Superar a violência voltando às origens

Cordialidade é a certeza de que somos irmãos e bebemos da fonte da paz e da fraternidade

Dom Leonardo Steiner*, O Estado de S.Paulo

14 Fevereiro 2018 | 05h00

A realidade a ser discutida e refletida pelas comunidades católicas do Brasil no período da Quaresma, estimuladas pela Campanha da Fraternidade de 2018, é “Fraternidade e superação da violência”. Entre a Quarta-Feira de Cinzas e a Semana Santa, os católicos e as pessoas de boa vontade são convidados à superação da violência, lembrando que somos irmãos.

A Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) nos últimos anos tem tocado nessa questão de forma transversal na abordagem de várias situações levantadas pela Campanha da Fraternidade. A Campanha da Fraternidade está enraizada na espiritualidade da Quaresma. Ela nos provoca e convoca à conversão, transformação e mudança de vida, pois cultiva o caminho do seguimento de Jesus Cristo.

Os exercícios quaresmais que a Igreja propõe aos católicos são: jejum, esmola e oração. Três tentativas para nos abrirmos à graça da filiação divina.

O jejum é a expressão do esvaziamento, da expropriação, da libertação. Deixarmos tudo para que sejamos um só em Cristo e Cristo seja formado em nós. O jejum abre a nossa pessoa para a receptividade, para a liberdade da vida em Cristo.

A esmola é vida e fé partilhada. A esmola nasce da alegria de ter encontrado o tesouro escondido, a pedra preciosa. O amor e a misericórdia buscam o outro. Mostram que temos necessidade da partilha e nos aproximam da irmandade.

E, por fim, a oração, como exercício quaresmal, é a experiência que brota da nossa consciência de que somos tocados pelo dom do anúncio. Apercebidos da valiosa experiência do cuidado amoroso e misericordioso de Deus em Jesus Cristo, necessitamos de palavras e silêncio para agradecer e suplicar. Uma espécie de exposição ao dom recebido na tentativa de sermos atingidos com maior intensidade pelo amor e pela misericórdia. São os exercícios da transformação.

A violência tornou-se uma questão inquietante para a sociedade brasileira. A Igreja Católica no tempo da conversão-transformação recorda a necessidade urgente da fraternidade. Não se trata de levantar bandeiras, mas de apresentar à consciência de todos o desafio concreto da realidade vivida e sofrida. Um desafio para aqueles que têm fé e seguem Jesus Cristo, mas também para as pessoas de boa vontade.

“Fraternidade e superação da violência” é o tema da campanha para a Quaresma deste ano de 2018. O Evangelho de Mateus inspira o lema: “Vós sois todos irmãos” (Mt 23,8). A campanha tem como objetivo geral “construir a fraternidade, promovendo a cultura da paz, da reconciliação e da justiça, à luz da Palavra de Deus, como caminho de superação da violência”.

Sofremos e quase estamos estarrecidos com a violência. Não apenas com as mortes que aumentam, mas também por ela perpassar quase todos os âmbitos da nossa sociedade. A violência em números expressa os homicídios, os sequestros, os estupros, os assaltos.

São essas formas de violência que costumam ser objeto de políticas públicas. Encontramos outras formas de violência nas tecnologias digitais de comunicação e de informação, as redes sociais; a violência em relação às periferias; a violência devida à raça, ao gênero, à religião. Percebe-se violência nas relações sociais cotidianas, como no trânsito, nos locais de trabalho e de estudo.

O ambiente escolar em algumas realidades é de agressividade. A coexistência pacífica tem parecido frágil e suscetível a abalos, inflamados frequentemente por questões banais. Preocupa a crescente mentalidade de fazer justiça com as próprias forças.

A ética que norteava as relações está esquecida. Hoje temos corrupção, morte e agressividade nos gestos e nas palavras. Assim, quase aumenta a crença em nossa incapacidade de vivermos como pessoas, como irmãos e irmãs.

Esquecemos que, no desabrochar e no cintilar de tudo, há uma relação de amor e de cuidado. No princípio, no eclodir, no dar-se, no manifestar-se, não existem divisão, desamor, agressividade, violência, mas, sim, acolhimento, reverência e pertença fraterna. A violência vem depois, como nos indica o Livro do Gênesis. Nasce do esquecimento das origens, da vocação do ser humano: o amor.

Jesus confiou aos discípulos o maior dos mandamentos: o amor. Esse existir tem outro horizonte: “Amai os vossos inimigos e orai pelos que vos perseguem! Assim vos tornareis filhos do vosso Pai que está nos céus; pois ele faz nascer o seu sol sobre maus e bons e cair a chuva sobre justos e injustos”. Quase incompreensível!

O esquecimento do mandamento do amor e da ética gesta a violência. Os descaminhos, no entanto, podem ser superados com a volta às origens, com a reconciliação e a misericórdia. Somos chamados à superação da violência, pois somos filhos e filhas de Deus.

O papa João XXIII, num dos momentos mais tensos da História, afirmou a importância de “restaurar as relações de convivência humana na base da verdade, justiça, amor e liberdade”. Talvez por isso, Paulo VI indicava um “espírito novo”, um “novo modo de pensar o homem e seus deveres e o seu destino” como caminho para a superação da violência.

O papa João Paulo II, além de afirmar como indiscutivelmente verdadeiro o axioma “combater a pobreza é construir a paz”, insistia em que “uma paz verdadeira não é possível se não se promove, em todos os níveis, o reconhecimento da dignidade da pessoa humana, oferecendo a cada indivíduo a possibilidade de viver de acordo com essa dignidade”.

Um novo espírito, portanto, do diálogo e do perdão, impulsionará as pessoas a superarem a “violência do descarte”, na expressão do papa Francisco. A cordialidade, isto é, a força e o vigor do coração, é a certeza de que somos todos irmãos e irmãs e bebemos da fonte da paz e da fraternidade!

* Secretário-geral da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB)

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