Um dia difícil

Na esteira da vaga de protestos que começaram tendo como objetivo a redução da tarifa e a melhoria do transporte público e sacudiram o País, as centrais sindicais e alguns movimentos sociais promovem hoje uma série de manifestações que têm tudo para causar sérios transtornos nas grandes cidades, a começar por São Paulo, e nas principais rodovias. O Dia Nacional de Lutas aproveita-se espertamente da simpatia que aqueles protestos suscitaram na população, mas nada tem a ver com eles, porque lhe falta espontaneidade e sobra politização.

O Estado de S.Paulo

11 Julho 2013 | 02h11

Os paulistanos que se preparem, pois, se tudo correr como previsto pelos organizadores das manifestações - em especial a Força Sindical, a Central Única dos Trabalhadores (CUT) e movimentos sociais como o MST, dos ditos sem-terra -, vão viver um dia difícil. Passeatas - das quais participarão várias categorias profissionais que estarão em greve - devem paralisar, sabe-se lá por quanto tempo, vias importantes como as Marginais do Tietê e do Pinheiros e as Avenidas Paulista e Radial Leste. Como se isso não bastasse, serão também bloqueadas rodovias como Anchieta, Castelo Branco, Raposo Tavares, Fernão Dias, Dutra e Mogi-Bertioga.

Não se trata, portanto, como nas greves gerais ao estilo tradicional, de os trabalhadores cruzarem os braços e se manifestarem em locais bem determinados para defender suas reivindicações.

O que se pretende vai muito além disso, pois salta aos olhos que, com tudo que está planejado, a vida de toda a população da Grande São Paulo e de importantes regiões do interior será afetada. E o mesmo pode se repetir no Rio de Janeiro, em Belo Horizonte, Curitiba, Porto Alegre, Fortaleza, Recife e outras grandes cidades.

É o que indicam a banalização das manifestações e o comportamento da polícia, que em geral tem agido com excessiva cautela. Hoje, bastam algumas dezenas de pessoas, defendendo interesses muito específicos e limitados, para interromper a circulação numa via importante. Um dos exemplos desses casos, que se vão multiplicando rapidamente, é o que aconteceu na Fernão Dias, na volta do feriado do 9 de Julho. Um grupo de cerca de 50 pessoas fechou a rodovia, na altura do quilômetro 7, no município de Vargem, em São Paulo, entre 15h40 e 17 horas, o que bastou para provocar um congestionamento de 10 km. Tudo isso para pedir a isenção do pedágio de R$ 1,40 para quem mora na cidade.

Na maior parte dos casos, a polícia, em São Paulo e em outros Estados, tem apenas assistido às manifestações, com exceção das promovidas recentemente pelos caminhoneiros, quando os governos federal e estaduais decidiram agir com rigor para a situação não escapar inteiramente ao controle. Depois de alguns excessos cometidos no início dos protestos dos jovens contra o aumento da tarifa de transporte público, a polícia partiu para o extremo oposto, em especial quando as manifestações ocorrem nas cidades.

Já está na hora de as autoridades voltarem a seguir o bom e velho princípio de equilíbrio - "nem tanto ao mar nem tanto à terra". O que se espera da polícia não é reprimir com violência as manifestações - um direito democrático -, mas agir com todo o rigor necessário para evitar, tanto os excessos e os atos de vandalismo que têm marcado muitas delas como a paralisação de vias urbanas importantes e rodovias.

Um rigor tanto mais necessário quanto não se está, no caso do Dia Nacional de Lutas, diante de jovens inexperientes, mas de experimentados líderes sindicais, que por isso mesmo deveriam evitar decisões irresponsáveis que têm tudo para tumultuar a vida nas grandes cidades e a circulação em algumas das mais importantes rodovias do País.

A população não pode ser usada por eles como refém para obter reivindicações que vão da redução da jornada de trabalho e o fim do fator previdenciários à reforma agrária, sejam elas justas ou não.

Ela também não deve sofrer as consequências das divergências entre a CUT e o PT, que a inspira, que querem usar as manifestações para defender o plebiscito; e a Força Sindical, que, em resposta, ameaça propor um "Fora Dilma".

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