Temer e Sarney

A primeira grande diferença entre os dois governos pode ser percebida na economia

O Estado de S.Paulo

04 Novembro 2017 | 03h00

Depois de a Câmara dos Deputados ter negado prosseguimento à segunda denúncia de Rodrigo Janot, ex-procurador-geral da República, contra o presidente Michel Temer, voltaram a surgir comparações entre o governo atual e o de José Sarney, no final da década de 80 do século passado. Sem qualquer pretensão de rigor histórico, essas análises têm um objetivo mais comezinho, com um nítido viés político-ideológico, de difundir a ideia da suposta falência do governo Temer, de forma similar ao que teria ocorrido com José Sarney em seus últimos meses na Presidência da República.

Ainda que possa ser muito conveniente aos críticos do atual governo decretar sua morte prematura, os fatos não mostram similaridade entre os governos de Temer e de José Sarney. Na realidade, a comparação entre as duas administrações favorece objetivamente o presidente Temer. E, isso, a despeito dos baixíssimos índices de popularidade atribuídos ao atual presidente.

A primeira grande diferença pode ser percebida na economia e na política econômica. No último ano de Sarney na Presidência, o País presenciou uma séria crise econômica, com uma inflação desenfreada. Além disso, as tentativas de recolocar a economia nos trilhos haviam falhado e o governo já não dispunha, nos últimos meses, de remédios efetivos para sanear a difícil situação.

Os tempos presentes são bem diferentes. Ainda que a crise econômica gestada nos anos do PT no governo federal tenha sido forte, batendo recordes históricos, as medidas adotadas até aqui pela equipe de Temer deram bons resultados. Os números da economia atestam que o País não é uma nau sem rumo.

A inflação acumulada de 12 meses em abril de 2016 – Michel Temer assumiu interinamente a Presidência em maio de 2016 – era de 9,28%, segundo o IPCA. No acumulado de agosto de 2017, a taxa estava em 2,46%. Em 1989, último período integral do governo Sarney, a inflação foi de 1.782%. Quanto ao Produto Interno Bruto (PIB), a diferença também é relevante. A variação anual do PIB medida no primeiro trimestre de 2016 foi de -5,4%. No segundo trimestre de 2017, a variação anual era de + 0,3%. No final do governo Sarney, o PIB despencou de -0,1% em 1988 para -4,95% em 1990.

Outra enorme diferença entre os dois governos é a capacidade de Temer para levar adiante as reformas estruturais. O atual governo obteve apoio suficiente do Congresso para aprovar, por exemplo, a PEC do Teto dos Gastos, a reforma trabalhista e a reforma do ensino médio. Não descreve bem os fatos, pois, quem prega que o governo atual está em regime de mera sobrevivência. Ao contrário, a atual gestão foi protagonista de avanços tão significativos que, antes de serem aprovados, eram dados como inverossímeis.

Logicamente, as circunstâncias históricas entre os dois governos são muito díspares, o que dificulta fazer comparações. Em 1989, por exemplo, não existia a militância política feita através da chamada rede social. O fato é que nada autoriza a interpretação de que os meses restantes a Temer no poder devam ser resumidos a simples espera por um novo governante em 2019.

Eis talvez a principal diferença entre o governo de Temer e o de Sarney: a administração atual tem um claro rumo a ser seguido e não pairam dúvidas de que esse é o rumo correto para o desenvolvimento econômico e social do País. As boas reações da economia e do emprego confirmam o acerto das políticas de Temer. Como ainda não existem bolas de cristal que mostrem com exatidão o futuro, é passível de discussão a capacidade de realização do governo Temer nos próximos meses. Por exemplo, se a reforma da Previdência será aprovada pelo Congresso e como será o seu conteúdo final. De toda forma, só o fato de a reforma previdenciária estar em pauta – assunto espinhoso, que afeta o bolso do cidadão – é sinal inequívoco de que o atual governo não está cambaleante e sem forças, como alguns apregoam.

Comparações entre períodos históricos são muito interessantes e podem iluminar aspectos da política e relações entre seus atores. Tais comparações, no entanto, são úteis na medida em que se baseiam em fatos. Quando os fatos são voluntariamente esquecidos, elas são meras distorções da realidade, que confundem e nada constroem.

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