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Um herói da retirada: De Klerk

CELSO LAFER - O Estado de S.Paulo

15 Junho 2014 | 02h 05

O falecimento de Nelson Mandela em dezembro do ano passado instigou muitas análises sobre a sua trajetória, de que modo foi capaz de moldar um processo histórico e, superando enormes obstáculos, tornar efetiva a visão de uma renovada África do Sul pós-apartheid. Agreguei minhas próprias reflexões sobre a sua grandeza no artigo Mandela, Hannah Arendt e o perdão (jornal Valor Econômico, 6 de dezembro de 2013, página A13) também com o objetivo de indicar que num cenário internacional carregado de tensões, conflitos e incertezas sempre existe algum espaço para obter mudanças que parecem "realisticamente" impossíveis.

"Um galo sozinho não tece uma manhã" são as palavras de abertura de um conhecido poema de João Cabral de Melo Neto. Mandela não poderia ter levado a cabo a sua empreitada se não tivesse contado com parceiros de peso. Entre eles avulta Frederik Willem de Klerk, a quem foi atribuído, em conjunto com Mandela, o Nobel da Paz de 1993.

De Klerk recebeu em 27 de maio, em Israel, o doutorado honoris causa da Universidade de Haifa. Na cerimônia de outorga fez o discurso de agradecimento em nome de todos os que naquele dia, por distintas razões, também foram agraciados com o honroso título e apreciaram suas palavras. Eu, particularmente, considero de substantivo alcance a reflexão que fez sobre o seu percurso. Daí a razão deste comentário sobre a sua análise, que é não só um complemento do artigo sobre Mandela, mas também uma avaliação de como, pela criatividade do poder do agir conjunto, é possível obter pacificamente e sem a destrutividade da violência grandes transformações e mudanças numa sociedade dividida por grandes conflitos.

De Klerk apontou que o papel de um líder é o de avaliar as ondas e as correntes dos acontecimentos e embarcar em grandes iniciativas no momento apropriado. E registrou que quando se tornou presidente, em 1989, uma confluência de fatores abriu uma grande oportunidade para as iniciativas que tomou para pôr fim ao apartheid.

O primeiro foi a convicção de seu governo de que a causa do apartheid era moralmente injustificável e havia falhado. O segundo, a aceitação, de todos, de que um conflito continuado com vista a uma vitória militar ou revolucionária teria tido como resultado converter a África do Sul numa terra arrasada. O terceiro foi o potencial aberto para explorar as possibilidades de soluções negociadas com o Congresso Nacional Africano, iniciadas quando Mandela, seu grande líder e símbolo, ainda estava na prisão.

No plano dos fatores externos, De Klerk destacou, no contexto regional, o acordo tripartite de 1988 entre África do Sul, Cuba e Angola, que resultou na retirada de 50 mil militares cubanos do território angolano e na independência da Namíbia. No contexto internacional mais abrangente, sublinhou o significado geopolítico das mudanças trazidas pela queda do Muro de Berlim e o que isso representava para ensejar o caminho de uma economia de mercado e um futuro de crescimento econômico para uma África do Sul democrática.

A História abriu, assim - disse De Klerk -, por obra de uma convergência de fatores, uma janela de oportunidade para uma negociação na qual não hesitou em se lançar, destacando, no entanto, que teria falhado se não tivesse tido parceiros apropriados. O primeiro foi Mandela, que contribuiu com a sua estatura para superar as muitas crises do processo negociador. O segundo, a decisão de participar das eleições em 1994 dos líderes de partidos radicais de várias vertentes, que consolidaram, com sua presença na vida eleitoral, o processo de negociação. E, finalmente, o referendo de 1992, no qual 70% dos brancos sul-africanos votaram pela continuidade da negociação que estava conduzindo.

De Klerk dedicou o seu honoris causa a todos os seus compatriotas que, com coragem, perseverança e crença num futuro melhor, tornaram possível que ele exercesse o papel que teve na criação de uma nova sociedade, afirmando que, com todos os seus desafios, a África do Sul de hoje é um país melhor, mais seguro e muito mais justo do que era quando assumiu a presidência.

Concluiu De Klerk pontuando que a sua esperança é que as lições hauridas da experiência sul-africana, relacionadas à gestão das mudanças, possam ser úteis para sociedades que enfrentam desafios complicados.

No fecho do seu discurso, teve uma palavra de especial apreço pela Universidade de Haifa, que, aliás, também formulei na ocasião, ao receber o honoris causa. Haifa não só se caracteriza por sua excelência acadêmica como uma meritória universidade de pesquisa com vocação para a cooperação internacional, mas tem como nota de sua identidade o papel que exerce na promoção da tolerância numa sociedade multicultural, que resulta da convicção de seus líderes de que só pela aceitação das diferenças é possível prosperar e progredir.

Concluo evocando uma observação de Javier Cercas, inspirado por Enzensberger no seu Anatomia de um Instante, admirável relato da transição da Espanha para a democracia com o término do franquismo e do papel desempenhado nesse processo de muitos percalços por Adolfo Suárez, um egresso das hostes franquistas, em conjugação com o rei Juan Carlos, também ele um designado por Franco. Em contraposição ao herói clássico do triunfo e da conquista, as ditaduras do século 20 iluminaram a existência de um novo tipo de herói: o herói da retirada - que é o que se afasta das suas origens para, pela habilidade e pela negociação, promover a derrubada e a desmontagem de estruturas discriminatórias e prepotentes. É o caso de Mikhail Gorbachev e de Adolfo Suárez, mencionados por Javier Cercas. E é, também, o de Frederik de Klerk.

PROFESSOR EMÉRITO DO INSTITUTO DE RELAÇÕES INTERNACIONAIS DA UNIVERSIDADE DE SÃO PAULO

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