Taxa de juros, inflação, incertezas e o mercado

A recente decisão do Comitê de Política Monetária (Copom), do Banco Central (BC), que reduziu a taxa básica de juros, ou Selic, de 12,5% para 12% ao ano, causou grande surpresa no mercado financeiro, pois a grande maioria dos seus analistas previa que a taxa não seria alterada. Conforme se diz nesse mercado, eles estavam ancorados nessa previsão de estabilidade.

Roberto Macedo, O Estado de S.Paulo

15 Setembro 2011 | 00h00

Isso se evidenciou, por exemplo, em reportagem do jornal Valor publicada na edição do fim de semana anterior à data da reunião. Ouvidos 33 analistas, a matéria concluiu que a estabilidade da Selic era a opinião unânime. Além disso, só três esperavam queda da Selic ainda em 2011 e apenas 13, uma taxa menor até o fim de 2012. Os demais previam a estabilidade da taxa até o fim do ano que vem!

Acertar previsões é muito importante para analistas e instituições a que servem. Entre outros aspectos, orientam decisões quanto à alocação de recursos entre diferentes aplicações, bem como a remuneração oferecida a depositantes. Sei de instituições em que parte da remuneração de seus analistas está ligada ao acerto de previsões, o qual também tem efeito no prestígio que sustenta carreiras profissionais. Compreende-se, assim, parte das frustrações após a decisão do Copom.

Por essa e outras razões, a redução da Selic foi bastante criticada no mercado financeiro. Entre outros aspectos, as críticas apontaram que o Copom alterou sua forma de decidir, passando de aumento a redução da Selic sem uma pausa intermediária, assim afetando sua previsibilidade; que a independência do BC foi violada (às vezes ela é um eufemismo para uma desejada dependência do mercado); que a decisão teria sido política (caso em que o BC seria dependente do governo que integra); e que o Copom assumiu também a missão de defender o nível de atividade da economia, quando deveria cuidar apenas da inflação.

Há muita espuma nesse chope em que se afogaram frustrações e outras reações quanto à decisão. Em particular, analistas ignoraram uma lição fundamental dos cursos de estatística pelos quais devem ter passado. Previsões envolvem, em geral, um elemento de incerteza e, assim, devem incluir uma avaliação probabilística. O que fizeram foi atribuir 100% de certeza à estabilidade da taxa, denotando excesso de confiança, que não se coaduna com a frieza analítica que procuram cultivar.

Note-se que o mês de agosto marcou mais uma etapa da crise econômica mundial, com destaque para agravados problemas na área do euro, juntamente com mais notícias ruins sobre os EUA. Nesse mês, os EUA chegaram ao clímax daquele enorme problema de aumentar o teto de sua dívida - que o mercado viu como mal resolvido -, e que também levou à redução da nota do país na avaliação de seu status como devedor, por uma agência do ramo. Tudo isso turvou ainda mais o cenário econômico, reforçou as previsões de menor crescimento lá fora e aqui e levantou até o temor de uma nova recessão mundial. E, vale lembrar, o nível de atividade atua sobre a inflação, que tende a cair com o arrefecimento dele, sendo assim muito relevante para as decisões do Copom quanto à taxa Selic.

Ora, na esteira da recessão de 2008-2009 o BC foi muito criticado pela sua demora em reduzir a Selic, o que deve ter ficado na cabeça dos membros do Copom e seus sucessores. Assim, sem discutir se certo ou errado, também era possível que na reunião o Copom optasse logo por uma redução da Selic, mesmo sendo mais provável - mas, vale repetir, não garantidamente certo - que viesse a decidir pela estabilidade dessa taxa. E não estou argumentando só a posteriori, pois antes da decisão levantei a hipótese de redução em texto escrito para uma instituição financeira.

A avaliação de probabilidades é a tecnologia para trabalhar em condições de incerteza, de modo a levar a previsões mais robustas, mas sempre sujeitas a erros. E, ainda, para não pôr a cabeça a prêmio, se turvada pela confiança excessiva em acertos de previsão.

O Copom faz previsões, e se mostra também muito convicto de que está no caminho certo, embora nas suas atas faça referências à incerteza. Elas costumam apresentar previsões da inflação futura, que há tempos a revelam em 2011 sempre acima do centro da meta de 4,5% no ano, juntamente com dados recentes que a mostram superando até o teto dessa meta, de 6,5% ao ano. Tampouco as previsões do Copom dão maior segurança quanto ao sucesso de suas ações em 2012, outra razão sendo que estimativas de prazo mais longo têm menores chances de se materializar, dada a maior incerteza que envolvem.

Desta vez, a ata veio com uma novidade na previsão, em econometrês: "Um modelo de equilíbrio geral dinâmico estocástico de médio porte admite que a atual deterioração (...) internacional cause um impacto sobre a economia brasileira equivalente a um quarto do impacto (...) durante (...) 2008/2009 (...). Nesse cenário (...), a atividade (...) doméstica desacelera e, apesar de (...) depreciação da taxa de câmbio e de (...) redução da taxa básica de juros (...), a (...) inflação se posiciona em patamar inferior ao que seria observado (se) não (...) considerado o (...) efeito da crise internacional".

O Copom também prevê que neste terceiro trimestre se encerra o ciclo de aumento da inflação acumulada em 12 meses e confia numa tendência declinante a partir do próximo. Também admite que o governo que integra vai colaborar no combate à inflação contendo gastos, embora o tímido ajuste fiscal se limite a gastar menos de uma receita que continua aumentando.

Quem de fora do governo contempla toda essa aposta, refletindo sobre os fundamentos dela para suas decisões, não pode ignorar as incertezas que a cercam, nem deixar de ter um plano B caso venha a se frustrar, o que faltou a quem apostou num só resultado para a última reunião do Copom.

ECONOMISTA (UFMG, USP E HARVARD), CONSULTOR ECONÔMICO E DE ENSINO SUPERIOR, É PROFESSOR ASSOCIADO À FAAP

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