Tempos densos

A percepção do fluir do tempo na História das sociedades não é unívoca, mas análoga à versão que dos eventos tecem os seres humanos. Assim, tanto Wilhelm Dilthey (1833-1911) quanto José Ortega y Gasset (1883-1955) destacaram a "densidade" dos momentos históricos. O Brasil viveu em 2014 uma dessas raras circunstâncias. Parece como se os fatos se tivessem acelerado e concentrado numa conjugação de circunstâncias paradoxais.

Ricardo Vélez Rodríguez, O Estado de S.Paulo

31 Dezembro 2014 | 02h03

Vivenciamos no ano que ora finda paradoxal sequência de eventos incomuns que, juntos, causaram esse clima de novidade perigosa que afeta a opinião pública, deixando-a paralisada. Os mais significativos desses fatos na sua desconjuntada sequência foram: a prisão dos condenados na Ação Penal 470; a Copa do Mundo (com a derrota acachapante da seleção brasileira); as multitudinárias manifestações de repúdio à presidenta Dilma Rousseff nos estádios, quando das suas raras aparições em público; a CPI da Petrobrás (esvaziada pelo governo e que não deu em nada); a Operação Lava Jato, deslanchada pela Polícia Federal sob o amparo legal da Justiça; a campanha eleitoral com a onda de baixarias praticadas pelo PT, em que prevaleceu o "assassinato de reputações" dos candidatos oposicionistas; a trágica morte de Eduardo Campos e a súbita ascensão da candidata Marina Silva nas pesquisas de opinião após esse triste evento; a progressiva ocupação dos espaços antes ocupados por Marina pelo candidato Aécio Neves, no final da campanha; a eleição presidencial renhida como nunca na História deste país, com a Justiça Eleitoral fazendo corpo mole diante das denúncias contra a candidata oficial, e o clima de desconfiança que se instalou entre os eleitores em decorrência dessa ineficiência, no julgamento das ações impetradas por vários setores da sociedade contra o partido do governo.

Poder-se-ia completar o quadro anterior com estes outros eventos: os desdobramentos judiciais das investigações do Ministério Público e do juiz Sérgio Moro em relação à Operação Lava Jato, com doleiros e empresários aderindo à delação premiada; os respingos desses acontecimentos policiais e judiciários na idoneidade moral do PT e dos demais partidos da base aliada; a nomeação atabalhoada, pelo novo governo, dos ministros que serão empossados no início do próximo ano (com figuras provenientes de setores oposicionistas e com programas de gestão contrários ao prometido pela candidata vencedora na campanha); a sensação de vitória pírrica da candidata Dilma em face do enfraquecimento moral do seu partido e dela própria ao ensejo da crise do petrolão; enfim, a vertiginosa queda das expectativas econômicas do País perante o quadro de corrupção e de incompetência generalizadas do governo no desmonte da Petrobrás, que se tornou evidente nos últimos meses.

A impressão que se tem é que o Brasil está à beira de um grande movimento de renovação social, em face do desgaste dos procedimentos e das instituições do que se convencionou chamar de "velha política". A rápida ascensão de Aécio no final da campanha presidencial e os 51 milhões de votos que quase o guindam ao poder, com estreitíssima margem relativamente à candidata vencedora, provam que a sociedade brasileira propende, hoje, para a mudança. Isso em que pese a teimosia petista de se aferrar ao poder num esquema de governança já gasto e desacreditado.

Dizia Alexis de Tocqueville (1805-1859), acerca dos acontecimentos que antecederam a revolta francesa de 1848 (que contrapôs socialistas ensandecidos, liberais e conservadores), que "as revoluções nascem espontaneamente de uma doença geral dos espíritos, induzida de repente ao estado de crise por uma circunstância fortuita que ninguém previu; quanto aos pretensos inventores ou condutores dessas revoluções, nada inventam ou conduzem; seu único mérito é o dos aventureiros que descobriram a maior parte das terras desconhecidas: atrever-se a ir sempre em linha reta, para a frente, com o vento a favor" (Lembranças de 1848, S. Paulo: Companhia das Letras, 2011, p. 73).

Ora, poderíamos traçar uma semelhança entre a situação francesa de meados do século 19 e a nossa: os revolucionários de plantão, no caso do Brasil, os petistas, assumiram o comando do navio sem mudar o rumo traçado inicialmente, a fim de tomarem conta de todos os espaços, tendo como norte unicamente garantir a hegemonia partidária. Os bravos petralhas caminham direto, em linha reta, para o desastre.

Recente artigo deu conta dos contornos dessa tragédia anunciada no plano econômico: "Quanto mais fundo se mergulha na Operação Lava Jato, mais cresce o risco de que ondas de choque se propaguem para além das empresas diretamente envolvidas no escândalo e atinjam outros setores da economia brasileira. Com isso, talvez não leve muito tempo até que a investigação se reflita no bolso de cada brasileiro por meio da redução da oferta de crédito" (Ana Clara Costa e Luís Lima, O petrolão é uma bola de neve - e você está no caminho, revista Veja, edição de 14 de dezembro de 2014).

Diante dessa situação de crise generalizada, o que fazer? Dizia Tocqueville em 1848: "Sempre tive por máxima que, em momentos de crise, não só é necessário estar presente na assembleia da qual se faz parte, como também é preciso manter-se no lugar onde habitualmente se é visto".

No nosso caso, dada a complexidade com que nos depara este governo que começou parecendo já estar terminando, nós, cidadãos, permaneçamos no nosso lugar, cumprindo com as responsabilidades que assumimos. Os massivos protestos que encheram as ruas das cidades brasileiras em junho de 2013 contra a corrupção e a "velha política" têm continuidade hoje na corajosa ação da Justiça contra empreiteiras e políticos da Operação Lava Jato. Tempos novos virão!

*Ricardo Vélez Rodríguez é membro do Centro de Pesquisas Estratégicas da UFJF e professor emérito da Eceme. E-mail: rive2001@gmail.com 

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