Trank iú, Trump

O eleitor votou ‘pela mudança’ e, sem saber, escolheu mudar para o passado

Flávio Tavares*, O Estado de S.Paulo

13 Novembro 2016 | 06h00

O espanto, a perplexidade e a dor se misturam numa confusão tão absurda, tola e perigosa que a única resposta é o velho lugar-comum que nada revela: inexplicável. O odioso confesso, o racista, intolerante e atrasado Donald Trump será presidente dos EUA e já antecipou que pretende reeleger-se.

Potência econômica, financeira, tecnológica e militar (pátria da Coca-Cola, do McDonald’s, da Disneylândia, de Hollywood, do rock, de West Point, da bomba atômica, das Universidades de Colúmbia, Harvard e do MIT, da Nasa, do homem na Lua e da sonda a Marte), os EUA guiam nosso cotidiano e nosso comportamento. Tudo de lá nos afeta, sensibiliza-nos ou constrange.

A vulgaridade irracional de Trump amedronta tanto que o medo pode imobilizar o raciocínio e desorientar o futuro. Pela primeira vez após uma eleição, as passeatas de rua não festejam o eleito. São um protesto que só não é mais duro porque as lágrimas da desesperança atenuam a ira rebelde. Talvez por isso, cresceram o humor (tão ausente por lá) e as piadas: “Vamos para o Canadá antes da noite”. Ou a “notícia” em várias línguas: “O México constrói, às pressas, um muro na fronteira para conter a fuga dos americanos”...

Nem sequer o assassinato do presidente Kennedy, em 1963, em plena guerra fria, desencadeou tanto temor como agora.

De novo, os EUA me afligem. Em abril de 1945, eu tinha pouco mais de 10 anos quando Franklin Roosevelt morreu, mas até hoje sinto a dor e guardo a frase que escrevi no jornal da cidadezinha natal: “Apagou-se a luz do mundo”. A Alemanha nazista ainda não fora vencida e, assim, a morte era algo atroz e pungente: perdíamos nosso sol e guia.

Agora, 71 anos depois, não é a morte, mas a vida futura dos EUA e de um mundo escuro e sem luz que me afoga em angústia.

Na campanha eleitoral, o apresentador de TV e milionário (dono de cassinos e hotéis falidos), sem ideias econômico-sociais, usou o palavrão demagógico. Seduziu as massas (o “povão” adora irreverências) com um populismo vazio, oposto ao das reformas de Kennedy (ou do Brasil) dos anos 1960, que buscava o futuro. O populismo de Trump busca o passado.

O eleitor votou “pela mudança” e, sem saber, escolheu mudar para o passado – a carroça em vez do automóvel, o ábaco em vez do computador, a Inquisição em vez do papa Francisco. O “povão” confiou nas promessas de “prosperidade”, de “destruir tudo” o que gerou a crise de 2006, até o avanço tecnológico, se preciso. Quem recordou que a crise nasceu do desgoverno de Bush, de direita, como ele?

The New York Times, ícone da imprensa independente, advertiu que a eleição de Trump “ameaça o modelo ocidental de democracia”. Com isso não quis dizer que o futuro presidente vai pôr abaixo direitos e garantias ou virar ditador. Alertou para algo pior: o sistema que leva a escolher gente como Trump está falido e já não é modelo.

Será o eclipse do modelo eleitoral, em que se vota na aberração, pela libertinagem, não pela liberdade individual ou social?

No Brasil, Levy Fidelix, candidato presidencial em 2014, e, hoje, Jair Bolsonaro são exemplos desse explosivo meteoro de irreverência e ignorância. Antes, tivemos Collor, eleito pelo voto jovem e cuja única ideia era “combater marajás”. No poder, nosso intrépido “Indiana Jones” – como o chamou Bush – foi o grande marajá...

O fanfarrão Trump é a expressão de tudo isso. Seu programa na TV, O Aprendiz, simulava uma empresa – logo ele, com empresas falidas, em que cada falência o fazia mais milionário. Vigiava os “aprendizes” com perguntas grosseiras. No ponto alto, gritava o bordão: “You are fired” – “você está demitido” – e o concorrente fugia. Os assistentes aplaudiam o infortúnio alheio.

Mas o poder da Casa Branca espalha medo e ninguém ousa mexer com o diabo que lá vai se instalar. Até o diabo teve medo de si mesmo e, na madrugada da vitória, Trump apaziguou as palavras de ódio.

A eleição fez ainda mais ardentes os beijos entre Trump e Putin. O namoro do velho dono de cassinos com o velho agente da polícia secreta russa leva ao pacto entre a Alemanha de Hitler e a Rússia de Stalin, em 1939, dias antes da invasão nazista à Polônia. O totalitarismo os identificava.

Trump não se esconde em trampas, como Hitler. Na campanha, anunciou o primeiro crime a praticar como presidente – “retirar os EUA do Acordo do Clima”. O mais importante pacto para tentar salvar a Terra (firmado por Obama e dezenas de chefes de governo), para ele, “trava a economia”.

Em 1985, em longas conversas com o senador Ted Kennedy, ouvi relatos surpreendentes sobre a sociedade norte-americana. Antes, nos anos 1970, eu lhe enviava informações sobre os desmandos da ditadura no Brasil, municiando assim inflamados discursos no Senado sobre o horror que não podia aparecer em nossa imprensa. Isso abriu caminho a mútuas sinceridades.

“Nosso maior defeito é crer no absurdo e cultivá-lo como flor. Às vezes é colorido, mas não é flor”, disse-me um dia. Não se referia à matança de índios na “conquista do Oeste” ou à perseguição aos negros, mas aos hábitos alimentares (até aos refrigerantes), à degradação da política, ao escândalo de Watergate nos tempos do republicano presidente Nixon. E à dinheirama dos “lobbies” empresariais subornando senadores e deputados.

O irmão caçula do presidente democrata assassinado em 1963 foi combativo senador por mais de 40 anos. Era um “liberal”, com acento no “í”, um esquerdista, como se diz nos EUA. Aspirante a candidato presidencial, perdeu para Jimmy Carter, ainda mais “leftist” do que ele. Ted Kennedy, o “leão branco”, morreu em 2009. Hoje, mais do que espanto, teria náuseas pelo absurdo do que, na Casa Branca, será visto como flor.

Trump foi eleito pela facilidade do palavrão vulgar, mas não poderá governar com ela. Se não for assim, trank iú, Mr. Trump, mas não nos tranque em hospício.

*Jornalista e escritor, Prêmio Jabuti de Literatura em 2000 e 2005

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