Um desastre chamado Donald J. Trump

Seria perigosamente contraproducente exibir algum otimismo neste momento

*Fábio de Biazzi, O Estado de S.Paulo

24 Novembro 2016 | 02h59

Já se passaram uns bons dias, mas toda vez que deparamos com uma foto de Donald Trump a primeira palavra que nos vem à mente ainda é “inacreditável”. Indagamos a nós mesmos: como foi possível a Presidência americana ter parado nas mãos de um populista digno de uma república de bananas, um inconsequente com falas racistas e misóginas e um bufão reconhecido por seu comportamento histriônico num programa bizarro em que destrata os participantes?

Quem teve a curiosidade e a paciência de ouvir algumas de suas entrevistas e os três debates presidenciais pôde observar que, na sua ignorância e em análises simplistas sobre os mais variados temas, a palavra preferencial de Trump era “desastre”. Para ele, o Obamacare é um “desastre”, a atuação de Hillary Clinton como secretária de Estado foi um “desastre” e a situação econômica da América é um “desastre”. Embora possa receber críticas ou ressalvas, nada disso se tem mostrado um desastre. O “desastre”, na verdade, foi a eleição de Donald John Trump, a qual deve estar fazendo Thomas Jefferson, Franklin Roosevelt e Martin Luther King se revirarem no túmulo.

Entre as consequências mais imediatas de sua vitória estão a instabilidade dos mercados, antecipando eventuais medidas protecionistas, a certeza de uma Suprema Corte com viés extremamente conservador, o assanhamento da extrema direita na Europa, o muito provável rompimento dos EUA com o Acordo de Paris sobre meio ambiente e as dúvidas quanto ao futuro do papel ímpar da democracia americana como potência econômica e militar no mundo. No médio prazo, ainda veremos se ele realmente vai abrir uma guerra comercial com a China, erguer um muro – ou uma cerca – na divisa com o México, deportar 3 milhões de imigrantes e processar Hillary Clinton, todas promessas de campanha, usualmente seguidas do bordão “let’s make America great again”.

Ele foi eleito apesar de ter chamado os imigrantes mexicanos de estupradores e assassinos, ter desrespeitado combatentes filhos de imigrantes, ter feito pouco-caso de um herói de guerra, John McCain, por ter sido feito prisioneiro no Vietnã, ter insultado diversas minorias étnicas e sexuais, insinuar que gostaria de namorar sua filha Ivanka e ter sido flagrado se vangloriando de assediar e agredir sexualmente inúmeras mulheres, julgando que elas nunca reagiriam por ele ser pretensamente rico e famoso. Como disse o comediante John Oliver, nada disso é normal.

Apesar desses disparates e de nunca ter ocupado nenhum cargo na administração pública, Trump foi eleito. Algumas das análises mais interessantes sobre esse fato defendem a ideia de que tal ocorreu apesar de suas posições preconceituosas e de seu comportamento deplorável, e não por conta disso. Tanto a revista The Economist quanto a New Yorker destacam o papel central desempenhado pela preocupação dos americanos com a economia e os empregos. Ambas as publicações concordam que a recuperação econômica dos últimos anos foi alcançada com o aumento da concentração de renda e que a insegurança econômica e social, a queda no nível de emprego e de qualidade de vida de boa parte da população foram fundamentais para que ele ganhasse a eleição. Reforçando essa tese, é interessante relembrar que ele só ganhou porque levou a maior parte dos votos de grandes Estados do outrora muito industrializado “cinturão da ferrugem”: Pennsylvania, Michigan, Ohio e Wisconsin.

Além disso, o “Hitler laranja” – como o denominou o também comediante Bill Maher – teria sido também favorecido pela imagem bastante difundida de Hillary ser alguém “não confiável” e pela inconsequente, para dizer o mínimo, atitude do diretor do FBI, James Comey, de dizer que o Bureau iria analisar milhares de e-mails de um ex-parlamentar, pervertido sexual e marido de uma assistente de Hillary, insinuando que eles poderiam incriminá-la, apenas três semanas antes da eleição. O fato de Comey vir a público dois dias antes do pleito dizer que nada fora encontrado só serviu para realimentar o clima de desconfiança sobre ela.

Um último fator pode ter contribuído para o desastre: a crescente relevância das mídias sociais. O próprio Trump diz ter ganho a eleição pelo Twitter, disparando as mais grosseiras inverdades madrugadas adentro ao longo dos últimos meses. O Twitter, o Facebook, os blogs e o WhatsApp são formidáveis canais que ligam as pessoas ao redor do planeta, mas carregam em seu DNA a incapacidade de se verificar a veracidade e confiabilidade dos dados e das informações que são por eles transmitidos. Nesses meios, praticamente inexiste a possibilidade de exercer a verificação dos fatos, sua relativização e priorização. Neles, análises fundamentadas convivem com os absurdos mais disparatados. As mídias sociais agravam nossa tendência a escutar apenas os canais ou as pessoas que refletem o que já sabemos ou pensamos, criando tribos que não conversam e tendem a reforçar seus preconceitos, paranoias e visões distorcidas do mundo. Esse fenômeno se torna muito relevante e preocupante quando cerca de 60% dos americanos dizem saber das notícias por meio das mídias sociais e mais de 40% dos adultos usam só o Facebook para se informar. Quando esses números são combinados com um candidato à Presidência que profere mentiras ou fatos distorcidos em três de cada quatro afirmativas, o resultado pode ser – e foi – um enorme desastre.

Será nesse contexto e com todas essas complicações que a democracia americana passará pelo maior teste de sua história. Infelizmente, agora é preciso aceitar que o inacreditável aconteceu e enxergar que seria perigosamente contraproducente exibir algum otimismo neste momento, dado ser bastante duvidoso esperar decisões sábias ou um comportamento exemplar de quem viveu 70 anos sem dar mostras disso.

*Engenheiro de produção, doutor em engenharia pela Usp, diretor executivo e consultor de gestão, é 

professor de liderança e comportamento organizacional do MBA executivo do Insper

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