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Uma nova Cracolândia

O Estado de S.Paulo

20 Agosto 2014 | 02h 05

É preocupante a incapacidade demonstrada pelas autoridades da área de segurança pública para reprimir o tráfico de drogas na Rua Peixoto Gomide, entre as Ruas Augusta e Frei Caneca, local que já está sendo chamado de Cracolândia dos Ricos. Seis meses depois que uma reportagem do Estado chamou a atenção para o que se passa ali, a situação pouco mudou. Se nem mesmo numa região considerada nobre se consegue evitar a formação de uma nova Cracolândia, ainda que em dimensões reduzidas, a população tem razões de sobra para se sentir ainda mais insegura.

Num primeiro momento houve bons motivos para acreditar que a polícia ia fazer o que dela se esperava. Um mês depois da denúncia sobre a "feira" de drogas que ali funcionava todas as noites, com maior movimento nas de sexta-feira e de sábado, a repressão aos traficantes - que ofereciam aos gritos e vendiam livremente maconha, cocaína, LSD, ecstasy e lança-perfume nas calçadas e entre os carros - produziu bons resultados.

Ações da Polícia Militar e da Polícia Civil - Departamento Estadual de Prevenção e Repressão ao Narcotráfico (Denarc) e policiais do 4.º Distrito Policial (Consolação) - levaram à prisão em flagrante de 15 traficantes e 15 adolescentes por eles aliciados para a venda de drogas na região. Ainda se viam alguns jovens fumando maconha na rua, mas a "feira" deixou de existir e, com isso, a situação melhorou consideravelmente. Reuniões de policiais civis com moradores e representantes da Associação do Bairro, para a troca de informações, foram mais um sinal de que poderia estar em curso uma ação mais consistente e prolongada para restaurar a ordem e a tranquilidade na região.

Infelizmente, não foi o que aconteceu. O que era bom durou pouco. Segundo uma nova reportagem do Estado, a situação é praticamente a mesma mostrada seis meses atrás. Moradores e comerciantes dizem que nada mudou, com traficantes oferecendo drogas livremente, consumidas por jovens e adolescentes na rua e nas calçadas, sem qualquer constrangimento. Para muitos moradores as coisas pioraram. Segundo um deles, a situação se tornou incontrolável: "São muitos viciados se embebedando e usando drogas. Eles mexem com os pedestres e praticam relações sexuais no meio da rua". Outros se queixam de que a polícia nunca aparece, nem mesmo quando chamada por eles.

A reação do secretário da Segurança Pública, Fernando Grella Vieira, é decepcionante. Ele admite que o que se passa naquela região é de seu conhecimento e promete realizar ali "novas operações em breve". Ou seja, limita-se a tratar o problema com obviedades e lugares-comuns - que a questão da droga é complexa, que "os traficantes migram para outros locais", que é preciso um policiamento permanente e que esse problema não é só policial.

Mas como ele indiscutivelmente é também - se não em primeiro lugar - policial, por que então a polícia não faz a parte dela? Manter a ordem e combater o tráfico numa área tão pequena como aquela, de poucos quarteirões, não é nenhum bicho de sete cabeças. A inação da polícia nesse caso é incompreensível. Dias atrás, no quadro de uma operação chamada Selva de Pedra, ela conseguiu desmontar uma quadrilha que atuava na Cracolândia, com a prisão de 13 pessoas, entre elas uma mulher considerada um dos chefes do tráfico na região. Competência não lhe falta, portanto, desde que respaldada pela determinação de agir para valer.

O fato de a Cracolândia dos Ricos da Peixoto Gomide ser ainda pequena não justifica o pouco-caso das autoridades, pois salta aos olhos que a sua tendência é crescer e degradar uma região importante da cidade, processo que já começou com a saída de vários moradores, assustados com a violência, e com a consequente desvalorização dos imóveis.

Deixar que traficantes e usuários de drogas controlem, por enquanto durante a noite, um trecho da Peixoto Gomide, a poucas quadras da Avenida Paulista e perto de dois dos mais importantes hospitais da cidade - o Sírio-Libanês e o Nove de Julho -, é inaceitável.

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