Um discreto sinal de alerta

O atraso de operações entre 15 e 90 dias, indicador antecedente da inadimplência, ficou estável no primeiro semestre, segundo o informe. Mas 'as carteiras com pior avaliação cresceram de forma significativa'

O Estado de S.Paulo

19 Outubro 2017 | 03h00

O volume de créditos em perigo tem crescido nas carteiras dos bancos, segundo o Relatório de Estabilidade Financeira publicado pelo Banco Central (BC). O alerta é discreto, mas nada desprezível. A informação aparece na linguagem típica dos documentos produzidos por autoridades monetárias: “A evolução nos indicadores de risco continua a não apresentar uma tendência clara de melhora”. De fato, houve piora de um ano para outro e para isso contribuíram sensivelmente as instituições públicas, com destaque para o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES). Sem um pouco de atenção o leitor pode perder os detalhes mais feios e registrar só as informações mais positivas. Os bancos vêm ganhando muito dinheiro, como sempre, mantêm bons colchões de segurança e continuam racionando os empréstimos, como fizeram desde o começo da recessão.

O relatório refere-se ao primeiro semestre, mas as condições descritas pouco devem ter mudado depois de junho. Mas, apesar do quadro geralmente favorável, vale a pena examinar os sinais de alerta, especialmente porque indícios de perigo têm aparecido no sistema internacional.

A inadimplência tem diminuído nas carteiras dos bancos privados, em parte por causa de grande volume de reestruturações e renegociações de créditos. O atraso de operações entre 15 e 90 dias, indicador antecedente da inadimplência, ficou estável no primeiro semestre, segundo o informe. Mas “as carteiras com pior avaliação cresceram de forma significativa”.

Essa afirmação é baseada num exame dos chamados ativos problemáticos – créditos com atrasos de mais de 90 dias e operações com indícios de calote pelo menos parcial. Pode-se identificar esse tipo de ativo por vários eventos, como, entre outros, a reestruturação da dívida e a reclassificação do crédito pela instituição financeira. No primeiro semestre deste ano a carteira desses ativos ficou estável nos bancos privados. Mas “os ativos problemáticos dos bancos públicos mantêm tendência de crescimento desde dezembro de 2015”, segundo o relatório.

Nos 12 meses até junho deste ano a carteira desses ativos chegou a 8,10% do total dos créditos, no conjunto do sistema. Essa proporção é 10,81% maior que a de um ano antes.

Os componentes do sistema tiveram evolução bem diferenciada. Em junho os ativos problemáticos corresponderam a 9,08% dos créditos, no caso dos bancos privados, mas a variação foi quase nula em seis meses e ficou em 3,77% em um ano. Os créditos problemáticos dos bancos comerciais públicos chegaram a 7,81% das carteiras, no fim do semestre, com ligeiro recuo no período, mas o aumento em 12 meses chegou a 7,87%. A piora foi notável na carteira dos bancos públicos de desenvolvimento – na prática, do BNDES. O peso, equivalente a 5,42%, é menor que nas outras categorias, mas essa parcela foi 123,97% maior que a contabilizada um ano antes.

A piora das carteiras de crédito do BNDES já se destacou de forma ostensiva entre junho de 2014 e junho de 2016, coroando de forma notável o mandato de Luciano Coutinho como presidente do banco. Em junho de 2016 a carteira de ativos problemáticos, nos bancos públicos de desenvolvimento, era 356,60% maior que dois anos antes. A diferença entre os dois momentos foi de 29,28% nos bancos públicos comerciais e de 29,82% nos bancos privados.

Apesar da piora na composição das carteiras, o relatório descreve, como em períodos anteriores, um sistema financeiro sólido e bem ajustado às normas internacionais de segurança. Mas há preocupações de médio prazo em relação ao sistema global, como têm indicado análises do Fundo Monetário Internacional (FMI). Condições monetárias frouxas por muitos anos, no mundo rico, facilitaram a retomada do crescimento, mas estimularam a expansão de operações financeiras de alto risco. Uma faísca de problemas financeiros no mundo avançado pode atingir as economias emergentes, especialmente aquelas onde há – como no Brasil – empresas com alto grau de endividamento. Não é hora de relaxar.

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.