Um escândalo

Que os governantes e parlamentares de todos os partidos cortejam determinadas igrejas evangélicas, concedendo-lhes facilidades e fechando os olhos a abusos que cometem, na ânsia de conquistar os votos de seus fiéis, não é nenhuma novidade. Eles vêm agindo assim há muito tempo. Mas o que o prefeito Gilberto Kassab e a Câmara Municipal - com a ajuda de praticamente todos os partidos ali representados - estão fazendo para favorecer a Igreja Mundial do Poder de Deus ultrapassa todos os limites do desprezo pelo interesse público em benefício de alguns poucos. Trata-se de um verdadeiro escândalo que, se consumado, como tudo indica que acontecerá, vai entrar para a triste história das vergonhas da administração pública.

O Estado de S.Paulo

02 Setembro 2012 | 03h09

Com os votos de 31 dos 55 vereadores, a Câmara aprovou em primeira discussão projeto de lei de iniciativa do prefeito que permite àquela Igreja construir um templo em Santo Amaro, capaz de receber 15 mil fiéis, ocupando 137 metros da Rua Bruges. O único dos presentes à sessão que votou contra foi o vereador Aurélio Miguel (PR). Integrantes dos outros partidos engrossaram a folgada maioria. A bancada do PT deixou o plenário, omitindo-se.

Aquele trecho da rua ainda não foi construído, mas está previsto desde 1988 no plano viário da região. O tamanho da rua é irrelevante. O importante é a questão de princípio - não se pode dar de presente à Igreja Mundial ou a outra entidade, de qualquer natureza, um bem público, só porque em caso contrário o projeto do templo teria de ser alterado. Em outras palavras, se a rua está atrapalhando o templo, elimine-se a rua.

Segundo a Prefeitura, as intervenções feitas no sistema viário da região, nos últimos anos, tornam desnecessário o prolongamento da Rua Bruges naqueles 137 metros. Dificilmente haverá alguém ingênuo a ponto de acreditar nessa história da carochinha. Mas, se existir, é possível abrir seus olhos com o histórico da construção do templo em questão, marcada por irregularidades e atos suspeitos da administração, destinados a favorecê-la.

A construção, que já dura mais de um ano, em área em que o zoneamento não permite templo, só foi possível até agora por causa de uma série de manobras ilegais do Departamento de Aprovação de Obras. A eficiência desse órgão e a seriedade de muitas de suas decisões nos últimos anos podem ser aferidas pelo fato de que ele ganhou notoriedade por ter sido chefiado por Hussain Aref Saab, afastado por suspeita de enriquecimento ilícito. Tudo isso levou o Ministério Público Estadual a investigar o caso e a considerar a possibilidade de pedir à Justiça a demolição do templo.

Nada disso abalou Kassab e a Câmara. E o comportamento do prefeito em relação a algumas igrejas evangélicas indica que ele logo vai conseguir a aprovação em segunda discussão daquele malfadado projeto. Ele mudou muito desde o início de seu segundo mandato, quando acertadamente fechou dois templos por razões de segurança. Um deles, da Igreja Mundial do Poder de Deus, ficou interditado por 53 dias, em 2009, por falta de licença. A partir de então, essa igreja moveu uma campanha contra ele e Kassab começou a mudar, chegando ao extremo de patrocinar o projeto vergonhoso da Rua Bruges.

Tem mais. A Prefeitura vem também facilitando a reconstrução do templo da Igreja Renascer, com capacidade para 1.800 fiéis, que desabou em janeiro de 2009, matando nove pessoas. Nada haveria a objetar se ela tivesse exigido - o que não fez - um estudo de impacto no trânsito, como determina a lei para as obras daquele porte. A obra só não prosseguiu porque o Ministério Público conseguiu na Justiça cancelar a licença para a sua construção. No ano passado, a Prefeitura também autorizou uma igreja a comemorar seu centenário no Estádio do Pacaembu, poucos meses depois de a Justiça ter proibido a realização de eventos não esportivos no local.

É preciso pôr um fim a esses atos de favorecimento a certas igrejas, com clara motivação eleitoral. Essa troca de favores nada tem a ver com liberdade religiosa.

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