Tuberculose ainda mata muito

O bacilo da tuberculose contamina mais de sete brasileiros por hora. Neste começo do século 21, ao contrário do que seria de esperar, a doença ainda mata muito no País.

O Estado de S.Paulo

09 Abril 2015 | 02h05

Conforme dados divulgados no Dia Mundial de Combate à Tuberculose, foram registrados 67.966 casos em 2014 entre nós. Como no ano anterior houve 71.123 infecções, a redução foi de 4,4% em um ano. O índice de incidência em 2014 foi de 33,5 doentes por grupo de 100 mil habitantes. E a taxa de mortalidade, de 2,3 por 100 mil em 2013, foi 20,7% mais baixa do que a de 2003, de 2,9 por 100 mil.

Essa discreta evolução no combate ao mal não bastou, contudo, para alterar de forma significativa o panorama. Para a Organização Mundial da Saúde a doença, que foi um verdadeiro flagelo antes da descoberta da penicilina por Alexander Fleming, em 1928, não é um problema do passado, sendo considerada "reemergente" desde 1993.

O Brasil faz parte de um grupo de 22 países que concentram cerca de 80% dos casos do mundo. Em 17.º lugar em números absolutos e em 22.º em coeficiente de incidência, o País não está entre os mais atingidos, que são Índia, China e África. Mas está em situação muito pior do que se podia esperar.

"Progredimos, mas há ainda muito a avançar", disse Carlos Basile, da Parceria Brasileira Contra Tuberculose. As deficiências de nossa saúde pública são notórias: Basile se preocupa com a redução da entrega da vacina contra a doença (BCG) em postos públicos de saúde, agravada em fevereiro passado por deficiência de abastecimento.

O Ministério da Saúde alega que as dificuldades para distribuir as doses se deveram a problemas conjunturais, injustificáveis no combate a um mal contagioso e de alta letalidade, como é o caso. Segundo as autoridades, isso ocorreu porque atrasou a obtenção do certificado de boas práticas pelo laboratório fabricante, a Fundação Ataulpho de Paiva, único no País a produzir BCG e vendê-la para o Ministério e as Secretarias Estaduais da Saúde, além da rede particular de farmácias.

Como o laboratório funciona há 115 anos e não tem um único concorrente capaz de entregar o remédio, é de estranhar que a obtenção do tal atestado tenha atrasado. Outra explicação para a interrupção da entrega das doses foi a suspensão do abastecimento de água na fábrica.

O Ministério da Saúde prometeu regularizar no começo de abril a remessa rotineira das doses necessárias para combater a doença. Nesta semana deverão ser completados os estoques da vacina, para que em abril o atendimento seja normal.

As autoridades sanitárias federais também se comprometeram a reduzir os indicadores que elas mesmas consideram altos, baixando o índice de incidência em 90% e o de mortalidade em 95% até 2035. Para tanto, contam com uma verba de R$ 15 milhões a ser destinada ao aprimoramento dos testes, à aquisição de tecnologia e ao treinamento de pessoal.

Mas não parece fácil fazer em dois decênios o que não foi feito até aqui. Para chegar a esta conclusão basta constatar a precariedade demonstrada pela redução da produção de vacinas por falta d'água. O próprio ministro da Saúde, Arthur Chioro, deixa claro que o governo considera o rompimento da cadeia de transmissão, com diagnóstico e tratamento adequados, "um grande desafio" no combate ao mal.

Um Boletim Epidemiológico da Secretaria de Vigilância em Saúde do Ministério da Saúde, editado em 2014, revela: "A tuberculose ainda é um sério problema de saúde pública e demonstra relação direta com a pobreza. Está associada com a exclusão social e a marginalização de parte da população submetida a más condições de vida, como moradia precária, desnutrição e dificuldade de acesso aos serviços e bens públicos". E "configura-se como uma das principais doenças a serem enfrentadas no Brasil". Ou seja, será preciso fazer muito mais e melhor do que foi feito até agora, que foi muito pouco.

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.