Um prejuízo chamado Trump

Desde o ano passado, o número de países, entre os 36 pesquisados, que tinham uma imagem mais positiva dos Estados Unidos do que da China caiu de 25 para 12

O Estado de S.Paulo

28 Outubro 2017 | 03h06

Uma recente pesquisa do Pew Research Center mostra que a imagem dos Estados Unidos se deteriorou nos últimos tempos em países que tradicionalmente têm uma visão favorável dos norte-americanos, ao mesmo tempo que a imagem da China melhorou bastante nesses países. O centro de pesquisa já havia mensurado o prejuízo que o errático governo do presidente Donald Trump está causando ao prestígio dos Estados Unidos no resto do mundo, mas a novidade agora é que os chineses vêm ocupando o espaço deixado pelas extravagâncias do norte-americano e começam a ser vistos como líderes globais.

Desde o ano passado, o número de países, entre os 36 pesquisados, que tinham uma imagem mais positiva dos Estados Unidos do que da China caiu de 25 para 12. Na média, a liderança dos Estados Unidos em relação à China, que chegou a ser de 12 pontos porcentuais, hoje está em 2 pontos.

A pesquisa mostra que a China mantém boa imagem na América Latina e no Oriente Médio, regiões em que é comum o sentimento antiamericano, enquanto os Estados Unidos vão bem na Europa e na região da Ásia-Pacífico. Contudo, países que quase sempre se alinham aos norte-americanos, como Austrália, Holanda e Canadá, hoje têm uma visão mais favorável à China do que aos Estados Unidos. E em países nos quais o prestígio dos Estados Unidos costumava ser muito superior ao da China – casos de Brasil, Grã-Bretanha, Alemanha e França –, o Pew detectou empate.

Um dos aspectos mais significativos da deterioração da imagem dos Estados Unidos é a percepção de que o país hoje, sob Trump, não tem conseguido ser o grande líder global que sempre foi desde pelo menos a 2.ª Guerra Mundial. Países como Alemanha e Chile, por exemplo, já manifestam mais confiança na liderança do presidente chinês, Xi Jinping, do que na de Trump.

Pudera. Enquanto Trump vocifera contra acordos internacionais, defende o protecionismo comercial e joga o mundo numa era de incertezas em razão de seu estouvamento, Xi discursa frequentemente em defesa da globalização e da liberalização comercial. É claro que o presidente chinês não se converteu ao liberalismo, e só prega essa parte do evangelho capitalista na medida das necessidades de seu país. No entanto, essa disposição de Xi, quando comparada ao colapso político e moral do governo de Trump, tem sido suficiente para fazê-lo parecer um campeão da causa liberal.

Esse é o pano de fundo da reivindicação chinesa ao status de superpotência, que depois da guerra fria, com o fim da União Soviética, só é aplicado aos Estados Unidos. Essa ambição ficou clara quando o presidente Xi disse, no recente Congresso do Partido Comunista Chinês, que a China está entrando numa “nova era” e se tornando uma “força poderosa”, um “modelo” de desenvolvimento econômico e político para o resto do mundo. Nas palavras de seu confiante governante, o país pretende “deslocar-se para o centro do palco e dar grandes contribuições para a humanidade”. Xi chegou a dizer que está inaugurando a era do “sonho chinês” – uma óbvia alusão ao “sonho americano”, que está na essência dos ideais que os Estados Unidos construíram para si e espalharam para o resto do mundo.

É evidente que, a despeito da grandiloquência do líder chinês, a pretensão da China ganha ares de fato consumado não em razão do inegável desenvolvimento do país, mas principalmente como consequência do enfraquecimento da liderança global norte-americana graças ao desastre chamado Trump. Pode-se dizer, portanto, que essa situação é momentânea – durará o tempo exato da recuperação dos Estados Unidos depois que Trump deixar o poder.

Até lá, porém, os Estados Unidos terão de conviver com seu desprestígio crescente, não apenas em relação à China, mas também, pasme o leitor, em relação à Rússia. A pesquisa do Pew mostra que a imagem positiva dos Estados Unidos na comparação com a da Rússia caiu mais de 20 pontos porcentuais. Quando se perde reputação até para uma autocracia corrupta como a Rússia, percebe-se o tamanho do estrago causado por Trump.

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