Trambique também no futebol

No afã de derrotar o governo a qualquer custo para provar a fragilidade da base política de apoio à presidente Dilma Rousseff no Congresso, governistas dissidentes e a oposição prestaram enorme desserviço ao contribuinte, à torcida e à viabilidade do futebol como negócio no Brasil. Pois quarta-feira a Câmara dos Deputados concedeu pela MP 656 benefícios fiscais, inclusive uma anistia aos clubes, sem a contrapartida prevista no projeto original, encaminhado pelo Ministério dos Esportes. Essa briga política não resultará de imediato no prêmio lotérico esperado pelos dirigentes maus pagadores do futebol, nem sempre acima de qualquer suspeita, pois para se tornar lei o texto aprovado precisa passar pelo Senado e pela sanção presidencial. Mas sua aprovação já alerta para a evidência de que nem sempre o que vem do Executivo é forçosamente ruim e nem toda iniciativa oposicionista visa necessariamente ao bem da Nação.

O Estado de S.Paulo

22 Dezembro 2014 | 02h03

A calamitosa situação do futebol brasileiro nos gramados, evidenciada nas derrotas de 7 a 1 para a Alemanha e de 3 a 0 para a Holanda nos dois jogos finais do Mundial disputado em casa, é mero reflexo da desastrosa situação financeira dos clubes, inclusive os que têm maior número de torcedores. A péssima gestão da grande maioria deles resultou numa enorme dívida com o Fisco, calculada hoje pelos especialistas em R$ 3,7 bilhões. Antes de atrasar salários ou pagamento de direito de imagem de seus craques, tais clubes deixam de pagar as obrigações com o poder público, como não recolher as parcelas devidas à Previdência Social nem pagar impostos à Receita Federal e multas aos poderes públicos.

Neste ano, a calamidade assolou o time de maior torcida do Brasil, o Flamengo, e seu rival, o Botafogo, que deu grandes contribuições às glórias do esporte no Brasil. O chamado clube da Estrela Solitária teve de mandar seus jogos no Brasileirão fora do Rio para se livrar da penhora de dívidas abatidas de suas bilheterias.

Numa tentativa demagógica de resolver o problema sem punir os maus gestores, o Ministério do Esporte mandou para o Congresso o Projeto de Lei de Responsabilidade Fiscal do Esporte. Sua ideia central era negociar a dívida considerada impagável em troca de obrigações que os dirigentes seriam forçados a cumprir para terem a dívida perdoada. Mas seu texto foi incluído no "pacotão de Natal", a MP 656, que virou uma colcha de retalhos com 43 novos temas, chamados de "jabutis".

Sob a liderança do líder do PMDB e candidato a presidente da Casa, Eduardo Cunha (RJ), parte da base governista e a oposição aprovaram na medida provisória o parcelamento da dívida dos clubes com a União em até 240 meses (20 anos). A benemerência foi completada com a concessão de descontos de 70% das multas e de 30% dos juros. O texto aprovado manda para as calendas qualquer iniciativa de moralização da gestão financeira dos clubes e, em consequência, qualquer tentativa de modernizar sua administração. O técnico da seleção vice-campeã do mundo em 1950, Flávio Costa, dizia que o futebol brasileiro era ótimo dentro e péssimo fora das quatro linhas dos gramados. Agora tudo vai mal, no campo e fora dele. Se o Senado aprová-la e Dilma não vetá-la, a MP 656 tornará inevitável a contaminação de fora para dentro de forma irreparável. Pois prejudica o contribuinte, que pagará a conta pela roubalheira dos cartolas, e os torcedores dos clubes mal geridos, que continuarão sendo rebaixados para divisões inferiores do Brasileirão, como o Palmeiras em 2012, o Vasco em 2013 e o Botafogo este ano. E será injusto com clubes que, geridos adequadamente, têm tido bom desempenho, como o Cruzeiro e o Atlético de Minas e o Internacional de Porto Alegre.

Isso só será evitado se o governo conseguir alterar no Senado o presente da China do parcelamento das dívidas e condicionar a renegociação delas com compromissos formais de sanear as finanças dos clubes e acabar com os mandatos perenes de seus dirigentes. Ou se Dilma vetar a armadilha que a Câmara engendrou.

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