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Takumã rumo à aldeia dos ancestrais

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Washington Novaes

Nestes tempos difíceis, em que tantas pessoas exemplares têm desaparecido - e farão falta -, o Xingu está triste com a notícia da morte de Takumã, o grande pajé kamaiurá, respeitado em todas as etnias. Muitas histórias se contavam no parque sobre Takumã e seu povo, criado pelos deuses no Morená, onde o Rio Kuluene se junta ao Ronuro e ao Batovi para formar o grande Xingu. Uma delas foi narrada ao autor destas linhas por Orlando Villas-Bôas, que, com seus irmãos Cláudio e Leonardo, foi um dos gestores do parque indígena que nasceu em 1961.

Certo dia, um índio kalapalo se banhava com seus filhos, uma menina de uns 6 anos e seu irmãozinho, de uns 4, na lagoa abaixo da aldeia, quando o pai se deu conta de que já não os via. Procurou à beira da lagoa, depois mata adentro, e não os encontrou. Deu o sinal de alarma na aldeia, vários índios foram ajudá-lo a procurar em toda a redondeza e não acharam as crianças, em terra ou nas águas. Assim passaram toda a noite, inutilmente.

De manhã, enquanto prosseguiam na procura, 18 pajés reuniram-se numa casa e iniciaram uma pajelança, oferenda aos espíritos, pedindo ajuda. Enquanto isso, outros índios foram ao posto da Funai e pediram aos Villas-Bôas que solicitassem a Brasília o envio de um avião também para a busca, do alto. Assim foi feito e nada se avistou.

Já um pouco humilhados, os pajés kalapalos concordaram em mandar um emissário à aldeia kamaiurá pedir a ajuda do grande pajé Takumã - que acedeu imediatamente. Reunido com os kalapalos, prosseguiu na pajelança. Depois de 13 dias, no começo da tarde, gritou que as crianças apareceriam até o fim da tarde, por isso era preciso fechar todas as portas na taba e deixar aberta só a da oca onde se realizava a pajelança. Assim foi feito, mas as crianças não apareceram.

Takumã pediu que prosseguisse a pajelança, já com os pajés da aldeia menos humilhados - não eram só eles que nada haviam conseguido. E a pajelança seguiu pela noite. No 14.º dia - Orlando tudo acompanhou -, Takumã, rolando pelo chão, anunciou que as portas deviam permanecer fechadas, com exceção da que dava acesso à oca onde estavam, porque as crianças apareceriam ainda naquele dia - segundo os espíritos.

Exatamente ao meio-dia as duas crianças entraram sozinhas na oca. Não sabiam explicar muito, a não ser que estavam na lagoa com o pai e apareceu um índio "pintado e enfeitado" - o que era estranho, porque não havia festa na aldeia - e as convidou para brincar. Foram atrás do índio, que lhes dava frutas para comer. Depois, deixou-as ao lado de um veado, que com elas brincava e as abrigava quando chovia. Não sabiam como haviam ido para a aldeia, naquela hora.

É uma das histórias de Takumã que todo mundo conhecia no Xingu - e respeitava. Mas hoje as etnias do parque vivem um drama, que é o de os jovens não quererem ser pajés, preferirem viver como brancos, com roupas de branco, chinelos, aparelhos de som, que aprenderam a conhecer desde que estradas foram abertas das aldeias para as cidades próximas e se instalaram antenas de televisão que lhes permite também ver os programas de "brancos". Canos trazem água das nascentes, que antes era levada pelas mulheres, e professores ensinam-lhes a língua portuguesa.

Mas para terem esse novo modo de vida os jovens querem dispor de todo o tempo para fabricarem colares, pulseiras e outros objetos que vendem nas cidades ou a quem vá à aldeia. Não querem fazer o aprendizado para serem pajés, que exige anos de sacrifício, de abstinência sexual, e que trabalhem para seus mestres - a tradição obriga.

Mas as culturas do Xingu são culturas de espíritos. Tudo tem um espírito específico que tudo rege - cada animal, cada planta, cada lugar. E só o pajé tudo conhece e invoca nos momentos necessários, inclusive nas doenças que não são "doença de branco", são "doenças de espíritos". Como se fará sem novos pajés?

Há anos, quando gravava um documentário na aldeia waurá, o autor destas linhas foi procurado por chefes mais velhos, que pediam ajuda: os jovens não queriam ser pajés, não queriam submeter-se aos sacrifícios nem trabalhar para os pajés; e estes, segundo a tradição, não poderiam ensinar sem ser remunerados, para não correrem o risco de ser mortos pelos espíritos.

Era uma situação difícil. Como interferir na vida da aldeia, em suas tradições e seus formatos religiosos? Depois de muitas consultas a antropólogos e especialistas da Funai, conseguiu-se a ajuda do Instituto Rizzo de Meio Ambiente, de Goiânia, que se dispôs a financiar um curso para aprendizes de pajé - o que foi feito nos semestres seguintes, até que sobrevieram divergências entre parentes dos mestres e de seus alunos. O aprendizado foi interrompido, sem solução alternativa.

Agora, todo o Xingu está triste com a morte de Takumã. Durante meses seus parentes não poderão enfeitar-se, nem pintar-se. Até que chegará a grande hora: os índios irão para a floresta em busca da mais nobre das árvores; levarão os troncos para a aldeia, onde serão pintados e enfeitados para o cerimonial do Kuarup. Todos chorarão e lamentarão, pela última vez, a morte do pajé. Dançarão em sua homenagem. Depois os troncos perderão seus enfeites e serão atirados ao rio. E nunca mais se falará o nome do morto, que seguirá definitivamente para a aldeia dos ancestrais, "onde todos nos encontraremos um dia".

É assim no Xingu, onde se juntaram sociedades que, enquanto vivendo na força de suas culturas, sem influências da nossa, apontavam em direção às utopias humanas: não delegavam poder a ninguém (o chefe não manda, não dá ordens); cada individuo era autossuficiente, sabia fazer tudo de que precisava para viver; e ninguém se apropriava da informação para transformá-la em poder político ou econômico - o que um sabia todos podiam saber.

Takumã seguirá para a aldeia dos ancestrais, onde nos aguardará.

Washington Novaes é jornalista. E-mail: wlrnovaes@uol.com.br.

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