Tragédia sem fim à vista

Os claros indícios de que as forças sírias alvejaram deliberadamente o improvisado centro de imprensa de Baba Amr, onde se agrupavam os correspondentes estrangeiros que entraram clandestinamente no reduto rebelde de Homs - há três semanas sob incessante bombardeio -, desencadearam uma onda de indignação nas principais capitais europeias sem precedentes nos 11 meses da selvagem repressão do regime do ditador Bashar Assad à insurgência democrática no país.

O Estado de S.Paulo

24 Fevereiro 2012 | 03h05

No ataque de quarta-feira perderam a vida dois jornalistas - a americana Marie Colvin, que trabalhava para o Sunday Times de Londres, e o francês Rémi Ochlik, da revista Paris Match. (Nos últimos três meses, pelo menos cinco outros jornalistas morreram na Síria.) Ficaram feridos o irlandês Paul Conroy, também do Times, e a francesa Edith Bouvier, do Le Figaro de Paris. Na véspera, disparos de artilharia abateram o blogueiro sírio Rami el-Sayed, autor de imagens que correram o mundo das atrocidades em Homs, onde agora se contam às dezenas, a cada dia, os civis assassinados. Em janeiro, quando o total de mortos no país ultrapassou 5.400, as Nações Unidas suspenderam a contagem, na impossibilidade de conferir os números recebidos.

No entanto, a crescente repulsa aos massacres ordenados por Assad - cujas feições plácidas escondem a sua propensão para a barbárie, ao contrário de um Robert Mugabe, o igualmente sanguinário autocrata do Zimbábue - não deverá se traduzir no curto prazo em pressões que possam resultar na suspensão das atrocidades contra a população síria. Depois que a Rússia e a China vetaram a resolução do Conselho de Segurança da ONU, inspirada pela Liga Árabe, exortando Assad a transferir o poder para o seu segundo, que formaria um governo de transição e convocaria eleições livres em três meses, o máximo que a comunidade internacional passou a reivindicar é a abertura de corredores nas áreas conflagradas para a ajuda humanitária aos desvalidos, por intermédio da Cruz Vermelha.

Tampouco deve ter qualquer efeito prático, de imediato, o relatório encomendado pela ONU a três especialistas - chefiados pelo brasileiro Paulo Sérgio Pinheiro - sobre a carnificina síria. Entregue ontem, o texto responsabiliza militares em postos de comando e autoridades civis "dos mais altos níveis do governo" por crimes contra a humanidade e outras crassas violações de direitos humanos. A comissão anexou, em envelope lacrado, os nomes dos presumíveis culpados. A lista poderá incluir, ao que se especula, o do próprio ditador. A ONU começará a examinar o documento na próxima semana.

Não é preciso, porém, ler relatórios para entender o desalento dos governos ocidentais com a própria impotência diante do sistemático extermínio dos opositores da tirania de Damasco. "É uma situação profundamente frustrante", confessou o secretário britânico do Exterior, William Hague. Não há esperança de que algo mudará a partir da reunião de hoje, em Túnis, dos autointitulados "Amigos da Síria" - os membros da Liga Árabe e da União Europeia em busca de uma saída para a tragédia síria que não passe pelo Conselho de Segurança, sujeito ao poder de veto da Rússia e China, os amigos de Assad. Moscou se recusou a participar do encontro.

O fato é que não há no horizonte nenhum plano realista para remover Assad, nem mesmo para obrigá-lo a fazer concessões ao movimento pela democracia. A insurgência síria paga o preço da condição geopolítica do país. Situado no coração do Oriente Médio, faz fronteira com o Líbano, Israel, Jordânia, Iraque e Turquia - cada qual com os seus próprios cálculos de interesse em relação ao vizinho. Para não falar na Arábia Saudita e no Irã, contra e a favor de Assad. Além disso, a Síria é o último Estado-cliente da ex-União Soviética na área. Moscou supre Damasco de armas, fornece-lhe apoio logístico e tem acesso privilegiado ao Porto de Tartus.

Por último, não há a mínima chance de uma intervenção internacional na Síria depois dos ataques ocidentais que derrubaram o ditador líbio Muammar Kadafi, sob a capa de uma resolução humanitária da ONU. A fórmula caducou.

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