Uma questão de coerência

Margaret Thatcher, estadista inglesa, ensinava que na política, antes de tudo, é preciso assumir um lado. E persistir nele.

João Mellão Neto, jornalista, foi deputado, secretário e ministro do Estado. E-mail: j.mellao@uol.com.br. Leia artigos anteriores em www.blogdomellao.com.br, O Estado de S.Paulo

07 Outubro 2011 | 03h05

Durante toda a sua vida pública ela agiu de acordo com tal postulado. Defendia a livre-iniciativa, a concorrência entre as empresas e a consequente redução do papel do Estado na economia e na sociedade. Manteve esse discurso mesmo quando os seus adversários trabalhistas pareciam invencíveis. Mas um dia chegou a sua vez: seu Partido Conservador venceu as eleições e ela chegou ao posto de primeiro-ministro. Governou por quase uma década e em momento algum abandonou as suas convicções.

Muito tempo antes, Winston Churchill, outro membro do Partido Conservador, foi ridicularizado por mais de uma década pelo fato de entender que o nazismo alemão representava uma séria ameaça às nações democráticas. Em 1941, com Londres em chamas, enfim o convocaram para dirigir a Inglaterra.

O mesmo ocorreu nos EUA, com Ronald Reagan. Durante mais de 20 anos ele martelou o público americano com as mesmas teses: menor ingerência estatal na economia e maior poder de escolha para os indivíduos. A sua intransigente defesa desses princípios o fez ser menosprezado pela imprensa dita "esclarecida" e lhe custou até a indicação de seu Partido Republicano para concorrer à presidência do país - e isso lhe aconteceu em duas ocasiões.

Mas um dia ele chegou lá. Conseguiu ser escolhido candidato dos republicanos e empolgou a nação com as suas ideias. Foi eleito e reeleito presidente dos EUA.

Quando Margaret Thatcher afirmou a importância de se assumir um lado, referia-se tanto à esfera pública quanto à pessoal.

Eu me lembro de ter lido em algum lugar o argumento de que a ética existe até mesmo na guerra. O capitão do submarino alemão e o comandante do navio inglês eram, obviamente, inimigos. Mas algo eles tinham em comum: ambos se dispunham a morrer por sua pátria e cada um esperava do outro que morresse pela pátria dele, também. Mas o que aconteceria se algum deles tentasse propor um acordo? Talvez até o conseguisse, mas estaria, assim, traindo não só o seu povo como também a sua própria honra.

Alguns podem afirmar que em política é "diferente". Não, não é. Os cidadãos que se dispõem a dar o seu voto a alguém precisam saber que ideias são defendidas por seu candidato. E também ter a segurança de saber que, uma vez eleito, ele se conduzirá de acordo com elas. E é do próprio senso comum que os homens públicos se comportem assim.

Há no Brasil, ao menos, duas vertentes de pensamento que não entendem o jogo político dessa maneira. Na falta de nomes melhores, vou intitular uma delas como "revolucionária" e a outra como "pragmática".

A primeira reúne todas as correntes que, no palco público, se identificam com os ensinamentos de Karl Marx. A segunda é aquela que tem em Maquiavel o seu principal mentor.

Uma entende que moral e ética são conceitos criados pelas "classes dominantes" e não se pauta por eles. Matar, roubar, trair, qualquer conduta é válida desde que seja necessária para se chegar à "revolução" - na qual os "explorados" prevalecerão sobre os "exploradores".

A outra também renega a moral e a ética porque entende que, na esfera pública, só logram ter êxito aqueles que praticam a política "exatamente como ela é".

Estes últimos são os imorais. Já os primeiros preferem dizer-se "amorais".

Qual é a diferença?

Uns reconhecem as regras morais, mas não se incomodam em transgredi-las. Os outros alegam não existir moral alguma. Ambas as tendências, às vezes, se confundem. E isso decorre do fato de que, para as duas, vale o preceito de que os fins justificam os meios.

Não existem escrúpulos em nenhuma delas. Ambas menosprezam a capacidade de discernimento dos indivíduos. Ambas entendem que cabe a uma minoria esclarecida o papel de dirigir as massas. Para as duas, apenas alguns poucos sabem distinguir o bem do mal.

Uns acreditam que é possível mudar tudo. Outros acham que não é possível mudar nada.

Felizmente, além desses "revolucionários" e "pragmáticos", existem uns tantos outros para quem a moral e a ética são valores que contam. E é com eles que procuram pautar a sua conduta. O conceito de honra, para esses poucos, é um princípio de vida. Como o são, também, a honestidade, o decoro e a dignidade.

Todos esses atributos são pessoais. Dependem da índole de cada um e não podem flutuar ao sabor das circunstâncias. Somente assim se pode andar na rua com a cabeça erguida.

Uma velha raposa da política brasileira resumia esse conceito de uma forma magistral. Dizia ele que "quem se mexe muito não sai na foto".

Tudo bem, o liberalismo saiu de moda. Ainda mais depois da crise econômica norte-americana de 2008. Nós, liberais, tivemos de revisar muitas de nossas crenças. A principal, entre elas, é a de que os mercados, deixados por si próprios, acabam sempre se ajustando. Mas foi necessária a intervenção do Estado para garantir a liquidez da economia. Para muitos liberais, esse baque foi equivalente ao sofrido pelos comunistas com a queda do Muro de Berlim.

Muito do que pregávamos, de repente, caiu por terra. Mas na nossa vida - como nas nossas convicções - não ocorre a ninguém trocar de valores tão somente porque outros aparentam ser mais convenientes.

Eu, por mim, pretendo continuar a dizer as mesmas coisas. Não vou trocar de ideia nem pretendo mudar de assunto: defendo uma sociedade aberta, com respeito aos direitos de cada um e a confiança no juízo de todos.

Chegará, um dia, a nossa vez. Até mesmo um relógio parado está certo duas vezes ao dia...

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.