Tabus e verdade

Em 1970, no interior de São Paulo, o tenente Alberto Mendes Júnior da Polícia Militar rendeu-se, durante um tiroteio, a um grupo de "revolucionários", impondo como condição que subordinados seus, feridos, tivessem atendimento médico. Preocupou-se, sobretudo, com a vida de seus subordinados, fiel ao seu espírito militar.

Denis Lerrer Rosenfield, O Estado de S.Paulo

01 Dezembro 2014 | 02h04

Após ainda algumas escaramuças, o tenente, sempre preocupado, aliás, com o que tinha acontecido com o restante de seus homens, foi levado para o interior do mato, onde ficou embrenhado com seus captores. Lá, o oficial foi objeto de um "tribunal revolucionário" por ter supostamente traído "companheiros", "camaradas", para utilizar o linguajar comunista, que tinham desaparecido. Fez parte desse tribunal e da ordem de sua execução Carlos Lamarca, o novo "herói" de alguns setores da carcomida esquerda brasileira.

A ordem foi cumprida da seguinte maneira. Os executantes aproximaram-se por trás do oficial, desferindo-lhe poderosos golpes na cabeça com a coronha de um fuzil. Teve a base do crânio partida, da qual jorravam sangue e miolos. O pobre indivíduo contorcia-se de dor. A sua cabeça foi esfacelada pelos heroicos "guerrilheiros", que, com zelo, cumpriam as ordens recebidas.

Posteriormente a Vanguarda Popular Revolucionária (VPR), um dos grupos esquerdistas da época, liderado por Lamarca, que se tornou seu comandante-geral, emitiu o seguinte comunicado ao "povo brasileiro": "O tenente Mendes foi condenado a morrer a coronhadas de fuzil, e assim foi morto, sendo depois enterrado".

Lamarca, anteriormente, havia desertado do Exército, traindo seus companheiros de farda, depois de ter criado uma célula revolucionária em seu regimento. Quando de sua fuga levou 63 fuzis automáticos leves com os respectivos acessórios, três metralhadoras INA e uma pistola 45. Nesse meio tempo, sua organização, com o respaldo dos cubanos, estava transferindo sua mulher e seus filhos para Cuba, onde passariam a viver. A ditadura comunista era a sua opção. Nesse sentido, falar de resistência à "ditadura" brasileira é manifestamente um contrassenso. Sua escolha era pela leninista "ditadura do proletariado".

Ora, tal indivíduo está sendo agora celebrado como se fosse por ele merecida sua promoção post-mortem a coronel com proventos de general de brigada. Do ponto de vista do relato histórico, alguns se atrevem a dizer que um tabu teria sido superado. Não dá para entender muito bem o que isso significa, considerando o seu próprio histórico de luta armada no estilo leninista da expressão, como, aliás, defendido em documentos por ele escritos à sua própria organização.

A família do tenente Mendes não foi jamais assistida pela Comissão da Anistia nem teve direito a polpudas indenizações, como as recebidas pelos assassinos do oficial da Polícia Militar de São Paulo. Alguns deles usufruem em paz seus "proventos revolucionários". A perversão é total. O mesmo aconteceu com muitas outras pessoas. Como o soldado Mário Kozel Filho, morto em seu posto de sentinela do Comando Militar de São Paulo. Ou o piloto Orlando Lovecchio Filho, que teve uma perna destroçada e hoje vive com uma mísera pensão do INSS. Além de tantos outros "justiçados" por tribunais revolucionários. Nenhuma reparação lhes foi concedida. Será por que estavam do lado errado da "História", a da redenção comunista da humanidade, fonte de um atroz totalitarismo?

A questão ganha ainda maior atualidade pelo fato de que a atual Comissão da Verdade deve terminar seu trabalho no final deste mês de dezembro. Padece ela da mesma parcialidade observada na Comissão da Anistia e, principalmente, de sua leitura ideológica da História do período.

Por que abominar, com toda a razão, a tortura e ser extremamente omissa quanto aos miolos e ao sangue de um oficial militar e à vida e amputação de membros de tantos outros? A "verdade" aplica-se a alguns, e não a outros? Ou os "direitos humanos" só valem para os que estão do lado "certo" dos companheiros revolucionários? Fora estes, os demais não são humanos?

A discussão desse assunto é mais do que oportuna, porque o relatório a ser apresentado pela dita Comissão da Verdade volta à pauta pública. Estará igualmente em questão o que fazer com ele, sobretudo considerando que se trata de um trabalho que não seguiu o mínimo rigor de uma pesquisa histórica.

Apesar de alguns pontos positivos, como o do resgate do que aconteceu com o ex-deputado Rubens Paiva, ele se caracteriza por uma orientação ideológica que o faz incapaz de retratar o que realmente aconteceu em tão importante período da História brasileira. Um retrato distorcido e deformado altera o objeto retratado.

Não é possível que seja levada seriamente em consideração uma pesquisa que privilegie a "História" - seguindo a visão dos que procuraram implantar no Brasil o totalitarismo comunista, avesso, por princípio, à democracia - em detrimento da História, retratando o que verdadeiramente ocorreu, tida por algo completamente secundário.

Uma verdadeira reconstituição dos fatos deveria voltar-se para todos os lados envolvidos. Assim, sim, sob diferentes perspectivas, poder-se-ia abordar a realidade de forma isenta. Da forma como foi feito, o relatório só propicia novos erros presentes e passados, em nada contribuindo para o futuro. Não podem as próximas gerações "aprender" - na verdade, "desaprender" - que a "esquerda" era "boa" por definição, enquanto a "direita" era visceralmente "malvada".

Ademais, fugia igualmente do escopo dessa comissão qualquer proposta de revogação ou, eufemisticamente, de "reinterpretação" da Lei da Anistia, pedra basilar do País que se veio a formar como uma democracia a partir da Constituição de 1988. Trata-se de uma espécie de contrato do Brasil consigo mesmo, cuja obediência enseja assumir compromissos passados, na plena adesão ao que foi politicamente acordado.

Espera-se que o bom senso prevaleça e esse relatório seja meramente arquivado. É o País respeitando-se a si mesmo.

*Denis Lerrer Rosenfield é professor de Filosofia na UFRGS. E-mail: denisrosenfield@terra.com.br 

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