Um dia quase normal

O fim do mundo pareceu um pouco mais distante, ontem, quando um ambiente de calma e de aparente normalidade substituiu o pânico e o salve-se quem puder nos mercados financeiros. As bolsas da Europa refletiram essa melhora de humor desde cedo. À tarde, como se esperava, o Federal Reserve (Fed, o banco central dos Estados Unidos) anunciou a decisão de manter os juros básicos entre zero e 0,25% pelo menos até meados de 2013 e de adotar as medidas necessárias para estimular o crédito. Mas apresentou uma avaliação mais pessimista que as anteriores da situação econômica e, além disso, a decisão sobre os juros foi tomada por 7 a 3. A Bolsa de Nova York oscilou, ameaçou cair e acabou fechando com os índices em forte alta - Dow Jones, 3,98%; Nasdaq, 5,29%; e S&P, 4,75%.

, O Estado de S.Paulo

10 Agosto 2011 | 00h00

Mas a evolução dos mercados, na maior parte do dia, foi bem diferente da observada nos dias anteriores. Uma nova onda de pessimismo se havia espalhado pelo mundo na semana passada, apesar do acordo para elevação do teto do endividamento público americano.

O movimento converteu-se num estouro de manada nessa segunda-feira, depois do rebaixamento do crédito soberano dos Estados Unidos pela agência de classificação Standard & Poor"s. Um dia depois, como se as preocupações houvessem diminuído magicamente, as ações voltaram a valorizar-se na maior parte das bolsas europeias, assim como os preços dos produtos agrícolas e dos metais.

A reanimação dos mercados pode ser explicável, em parte, como reação ao pessimismo excessivo dos dias anteriores. Mas nenhuma grande mudança havia ocorrido no cenário das principais economias. Os investidores continuavam comprando os papéis do Tesouro americano em troca de juros muito baixos. Mas nem isso era realmente novidade. Como era sabido, o rebaixamento por uma agência de classificação seria insuficiente para afastar os compradores daqueles títulos públicos, até por falta de alternativa. Na prática, a dívida pública americana continua sendo AAA.

Mas também os dados negativos seguiam inalterados. Governo e oposição, aparentemente, continuavam ainda longe de uma solução razoável para o problema fiscal de longo prazo. Permanece o risco de um ajuste com efeito recessivo no curto prazo. Só o prolongamento de uma política monetária frouxa, com juros muito baixos e novas emissões de dinheiro, poderia atenuar esse efeito.

A manutenção dessa política foi confirmada pelo Fed às 15h30 de Brasília, mas faltou a promessa explícita de uma terceira rodada de "afrouxamento quantitativo", isto é, de um programa de compra de títulos públicos em circulação no mercado. Em Nova York, o mercado reagiu a essa indefinição devolvendo parte dos ganhos acumulados, mas depois voltou a subir. A Bovespa acompanhou esse movimento.

A nota oficial deixou aberta, pelo menos, a possibilidade de novas intervenções no mercado de títulos, com novas injeções de dinheiro no sistema de crédito. O recurso mais ou menos generoso a esse tipo de política dependerá, provavelmente, da fórmula de ajuste fiscal a ser combinada, proximamente, pelo governo do presidente Barack Obama e a oposição.

Se houver margem para expansão do gasto federal, a política monetária poderá ser menos expansionista. Mas, se a negociação entre os partidos for muito prolongada, o Fed será certamente forçado a adotar por sua conta uma política compensatória, para evitar um novo mergulho na recessão.

Na Europa, as autoridades avançaram na aplicação das políticas combinadas no último fim de semana. O Banco Central Europeu (BCE) voltou a comprar bônus da Itália e da Espanha, para evitar a ampliação da crise das dívidas soberanas e sustentar o euro. Mas o ouro e o franco suíço continuaram em alta.

Na China, principal motor da economia mundial, surgem novos sinais de desaceleração. Mas, apesar de alguma perda de impulso, a produção industrial de julho ainda foi 14% superior à de um ano antes. O governo continua prometendo frear a atividade por causa da inflação. É uma promessa pouco interessante para o Brasil, porque a prosperidade chinesa ajuda a manter elevados os preços das commodities e disso tem dependido a receita comercial brasileira.

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