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Um superávit pouco sério

O Estado de S.Paulo

03 Setembro 2014 | 02h 05

Não há por que levar a sério o superávit comercial de agosto, de US$ 1,17 bilhão, ou o saldo acumulado no ano, de US$ 249 milhões. Nenhum desses números vale uma comemoração. O Brasil saiu do vermelho no comércio exterior graças à recessão combinada com a exportação fictícia de plataformas de exploração de petróleo. Pior que isso: nem se pode falar em ajuste recessivo, porque a economia só foi parar no atoleiro por causa dos erros cometidos pelo governo. Nenhum desarranjo fundamental foi corrigido e a presidente Dilma Rousseff continua recusando qualquer tentativa séria de pôr em ordem a economia.

O comércio exterior encolheu neste ano, mesmo pelas contas oficiais. De janeiro a agosto, a soma de exportações e importações foi 1,8% menor que a de um ano antes, pela média dos dias úteis. O valor exportado, de US$ 154,02 bilhões, foi 0,5% inferior ao de igual período de 2013. As importações, no valor de US$ 153,77 bilhões, foram 3% menores porque a economia encolheu e a demanda de bens estrangeiros diminuiu. Mesmo assim, os fabricantes brasileiros continuaram perdendo espaço no mercado interno, porque os importados foram mais competitivos.

Nem a tendência internacional de valorização do dólar ajudou, porque o Banco Central (BC), para conter a inflação, interveio no mercado de câmbio para impedir a depreciação do real. Intervenção no câmbio passou a ser, desde o ano passado, remédio de uso contínuo contra a alta de preços.

O efeito da estagnação econômica é visível nas compras de produtos estrangeiros. As despesas com bens de consumo foram 2,5% menores que as de janeiro a agosto do ano passado. As compras de matérias-primas e bens intermediários foram 1,1% inferiores às de 2013. As de bens de capital - máquinas e equipamentos - ficaram 7,3% abaixo das contabilizadas nos oito meses correspondentes do ano passado.

Este dado é especialmente importante. Reflete a redução do investimento produtivo, indicada também pela menor produção interna de bens de capital no primeiro semestre. Em julho, a fabricação desses bens foi 16,7% maior que em junho, segundo a última informação. Mas a comparação dos primeiros sete meses deste ano com os do ano passado ainda apontou uma queda de 7,8%.

A economia foi mal no primeiro semestre e pode ter melhorado um pouco no começo do segundo, mas a atividade industrial continua muito baixa e o potencial de crescimento do País, tudo indica, é muito reduzido. Não há surpresa, porque quase nada se fez para aumentar o dinamismo do Brasil. Insuficiente por muito tempo, o investimento ainda diminuiu neste ano. A agropecuária ainda se distingue nesse quadro como um setor vigoroso, capaz de competir e em condições de impedir um desastre maior no comércio externo.

Mas o cenário seria bem pior sem a inclusão, nas contas oficiais, das exportações de plataformas de exploração de petróleo. São exportações fictícias, concebidas como forma legal de garantir benefícios fiscais a um segmento da indústria. Mas essas plataformas, embora formalmente vendidas, permanecem no País.

Neste ano, as operações com esses bens foram registradas em julho e em agosto. O valor acumulado chegou a US$ 1,98 bilhão, considerável, mas ainda 28,5% menor que o registrado no mesmo período de 2013. Sem essa parcela, o valor das exportações teria ficado em US$ 152,04 bilhões. O saldo comercial de janeiro a agosto teria sido um déficit de US$ 1,73 bilhão, em vez de um superávit de US$ 249 milhões.

Em outras circunstâncias, um superávit comercial associado a uma recessão poderia ter um aspecto positivo, se resultasse de um ajuste para consertar os fundamentos da economia. Neste caso, a recessão é apenas mais uma consequência ruim de uma política desorientada. Quanto à exportação fictícia, combina com a contabilidade criativa usada tão amplamente para ajeitar as contas fiscais. Mas essa exportação só se tornou relevante para o resultado oficial porque a maior parte da indústria perdeu poder de competição e empacou.

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