Uma Amazônia esquecida

A Amazônia é tema obrigatório em todos os grandes foros internacionais sobre meio ambiente e muito se discute a respeito de como preservar sua fauna e sua flora. Afinal ela representa mais da metade das florestas tropicais remanescentes no planeta, com uma biodiversidade ímpar.

O Estado de S. Paulo

11 Julho 2015 | 03h00

No entanto, há também uma Amazônia esquecida, conforme revela caderno especial do Estado (Favela Amazônia – um novo retrato da floresta), publicado no domingo passado. Fruto de uma pesquisa de 15 meses e que envolveu visitas a mais de 28 municípios, o conjunto de reportagens traz à tona a dura realidade social vivida pela população da região, desvelando um doloroso paradoxo. “No momento em que está mais conectada – escreve o repórter Leonencio Nossa –, a floresta se afasta da curva da melhoria de vida do Centro-Oeste, Sudeste, Sul e Nordeste.”

Os dados são preocupantes. Um terço da população das cidades com mais de 50 mil habitantes da Amazônia vive em territórios dominados pelo tráfico e sofre continuamente violações de direitos humanos. A qualidade de vida nas periferias das cidades amazônicas é pior que nas favelas de São Paulo e do Rio de Janeiro e sua população não dispõe de nenhuma rede de proteção social.

Ela também está amedrontada, diante da atuação impune de grupos criminosos que – além do tráfico de drogas – exploram situações de pobreza e miséria. Conforme revelado pelo Estado, há uma máfia que retém cartões do programa Bolsa Família e da Previdência e, em nome de um alegado crédito, “administra” diretamente os recursos das famílias. O Mapa da Violência indica também um aumento de 135% nos índices de homicídios na Região Norte, entre 2002 e 2012. No mesmo período, por exemplo, os índices de São Paulo e do Rio de Janeiro tiveram quedas superiores a 50%.

A reportagem mostra ainda que a atuação do poder público não tem conseguido fixar as pessoas na região. Ao contrário, as próprias políticas públicas têm sido com frequência a causa para o êxodo, especialmente das gerações mais jovens. É alarmante, por exemplo, que nos últimos dez anos 48 dos 62 municípios do Rio Amazonas tenham registrado declínio populacional, gerando um ainda maior isolamento das aldeias e vilas ribeirinhas.

Os jovens têm ido à cidade em busca de melhores condições de vida, mas o que encontram está longe de ser satisfatório. Manaus, por exemplo, tem o pior Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) entre as 16 regiões metropolitanas brasileiras. A sua Zona Franca escancara o desafio do desenvolvimento humano da região – ela atrai a população da floresta para a cidade, mas essa migração acaba gerando problemas tanto na cidade quanto na floresta.

Há também a questão da ineficiência e da corrupção nos órgãos estatais. Como já era previsível, a substituição da Fundação Nacional da Saúde (Funasa) pela Secretaria Especial de Saúde Indígena (Sesai) não foi suficiente para solucionar os casos de mau uso de dinheiro público. Continua havendo suspeitas de desvios de recursos, além de denúncias de manipulação de relatórios de vacina e de mortalidade infantil. Ou seja, o poder público está distante e, nas poucas vezes em que consegue estar presente, sua atuação deixa a desejar.

A preocupação pela biodiversidade da Amazônia deve incluir a preocupação social. Não podem ser tratadas separadamente nem muito menos como coisas opostas – como se o preço a pagar pela preservação do meio ambiente fosse relevar a situação social dos habitantes da região. Seria uma enorme injustiça, além de constituir um atentado à própria sustentabilidade. Nesse sentido, urge estabelecer políticas públicas sérias, capazes de desenvolver econômica e socialmente a região. Um primeiro passo é melhorar o conhecimento sobre as questões sociais envolvidas na Amazônia, que vão muito além da demarcação de terras indígenas. Caso contrário, as políticas públicas continuarão sendo parciais e segmentadas – incapazes de atender às complexidades locais e que, ao fim, agravam ainda mais os problemas sociais.

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