Trapaça punida

Todas as vezes que um atleta russo subir ao pódio nos Jogos Olímpicos de Inverno de Pyeongchang, na Coreia do Sul, em fevereiro do ano que vem, a bandeira da Rússia não poderá ser hasteada e o hino do país não será ouvido

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20 Dezembro 2017 | 03h05

Todas as vezes que um atleta russo subir ao pódio nos Jogos Olímpicos de Inverno de Pyeongchang, na Coreia do Sul, em fevereiro do ano que vem, a bandeira da Rússia não poderá ser hasteada e o hino do país não será ouvido. Pela primeira vez na história dos Jogos, o Comitê Olímpico Internacional (COI) decidiu banir um país inteiro pela prática de “doping de estado”.

Os atletas russos que quiserem participar das competições na neve deverão submeter-se ao exame de uma comissão internacional de avaliação e, uma vez aprovados, competirão sob uma bandeira neutra, provavelmente o pavilhão do próprio COI, e usando uniformes diferenciados, sem alusão ao país de origem. Ao ineditismo desse tipo de banimento, surpreendente por si só, some-se o fato de que o país banido é nada menos do que uma das três maiores potências esportivas do mundo, ao lado da China e dos Estados Unidos.

Como se sabe, a prática de doping – quando um atleta faz uso de substâncias proibidas que melhoram artificialmente o seu desempenho durante a competição – não é uma novidade no meio esportivo. Mas é a primeira vez que um país inteiro é punido, e não apenas os atletas desonestos, individualmente. Isso mostra que para construir a sua imagem de superpotência esportiva – e fazer disso o uso político que fosse mais conveniente ao regime – a Rússia adotou o doping de seus atletas como uma política de estado.

Após uma longa investigação que durou cerca de três anos, o COI concluiu que houve “manipulação sistêmica do controle de doping” na Rússia. Para a entidade, o Ministério dos Esportes russo foi leniente ao tratar da questão.

“Trata-se de um ataque sem precedentes à integridade do esporte”, disse Thomas Bach, presidente do COI. Segundo ele, em Sochi, cidade russa que sediou os Jogos de Inverno de 2014, houve “ampla manipulação de resultados” no laboratório de controle de doping. Na Olimpíada de 2016, realizada no Rio de Janeiro, um terço dos atletas da delegação russa não pôde competir por ter sido reprovado nos testes antidoping.

Para pôr em prática a sua política estatal de triunfar sob um manto de vigarice, a Rússia adotou uma estratégia de manipulação de resultados que chega a lembrar os tempos da guerra fria, com lances que mais parecem saídos de filmes de suspense do que das páginas dos cadernos esportivos dos jornais.

Agentes do serviço secreto russo promoviam a troca das amostras de urina e de sangue dos atletas por outras que haviam sido coletadas antes do período das competições e eram armazenadas com este propósito. Sorrateiramente, durante as madrugadas, os agentes trocavam as amostras por meio de buracos feitos nas paredes dos laboratórios.

Segundo apurou o COI, Vitaly Mutko, ex-ministro dos Esportes e atual organizador da Copa do Mundo de 2018, a ser realizada na Rússia, era o chefe do esquema que permitiu o doping dos atletas russos por anos a fio sem que estes corressem o risco de serem pegos. Mutko foi banido para sempre de todos os eventos olímpicos.

O banimento da Rússia dos Jogos Olímpicos de Inverno pela prática de “doping de estado” é um sério revés para o governo do presidente Vladimir Putin, que já enfrenta a grave acusação de tentar influenciar indevidamente os resultados das eleições presidenciais na França e nos Estados Unidos por meio do apoio a empresas propagadoras de fake news que operam em seu país.

Evidentemente, Moscou nega qualquer envolvimento nos resultados apurados pelo COI. Dmitry Peskov, porta-voz do Kremlin, lançou dúvidas sobre as descobertas. “Elas não têm base”, disse.

Existe um ditado entre os atletas profissionais que diz, em uma tradução livre, que “somente os otários são pegos no exame antidoping”. Com o banimento da Rússia, o COI resgata não só a dignidade de todos os atletas que competem honestamente e espantam o mundo com a sua habilidade e capacidade física, fruto de treinamento e disciplina, mas também os valores olímpicos que inspiraram sua criação.

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