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Opinião

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Sombras nas bolas de cristal

Se as bolas de cristal da economia estiverem funcionando tão mal quanto no começo do ano passado, os brasileiros têm motivos muito especiais para se preocupar. Em 2015 a recessão e a inflação foram muito piores do que indicavam as projeções dos economistas entre o réveillon e o Dia de Reis. A inflação deveria ter chegado a 6,56% e o Produto Interno Bruto (PIB), aumentado 0,5%, segundo a pesquisa Focus divulgada há um ano, em 5 de janeiro, pelo Banco Central (BC). Mas os preços devem ter subido mais de 10% e a contração econômica, segundo tudo indica, passou de 3%. A pesquisa publicada ontem apresenta perspectivas mais sombrias que as de um ano antes. A inflação projetada para 2016 chegou a 6,67% e o PIB, segundo a nova estimativa, deve encolher 2,95%. Se o erro das previsões for parecido com o do início do ano anterior, os brasileiros poderão ter saudade de 2015.

05 Janeiro 2016 | 03h00

Nem o governo espera um bom desempenho econômico nos próximos meses. O cenário tomado como referência para a Lei de Diretrizes Orçamentárias (LDO), aprovada no fim de dezembro, inclui uma contração econômica de 1,9% e uma inflação de 6,47%, medida pelo Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA). Os parlamentares encarregados da redação final acertaram esses números com os técnicos do Executivo.

O avanço do IPCA considerado na LDO é quase igual ao estimado pelos economistas do mercado e a recessão é um pouco menos funda. Mas o cenário inclui também uma taxa básica de juros de 13,25% no fim de 2016. Na pesquisa Focus a taxa apontada chegou a 15,25%, um ponto porcentual acima daquela ainda em vigor. Essa expectativa reflete a disposição anunciada pelos dirigentes do BC de apertar a política monetária, provavelmente a partir deste mês, para tentar atingir a meta de inflação de 4,5% até o fim de 2017.

Seria insensato apostar a casa ou qualquer bem de família nessas ou em outras projeções econômicas, principalmente quando a incerteza política torna mais precário o funcionamento das bolas de cristal, cartas de tarô, búzios, modelos econométricos e outras ferramentas de adivinhação. Mas o esforço de previsão é indispensável a qualquer atividade. Nenhum goleiro, consumidor, produtor ou investidor se permite agir sem alguma concepção do futuro e por isso as projeções, mesmo inseguras, têm sempre alguma importância.

Além do mais, a precisão das estimativas, neste momento, é bem menos importante que os desafios e as tendências mais aparentes. Ninguém pode falar com alguma segurança, neste momento, sobre o desdobramento, a duração e o resultado final de um processo de impeachment. Mas o assunto está no topo das prioridades da presidente Dilma Rousseff e isso afetará as decisões políticas e econômicas por algum tempo.

O Executivo terá de enfrentar esse e outros obstáculos, incluída a pressão do ex-presidente Lula e do PT, para cuidar da gestão das finanças públicas. Investidores e consumidores provavelmente continuarão retraídos, o baixo ritmo de atividade ainda prejudicará a arrecadação de tributos e o governo, em qualquer caso, dependerá da recriação do imposto do cheque, a Contribuição Provisória sobre Movimentação Financeira (CPMF), para alimentar o Tesouro. A presidente continua mostrando pouca disposição para o corte e a racionalização da despesa.

Há razões muito sólidas para duvidar do resultado fiscal prometido, um superávit primário (sem os juros) equivalente a 0,5% do PIB. Além disso, conter o endividamento público será mais difícil, se os juros básicos subirem.

Numa hipótese otimista, 2016 será diferente de 2015 em um ponto importante: a recessão e a alta de preços ficarão mais perto das previsões do que ficaram no ano anterior. Ainda assim, o ano será muito ruim. Qualquer cenário mais luminoso dependerá da apresentação, pelo governo, de um programa sensato e crível de arrumação de suas contas e de aumento da produtividade nacional. Não há, por enquanto, nenhum sinal desse tipo.

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