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Uma nova normalidade nas relações EUA-Brasil

*Peter Hakim - O Estado de S.Paulo

30 Junho 2014 | 02h 02

Depois de torcer pela vitória da seleção americana em sua primeira partida na Copa do Mundo, o vice-presidente dos EUA, Joe Biden, viajou para Brasília a fim de se encontrar com a presidente Dilma Rousseff. O encontro tornou-se mais um sinal da deterioração das relações entre os dois países após a revelação da espionagem americana, no ano passado. Apesar de Biden ter manifestado confiança em que a relação bilateral possa "voltar ao normal", não deu indicações de como ou quando isso poderá ocorrer - nem sugestão do que tinha em mente ao usar o termo "normal".

Joe Biden mostrou-se muito mais otimista depois do encontro com a presidente Dilma há pouco mais de um ano. Na época afirmou que 2013 marcaria o "início de uma nova era no relacionamento EUA-Brasil". Embora certamente tenha exagerado, seu entusiasmo tinha alguma base. A presidente brasileira recebera pouco antes convite da Casa Branca para uma visita de Estado a Washington, considerada no Brasil uma apreciada afirmação de sua estatura internacional. Barack Obama só concedera essa honra a sete outros líderes mundiais, todos aliados muito próximos dos EUA ou de grandes potências globais.

Mas meses mais tarde a presidente cancelou, indignada, a viagem a Washington após revelações de Edward Snowden de que os EUA espionavam secreta e maciçamente o Brasil e que ela própria e a estatal petrolífera brasileira eram alvos da espionagem. E as relações sofreram novo abalo. Primeiro, pela desatenção ou indiferença de Washington às queixas brasileiras sobre a espionagem; depois, quando o Brasil, numa atitude considerada em grande parte uma esnobada direta aos EUA, decidiu apressadamente, após uma década de tergiversações, adquirir caças de fabricação sueca por US$ 5 bilhões em vez de aviões da Boeing. Desde então as relações EUA-Brasil passaram a ser consideradas congeladas ou paralisadas.

Biden foi apenas o segundo a visitar o Brasil, depois do secretário do Tesouro, Jacob Lew, em março. O vice-presidente não levou desculpas ou manifestações de pesar pela espionagem nem promessa firme de que isso não voltaria a acontecer. Embora, antes da chegada, Biden tivesse sugerido estar na hora de reformular as relações, sua visita acabou sem um único comentário oficial da presidente ou de algum alto funcionário brasileiro, e seu vice-presidente não quis unir-se a Biden numa declaração conjunta sobre o encontro. Talvez essa visita tenha ocorrido num momento ruim - Dilma estava preocupada com a Copa, com a economia debilitada e com o declínio do apoio popular nas pesquisas eleitorais. Mas o mais provável é que os resultados limitados de suas conversas reflitam realisticamente o estado conturbado das relações entre os países e devam servir de advertência quanto à persistência das dificuldades.

Biden decerto tinha razão ao reduzir as expectativas e oferecer o modesto objetivo de um "retorno à normalidade". Mas para as relações EUA-Brasil "normal" não é um nível muito elevado. Já antes do caso Snowden as relações não eram muito robustas nem particularmente construtivas. Em que pese a retórica que enfatizou o contrário durante muitos anos, Brasil e EUA nunca cooperaram muito, pelo menos não nas últimas décadas. Mesmo quando seus interesses e objetivos convergiam, as duas nações raramente procuraram alinhar estratégias ou enfoques.

A ampliação dos laços comerciais é há muito tempo prioridade para ambos os governos, mas EUA e Brasil não negociam um pacto econômico importante há quase 30 anos. Nesse período os EUA assinaram mais de 20 acordos comerciais, 11 deles com governos latino-americanos. Sendo os maiores exportadores mundiais de alimentos, Brasil e EUA deveriam colaborar na redução das barreiras ao comércio agrícola em todo o mundo. Mas essas questões, em vez de colaboração, têm causado amargas disputas. A cooperação também é escassa em outras questões globais de interesse mútuo, como a não proliferação nuclear, desafios da criminalidade transnacional e clima.

Na América Latina a política adotada pelas autoridades brasileiras nos últimos dez anos aparentemente pretendeu diminuir a influência americana em assuntos regionais. Na América do Sul o Brasil procurou reduzir o papel da OEA e transferiu suas funções políticas exclusivamente para instituições latino-americanas. No plano internacional, perseguiu seus objetivos mantendo-se distante dos EUA - enfatizou regularmente, até com estardalhaço, discordar de Washington. Já os EUA muitas vezes parecem considerar o Brasil um intrometido em questões internacionais, uma nação que não se mostrou à altura do status e do poder alcançados e cujos julgamentos em política externa muitas vezes carecem de informação e são equivocados. Com certeza Washington não está disposta a defender a aspiração brasileira a uma cadeira permanente no Conselho de Segurança da ONU - prioridade fundamental na agenda internacional do País.

Não é preciso reafirmar que os dois gigantes do Hemisfério Ocidental deveriam investir muito mais em melhorar as suas relações e torná-las mais produtivas. Mas após dois graves confrontos em três anos - sobre o programa nuclear do Irã e a espionagem americana - talvez tenha chegado a hora de os dois governos admitirem abertamente que seu relacionamento se tornou consideravelmente conturbado e precário.

Embora seja ainda improvável, a persistir a tendência atual é possível que EUA e Brasil acabem se tornando adversários estratégicos, e não parceiros estratégicos. A difícil situação da Venezuela, que caminha rapidamente para a degradação, por exemplo, poderia fornecer o motivo para mais um grave confronto. Os dois países têm de ser mais cuidadosos um com o outro. Agora precisam concentrar-se em manter abertas as linhas de comunicação, a fim de evitar maior deterioração e afastar a possibilidade de novos confrontos. É bem possível que tenha sido principalmente essa a finalidade da visita de Biden.

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PRESIDENTE EMÉRITO DO DIÁLOGO INTERAMERICANO

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