Um combate longo e difícil

O ataque terrorista que deixou 31 mortos e 220 feridos em Bruxelas chama novamente a atenção para o tamanho do desafio – principalmente para a Europa – que representa a ação dos grupos que apelam para esses atos de selvageria. Esse ataque é particularmente grave não só pelo seu forte simbolismo – atinge a cidade que abriga as principais instituições da União Europeia –, como também porque ocorreu pouco mais de quatro meses depois que o mesmo grupo terrorista matou 130 pessoas em Paris. Foi mais uma impressionante demonstração de audácia e organização.

O Estado de S. Paulo

24 Março 2016 | 03h00

Dois homens-bomba se explodiram na área de check-in do Aeroporto Internacional de Zaventem, às 8 horas da manhã de terça-feira passada, e uma hora depois outra bomba explodiu na estação de metrô de Maelbeek, perto do complexo de edifícios da União Europeia. A prisão quatro dias antes de Salah Abdeslam, o único sobrevivente do ataque de Paris, foi logo associada ao atentado. O mais provável é que esse ataque – logo assumido pelo Estado Islâmico – já estava preparado, na iminência de ser desfechado, porque certamente uma operação dessa envergadura não pode ser improvisada em tão pouco tempo. É o que se depreende de declaração do primeiro-ministro belga, Charles Michel, segundo a qual já se esperava um atentado.

A solidariedade aos belgas atingidos pela tragédia foi imediata, a começar pelos líderes dos países europeus e pelo presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, assim como a promessa de ajuda para enfrentar o terrorismo. Infelizmente, a promessa de cooperação, sempre reiterada nesses momentos, ainda não se tornou realidade – pelo menos não na medida necessária –, apesar do histórico do terror nos últimos anos. Ao contrário dos Estados Unidos, onde, após os atentados do 11 de setembro de 2001, não se registraram grandes ataques de organizações terroristas, na Europa não se conseguiu conter o terror.

Só para recordar os ataques mais importantes – o da estação ferroviária Atocha, de Madri, com 191 mortos, em março de 2004; o do metrô e ônibus de Londres, com 53 mortos, em julho de 2005; os do jornal Charlie Hebdo, com 12 mortos, em janeiro de 2015, e o de múltiplos alvos, em novembro do mesmo ano, todos em Paris. Essa sucessão, à qual se vem juntar agora o de Bruxelas, faz os europeus e todos os que no mundo se sentem ameaçados – já que o terror não tem fronteiras – a perguntar o que resta ainda a fazer para interromper esse ciclo infernal de violência.

No caso na Europa, tanto seus líderes como os mais respeitados especialistas na questão sabem que uma providência fundamental que há muito já deveria ter sido adotada é uma estreita colaboração de seus serviços de segurança e inteligência. A União Europeia, que conseguiu tantos avanços nas áreas econômica, social e científica, avançou pouco naquele campo. Prova disso é que os atentados de novembro passado em Paris foram planejados em Bruxelas, de onde partiram os terroristas, e que Salah Abdeslam, refugiado na mesma cidade, só foi localizado e preso mais de quatro meses depois, apesar de ter sido nesse tempo o homem mais procurado na Europa. Foi indisfarçável nesse caso o descontentamento, sobretudo da França, com a Bélgica.

A maior colaboração dos serviços de inteligência não é garantia do fim dos atentados, mas é condição necessária e da maior importância para avançar nesse sentido. Especialmente levando-se em conta as condições particulares da Europa, onde países como França, Reino Unido, Alemanha e Bélgica, entre outros, abrigam numerosas comunidades de pessoas oriundas de países muçulmanos. Embora em sua esmagadora maioria sejam infensas ao terrorismo, por afinidades de costumes e laços familiares, nelas os terroristas ou os que – desempregados e pouco adaptados – são sensíveis a seu aliciamento têm facilidade em se esconder.

A luta contra o terrorismo dos radicais islâmicos, como mostra a dolorosa experiência da Europa, promete ser longa e difícil.

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