhorar de tal maneira o transporte coletivo que certamente muitos paulistanos prefeririam deixar seus carros nas garagens. Só o aumento da velocidade dos ônibus nos corredores e faixas - supondo que ele ocorra e seja significativo - não basta, como pretende a Prefeitura, para produzir esse efeito. É preciso também, por exemplo, diminuir a superlotação, garantir respeito aos horários e rever os itinerários dos ônibus de forma a atender às necessidades dos novos possíveis usuários. O que está sendo feito para isso?

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