Um alento para os menos jovens

Também já uso a camisa desse time, animado com o corpo que a carrega e com a cabeça que ela não esconde. Entre outras razões, pelas estatísticas do IBGE que ano a ano mostram que a expectativa de sobrevida aumenta em todas as faixas etárias, inclusive nas mais avançadas.

Roberto Macedo, O Estado de S. Paulo

04 Junho 2015 | 03h00

Aliás, na literatura sobre finanças pessoais – que sigo com interesse, pois preparo um livro sobre o assunto –, a pregação do planejamento para a aposentadoria vem sendo ultrapassada pela referência à longevidade. Até mesmo com menção de riscos da fase pós-aposentadoria, que incluem o de a longevidade exaurir os recursos previstos para essa fase.

Recentemente tive um alento a mais, especialmente ligado à cabeça, e quero compartilhá-lo com os leitores. E ele não é apenas para quem joga na mesma divisão etária do meu time. É também para os que estão nas de acesso, pois revela que a cabeça continuará funcionando bem por mais tempo do que muitos imaginam, num aspecto que interessa particularmente àqueles cujo trabalho é muito conectado com as palavras e seu uso. Ademais, há evidências de que essa fase pode ser estendida pela contínua prática desse trabalho.

O alento veio de resultados recentemente divulgados, pela revista Harvard Gazette, de estudo realizado nos Estados Unidos por pesquisadora da universidade que publica essa revista, Laura Germine, juntamente com Joshua Hartshorne, do Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT) – disponível em news.harvard.edu/gazette/story/2015/03/smarter-by-the-minute-sort-of/. Entre suas finalidades, essa revista procura transmitir em linguagem mais acessível o conteúdo de trabalhos publicados em revistas científicas. Neste caso, o estudo foi publicado na Psychological Science de março deste ano.

Segundo a primeira revista, o estudo chegou a várias e interessantes conclusões. Ela começa afirmando que ele apresenta um quadro mais rico de como as diferentes habilidades cognitivas ou de raciocínio chegam ao seu pico ao longo da vida. A crença até então disseminada era de que muitas dessas habilidades chegavam a esse ponto bem cedo, no final da adolescência e na faixa dos 20 anos. E que declinavam com a idade, com exceção da chamada “inteligência cristalizada”, de aplicação do conhecimento acumulado, como o vocabulário e a aritmética, de pico na faixa dos 40 anos.

O estudo mostrou que a habilidade cognitiva verbal, ou de uso do vocabulário, não tem um pico e continua a se aprimorar com a idade até a faixa de 65 a 70 anos. Esse é um dos aspectos mais importantes da pesquisa, e daí o meu alento.

Na mesma linha, ela também chamou a atenção para o fato de que pelo menos algumas habilidades cognitivas são plásticas e seu declínio pode ser atrasado por vários fatores. Nesse caso das habilidades ligadas ao vocabulário, o estudo recorreu também a dados levantados em diferentes décadas por outra pesquisa, baseada em entrevistas individuais para resposta a um questionário, a chamada General Social Survey, realizada nos Estados Unidos desde 1972, e mais recentemente a cada dois anos. Esses dados confirmaram que tais habilidades seguem se aprimorando em idades mais avançadas.

Tal tendência é atribuída em parte a avanços na educação tanto cedo na vida como ao longo dela, a uma melhora generalizada da nutrição e da saúde física e à ampliação das ocupações chamadas de “colarinho branco”. Elas exigem mais leituras, típicas do trabalho em escritórios e de profissionais liberais. Isso em contraposição às ocupações de “colarinho azul”, estas mais voltadas para o trabalho manual e o esforço físico.

O estudo de Germine e Hartshorne envolveu perto de 48 mil voluntários que passaram por testes de suas capacidades cognitivas. Ele também inovou ao alcançar, pelo uso da internet, um número maior de pessoas e distribuídas pelas várias faixas etárias. Testes anteriores mostravam a dificuldade de atrair voluntários, principalmente entre as pessoas que trabalham, pois envolviam sua presença em laboratórios de pesquisa. Isso acabava atraindo voluntários mais jovens e aposentados, com menor participação das faixas etárias no meio desses dois extremos. Com essa deficiência tais testes concluíam, como já assinalado, que a queda das habilidades cognitivas era generalizada. Esta costuma ser a percepção das próprias pessoas, ou seja, elas comumente entendem que com o avanço da idade algumas coisas deixam de funcionar.

Nas palavras de Laura Germine, para a capacidade cognitiva verbal o termo amadurecimento pode ser mais adequado, pois, como já dito, ela excepcionalmente não tem um pico, uma vez que continua a se aprimorar com a idade até a faixa de 65 a 70 anos.

Quanto às demais habilidades cognitivas, o estudo mostra que de fato elas alcançam picos ao longo da vida, confirmando pesquisas anteriores, mas ele também se destaca por mostrar os picos de forma mais detalhada. Assim, o da velocidade de processamento mental ocorre no final da adolescência e nos primeiros anos da faixa dos 20, nos quais também chega ao topo a habilidade de aprender e de lembrar nomes. A memória de curto prazo alcança seu pico entre os 25 anos e o início da casa dos 30, e também nestes últimos ocorre o da capacidade de reconhecer rostos. A cognição social, entendida como a capacidade de perceber as emoções de outras pessoas, chega ao pico na casa dos 40 e até a idade de 50 anos e um pouco mais. No meu entendimento, esses picos dizem respeito a probabilidades concentradas nessas faixas, variando entre pessoas dentro delas, mas bem mais entre faixas.

Como é afirmado que a habilidade de uso do vocabulário não tem pico – e talvez com o viés do meu próprio desejo –, acredito que ela vá ficando. Até quando, felizmente, o estudo não diz. No meio social em que circulo, sei de várias pessoas já na faixa dos 80 que continuam alertas no exercício dessa habilidade. O que também é alentador.

*Roberto Macedo é economista (UFMG, USP e Harvard) e consultor econômico e de ensino superior

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