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Temos Copa

O Estado de S.Paulo

12 Junho 2014 | 02h 06

Bilhões de telespectadores em todo o mundo, entre eles dezenas de milhões de brasileiros, estarão sintonizados pelos meios eletrônicos esta tarde com o evento de Abertura da Copa do Mundo de 2014, que levará ao gramado do Itaquerão, em São Paulo, a pentacampeã seleção brasileira, anfitriã, contra a equipe da Croácia. É hora de a Nação brasileira unir-se, acima de divergências de qualquer natureza, na paixão nacional pelo esporte mais popular do mundo e torcer pela conquista do título de hexacampeão que consagraria, para orgulho de todos, a condição hegemônica do Brasil no futebol mundial.

Esta Copa do Mundo, com todas as dificuldades conhecidas, poderá ser, de fato, a Copa das Copas. Isso dependerá do comportamento do povo brasileiro, nestes dias que nos separam de 13 de julho, data da final do torneio. E essa conquista independerá do resultado da competição. É importante, portanto, que agora, quando a atenção do mundo inteiro se volta para nós, que nos mostremos capazes de conciliar a paixão pelo esporte com civismo, a emoção com racionalidade, o espírito de competição com a hospitalidade - sempre tendo presente o princípio civilizado de que a Copa é apenas uma competição esportiva e a finalidade primordial do esporte, expressa no símbolo olímpico dos anéis entrelaçados, é o congraçamento universal do Homem.

Num plano, digamos, menos idealista, não se pode ignorar o fato de que o Brasil vive um momento delicado e complexo, tanto social quanto política e economicamente. Sentimentos de insatisfação, com a alarmante tendência a se manifestar com violência, têm levado a intranquilidade à vida do cidadão brasileiro que parece estar descobrindo, depois de mais de uma década de mistificação e manipulação por parte dos poderosos de turno, que não vivemos exatamente no Paraíso.

A história desta Copa ilustra à perfeição o processo por meio do qual as preferências lúdicas e a boa-fé do povo brasileiro têm sido manipuladas. O mesmo grupo político que hoje pretende reformar as instituições por decreto, implantando "conselhos populares" ao estilo bolivariano, sob a alegação de que é preciso "ouvir o povo", fez questão de apresentar a escolha do Brasil para sede da Copa 2014 (e da Olimpíada 2016) como decisão e conquista pessoais de Lula, que então não teve a menor preocupação de consultar os brasileiros.

Se essa consulta tivesse sido feita na forma de uma discussão ampla e aberta, certamente teria neutralizado os argumentos daqueles que hoje estão por detrás da campanha sectária do "não vai ter Copa", sob o argumento de que os recursos aplicados no evento seriam mais bem aproveitados em investimentos em educação e saúde. Os números mostram que esse argumento nem sempre procede e que, afinal, a Copa pode ser um bom negócio para o País - ainda que seu famoso "legado" esteja muito aquém das promessas do governo petista.

Na verdade, os problemas mais graves que têm anuviado o clima da Copa devem ser debitados à incompetência gerencial do poder público no provimento da infraestrutura, muito especialmente no capítulo da mobilidade urbana, indispensável menos à realização do evento e mais à vida cotidiana e produtiva aos brasileiros.

O que verdadeiramente importa, no entanto, de hoje até o final da Copa, é torcer pelo hexacampeonato com "o coração na ponta da chuteira", como determina essa paixão nacional. É hora, também, de rejeitar os argumentos daqueles que tentam vincular o comportamento dos eleitores nas eleições de outubro ao sucesso ou insucesso da seleção brasileira - argumentos tolos, que subestimam o discernimento do eleitor brasileiro. E, além disso, não encontram fundamento no retrospecto histórico das Copas: em 1994 o Brasil foi tetra e o governo ganhou as eleições; em 1998 o Brasil foi derrotado e o governo ganhou de novo; em 2002 o Brasil foi penta e a oposição venceu nas urnas; em 2006 fracassamos na Copa e o governo conquistou a reeleição; em 2010, novo fracasso no futebol e nova vitória do governo nas eleições.

Agora, temos Copa.

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