Uma crise melhor que o governo

Más notícias para a presidente Dilma Rousseff têm animado o mercado de ações e valorizado o real diante do dólar. Nem tudo vai mal na economia brasileira, apesar da maior recessão em 25 anos, do desemprego elevado e da inflação ainda acima de 10% em 12 meses. Há boas novidades, muito raras, e nenhuma delas é consequência da política oficial. Ao contrário: sem rumo e sem liderança para um sério esforço de ajuste, esse governo só é fonte de problemas. O cenário do Brasil pode parecer muito estranho à maior parte dos estrangeiros. Indicadores financeiros melhoram enquanto aumentam as pressões pelo impeachment da presidente. Há surtos de otimismo quando investigações criminais deixam mais exposto o chefe do grupo no poder, o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Mas os dados são inequívocos.

O Estado de S.Paulo

20 Março 2016 | 03h00

Na quinta-feira, o Ibovespa, o principal índice de ações da bolsa paulista, subiu 6,6%. Foi a maior alta em um dia desde o começo de janeiro de 2009. Além de papéis de empresas privadas, também se valorizaram os títulos de estatais, como a Petrobrás e o Banco do Brasil. Enquanto os investidores se animavam, milhares de manifestantes ocupavam a Avenida Paulista, cobrando o impeachment da presidente ou sua renúncia. O escândalo causado pelas revelações da Operação Lava Jato vinha aumentando a cada dia, alimentado por novas informações sobre o andamento das investigações. No mesmo dia o dólar caiu 2,55%.

Dólar caro pode ser bom para as exportações, mas a instabilidade cambial dificulta os negócios e, além disso, a disparada da moeda americana vinha alimentando a inflação. Durante longo tempo o Banco Central (BC) tentou conter a instabilidade com intervenções no mercado. Com a acomodação do câmbio, o BC anunciou a disposição de intervir mais moderadamente. Menor atuação no mercado poderá significar menores custos e risco menor de comprometimento da reserva de moeda estrangeira, atualmente na faixa de US$ 370 bilhões.

Menor pressão do câmbio poderá facilitar a contenção de preços. A taxa acumulada em 12 meses ainda supera 10% ao ano e continua, portanto, muito acima do limite de tolerância de 6,5%. A meta oficial (4,5%) permanece muito distante e dificilmente será alcançada no próximo ano. Mas a taxa mensal de inflação tem recuado e há expectativas de moderação nos próximos meses. Os juros altos mantidos pelo Banco Central podem ter contribuído para frear os aumentos. Mas a aposta do próprio BC em uma inflação menor, já em 2016, é baseada principalmente na recessão.

Com juros altos, desemprego elevado e provavelmente ainda em alta, renda familiar menor e muita insegurança em relação ao futuro próximo, os consumidores compram menos. Demorou, mas a contração da atividade parece, afinal, estar produzindo algum efeito desinflacionário. A recessão é obviamente consequência dos muitos erros cometidos pelo governo pelo menos desde 2010. A lenta desinflação, se confirmada nos próximos meses, será, portanto, em grande parte um efeito defasado da má política econômica.

Eventos externos, como alguma recuperação do preço do petróleo e de outras commodities, também têm trazido alguma animação aos mercados. A decisão do Federal Reserve, o banco central americano, de elevar os juros bem moderadamente em 2016 também produziu efeitos positivos. Nenhum desses fatos é atribuível, obviamente, ao governo brasileiro.

O ministro da Fazenda, Nelson Barbosa, reafirmou na sexta-feira passada a intenção de consertar as contas públicas, de tomar medidas para reanimar a economia e de propor uma agenda de reformas, a começar pela da Previdência. Além disso, voltou a defender a recriação – uma ideia desastrosa – do imposto do cheque, a CPMF. Nada disso será concretizado sem forte liderança. Não se sabe se a presidente Dilma Rousseff permanecerá. Se permanecer e mantiver como ministro o ex-presidente Lula, será ele o governante efetivo, se escapar – e enquanto escapar – da Operação Lava Jato.

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