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Opinião

Editorial Estadão

Um naufrágio bilionário

Os bilhões perdidos com o naufrágio da Sete Brasil, apresentada em outros tempos como a maior empresa do mundo no setor de sondas de águas profundas, apenas começam a aparecer nos balanços de seus acionistas. Mas já se pode ter uma ideia parcial dos estragos, com base nas informações adiantadas por três sócios. São estimadas em cerca de R$ 2,6 bilhões as perdas do banco BTG Pactual e dos fundos de pensão dos funcionários da Caixa Econômica Federal e do Banco do Brasil (Funcef e Previ). O maior prejuízo, de R$ 1,3 bilhão, deve aparecer no balanço do fundo do pessoal da Caixa, segundo noticiou o Estado na quarta-feira. Além desses três, outros investidores, diretos e indiretos, também deverão reconhecer brevemente os valores perdidos. Além disso, estaleiros e outros fornecedores já foram afetados e dezenas de milhares de empregos foram extintos por causa da redução das encomendas de sondas.

18 Março 2016 | 03h00

Depois de vários impasses, o futuro da Sete Brasil deve ser novamente discutido pelos acionistas numa reunião no dia 28. Não houve acordo, até agora, sobre uma possível busca de recuperação judicial e há quem duvide, agora, de uma solução desse tipo. Com ou sem falência, investidores e fornecedores terão de se conformar com perdas importantes. De toda forma, as possibilidades de negócios da empresa serão, na melhor hipótese, severamente limitadas pelas más condições financeiras e econômicas da Petrobrás.

A aventura da Sete Brasil é parte dos erros e desmandos cometidos na política do petróleo do governo petista. Os desmandos incluem o aparelhamento da Petrobrás, a pilhagem desvendada pela Operação Lava Jato e a sujeição da maior empresa brasileira às ambições pessoais, políticas e partidárias das figuras instaladas no topo da administração federal a partir de 2003. Não foram casos de corrupção comparáveis àqueles observados, tantas vezes, até nos países com melhores padrões administrativos. O saque da Petrobrás foi parte de uma forma particular de ocupação e de uso do aparelho estatal.

Não é fácil – e talvez seja impossível – estabelecer uma clara distinção entre os erros e os desmandos. Os erros incluem, certamente, a redefinição legal dos objetivos da Petrobrás e a conversão da empresa em instrumento da política industrial. Pior: neste caso, tratou-se de uma política industrial anacrônica e claramente equivocada, baseada em conceitos dos anos de 1940 a 1960.

O governo converteu a exploração do pré-sal numa de suas bandeiras mais vistosas, mas agiu como se fosse incapaz de entender – e talvez nunca tenha entendido – as imensas dificuldades técnicas e financeiras desse empreendimento. Em vez de favorecer a concentração da Petrobrás em suas funções mais difíceis, mais importantes e, afinal, mais vinculadas a seu negócio principal, os governos petistas impuseram à empresa obrigações e custos adicionais. Mesmo sem o saque multibilionário revelado pelas investigações da Operação Lava Jato, a empresa já seria prejudicada pela sobrecarga de funções e de custos.

A criação da Sete Brasil foi parte desses erros. Não haveria por que criar uma empresa especializada no fornecimento de sondas, e muito menos com base em critérios de nacionalização de componentes. A Petrobrás converteu-se em acionista e cliente de uma empresa criada por um equívoco político e administrativo. Investidores privados também se meteram no negócio. Não importa, aqui, discutir suas motivações. Isso é assunto para seus acionistas. Mas fundos de pensão de estatais puseram dinheiro nesse empreendimento, obviamente para cumprir uma orientação política, e perderam recursos de seus associados.

Em outra circunstância, a redução das encomendas de sondas pela Petrobrás seria apenas um episódio lamentável do dia a dia dos negócios. Mas esta história é diferente. Envolve a devastação criminosa da Petrobrás, uma sequência anormal de erros administrativos e a imposição de perdas a milhares de trabalhadores dependentes de fundos de pensão de empresas estatais.

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