Universidades brasileiras de classe mundial

Está na hora de o País, que não tem nenhuma entre as cem melhores, começar a pensar nisso

*Hernan Chaimovich e Carlos Henrique de Brito Cruz, O Estado de S.Paulo

31 Outubro 2017 | 03h07

Universidades de classe mundial exibem excelência na educação, na pesquisa, nas suas interações com a sociedade, têm destaque global, desempenham papel fundamental nos sistemas de ensino superior e no desenvolvimento da economia global do conhecimento. Essas universidades servem às necessidades nacionais e promovem o bem público formando a elite intelectual, liderando o progresso da ciência e da tecnologia, em permanente contato com o cenário científico, tecnológico, cultural e político internacional. Nos últimos anos, número crescente de nações, como Alemanha, França, China e Espanha, organizaram programas para intensificar a excelência acadêmica de algumas de suas universidades a fim de incluí-las no grupo das mais destacadas do mundo.

Nos rankings globais das mais de 20 mil instituições que se denominam universidades, são avaliadas menos de mil. Nesses rankings há muitos defeitos e idiossincrasias, mas também pontos em comum que podem auxiliar a começar a entender o nosso desafio e os meios para enfrentá-lo. Os critérios de ordenação variam entre os rankings com influência internacional, mas em geral contemplam variáveis como qualidade da educação, empregabilidade dos formandos, qualidade do corpo docente, quantidade e impacto internacional das publicações, influência ou visibilidade da universidade, impacto da produção intelectual e das patentes, composição internacional do corpo de estudantes e docente. Há uma interessante coincidência na colocação das 20 ou 30 mais bem classificadas e também no fato de não haver nenhuma universidade brasileira entre as cem instituições mais bem classificadas do mundo.

As universidades brasileiras mais bem colocadas ocupam posições que variam segundo o ranking. As primeiras posições no recente ranking do Times Higher Education são ocupadas por USP (251-300), Unicamp (401-500) e Unifesp (501-600). No QS Best University Rankings de 2017 as posições de USP, Unicamp e UFRJ são 121, 182 e 311, respectivamente. Já no sistema ARWU (Shanghai Ranking) as posições relativas são USP (151-200), UFRJ (301-400) e Unesp (301-400). Em geral, os indicadores de volume de produção elevam a posição das universidades brasileiras e os que medem qualidade, como prêmios globais, visibilidade das publicações e internacionalização, as deixam em desvantagem.

São 21 as brasileiras que figuram entre as mil universidades mais bem classificadas pelo Times Higher Education World University Rankings em 2018. Assim, existe no País um contingente de instituições com capacidade de almejar, dependendo de condições e estímulos objetivos, um lugar entre as mais destacadas do mundo.

Mas não é por causa dos rankings que o Brasil precisa melhorar o desempenho de suas universidades. É, sim, porque no mundo moderno só conseguem prosperar e criar melhores condições para seu povo as nações que dominam a criação e a aplicação do conhecimento. Por isso urge um programa nacional oferecendo condições para que algumas universidades brasileiras ganhem competitividade global. A experiência internacional mostra que deveríamos considerar um programa para apoiar algumas delas, selecionadas de forma rigorosamente competitiva, com base em planos de desenvolvimento institucional que demonstrem a possibilidade de ganharem competitividade mundial, demonstrando o resultado em dez anos.

Um dos maiores desafios para a busca da excelência acadêmica é o estabelecimento de um sistema de governança institucional que dê prioridade a valores acadêmicos reconhecidos internacionalmente. Um programa do tipo proposto não se pode limitar a oferecer recursos, precisa estimular e tornar viáveis reformas institucionais. As universidades devem ser estimuladas a planejar ações institucionais eficazes que descrevam metas, custos adicionais e métricas de desempenho e avaliação. Tais ações devem aumentar o impacto científico, social e econômico da instituição, segundo padrões internacionais, e não podem limitar-se a aumentar a infraestrutura de pesquisa. Em planos de outros países é fácil notar que se busca incrementar a inserção nacional modificando o ensino e a pesquisa e a relação de ambos com os setores público e privado. Busca-se tornar a universidade mais atraente para os melhores estudantes e professores, desenvolvendo a colaboração e a reputação internacionais.

Para que um plano dessa natureza funcione é preciso que seja nacional, e não apenas federal. Requer que o Poder Executivo, nos níveis federal e estaduais, esteja disposto e comprometido a realizar modificações em peças de legislação que obstam o desenvolvimento acadêmico. É preciso garantir estabilidade e autonomia sobre o orçamento designado, incluindo a dotação de pessoal, custeio e capital, além de flexibilidade institucional para definição de salários e processo de seleção e promoção.

Exatamente porque vivemos tempos conturbados no Brasil é essencial adotar já iniciativas arrojadas e transformadoras que contribuam para construir um Brasil melhor, uma Nação mais forte, justa e sustentável. Não foi por acaso que a China e a Alemanha apostaram em programas de excelência para melhor se colocarem no cenário internacional. Universidades de classe mundial inserem o país competitivamente, mas não só para avançar nos rankings. Universidades capazes de formar lideranças internacionalmente em todas as áreas fazem a sociedade mais informada e inteligente, nutrem os centros de inovação, produzem formuladores de políticas públicas e atuam nas áreas sociais e culturais. Como entidades de referência, elevam os referenciais nacionais, definindo muito melhor as chances para o país num mundo que avança com base no conhecimento.

*Respectivamente, bioquímico, ex-presidente do CNPQ, professor emérito do Instituto de Química da USP; e engenheiro de eletrônica e físico, diretor científico da Fapesp, ex-reitor e professor no 

Instituto de Física da Unicamp

 

 

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