Um governo para o euro

A zona do euro precisa de mais governança e de mais articulação entre as economias dos países-membros, segundo a chanceler alemã, Angela Merkel, e o presidente francês, Nicolas Sarkozy. Reunidos em Paris, os dois propuseram a criação de um governo econômico para a união monetária, formado pelos 17 chefes de governo, comandado pelo atual presidente do Conselho Europeu, Herman van Rompuy, e com reuniões pelo menos duas vezes por ano. Foi a proposta política mais audaciosa desde a eclosão da crise das dívidas soberanas, no começo do ano passado. Mas essa ideia é também um desdobramento quase inevitável da adoção da moeda única.

, O Estado de S.Paulo

17 Agosto 2011 | 00h00

Uma união monetária não poderá funcionar por muito tempo se cada governo seguir uma política orçamentária própria, sem objetivos compartilhados. Isso sempre foi reconhecido, mas só agora se apresenta uma proposta formal de governança comum.

Merkel e Sarkozy defenderam também a adoção, a partir de setembro, de um imposto sobre operações financeiras para conter a especulação. Opuseram-se, no entanto, à criação de um eurobônus, um título garantido por todos os governos da união monetária. A rejeição era prevista. A emissão daqueles bônus seria mais uma forma de repartir a responsabilidade e os custos do endividamento público excessivo de alguns países. Uma ideia desse tipo seria amplamente rejeitada pela opinião pública alemã.

Os países da zona do euro só tiveram até agora um importante instrumento comum de política econômica: o Banco Central Europeu (BCE). Desde o ano passado, a grave situação fiscal de vários países da união monetária confirmou a necessidade crucial de maior articulação das políticas orçamentárias.

Até agora, o combate à crise tem dependido essencialmente de um fundo comum de estabilização financeira, do auxílio do FMI e da ação do BCE, empenhado nas últimas semanas em comprar papéis emitidos por vários Tesouros da região - 22 bilhões só na semana passada. O banco voltou ontem às compras, concentrando-se, desta vez, em títulos italianos e espanhóis.

Itália e Espanha, a terceira e a quarta maiores economias da zona do euro, entraram recentemente na mira dos especuladores. Mas a grande novidade foi a pressão, na semana passada, contra bancos franceses, muito comprometidos com países altamente endividados.

Ontem, depois de alguns dias de calma, os mercados europeus voltaram a fechar com desvalorização das ações. Dados divulgados pela manhã mostraram o enfraquecimento geral das economias da União Europeia. Na zona do euro, o PIB do segundo trimestre superou por 0,2% o do primeiro trimestre e por 1,7% o de igual período do ano anterior. A Alemanha, maior economia da Europa, perdeu impulso. Entre abril e junho, produziu apenas 0,1% mais que nos três meses anteriores. França, Espanha e Portugal também apresentaram resultados fracos.

Alemanha e França vinham funcionando como locomotivas da zona do euro. Se a economia americana também continuar derrapando, os maiores e mais desenvolvidos mercados do Ocidente permanecerão estagnados por longo tempo. As perspectivas poderão melhorar, no entanto, se o presidente Barack Obama conseguir apoio para aumentar o imposto pago pelos muito ricos. Nesse caso, ele terá espaço fiscal para novos gastos e poderá combinar o ajuste orçamentário de longo prazo com algum estímulo ao crescimento. A grande novidade em relação a esse ponto foi o apoio do bilionário Warren Buffett à elevação do imposto proposta por Obama.

As inovações propostas por Merkel e Sarkozy - incluída uma regra de ouro, o compromisso geral com o equilíbrio orçamentário - só produzirão efeitos a médio e a longo prazos, se forem adotadas. De imediato, só medidas fiscais audaciosas, combinadas com planos confiáveis de ajuste ao longo de vários anos, poderão eliminar a estagnação. Se isso falhar, e se a China e outros emergentes perderem vigor, os próximos anos serão muito ruins.

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