Velho Chico

No final da década de 1970, sobrevoando o Rio São Francisco em Paulo Afonso, o então ministro Delfim Netto comentou seu desgosto em ver aquela água fluindo pelo meio da Caatinga, sem nenhuma área irrigada visível. Alguém da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) respondeu: “Ainda bem. Aqui, se irrigar, saliniza”. O ministro ficou surpreso ao descobrir que, conforme os estudos já realizados, o solo era mais relevante do que a água para a irrigação.

Evaristo E. de Miranda*, O Estado de S.Paulo

11 Junho 2016 | 03h00

Quando o avião pousou em Petrolina, Delfim Netto já havia autorizado recursos financeiros adicionais para a Embrapa desenvolver a irrigação na região. E assim foi. No ano passado, a fruticultura irrigada do Rio São Francisco faturou mais de R$ 500 milhões nos mercados interno e externo. Mas o universo humano e natural do Rio São Francisco ainda segue um grande desconhecido dos brasileiros.

A novela Velho Chico traz agora o rio da integração nacional para dentro dos lares brasileiros. E, com o profissionalismo e a competência dinástica da família Benedito Ruy Barbosa, muitas aventuras ainda virão.

O Rio São Francisco é parecido com o Tietê: teimoso, arredio às facilidades. Ambos, ao nascer, poderiam correr direto para seu destino, o Atlântico. Pertinho. Mas não. Eles se afastam do oceano, adentram as terras, caminham em direção ao poente, e não ao nascente. E só depois de uma longa viagem miram o leste e deságuam no mar.

O Rio São Francisco percorre mais de 2.800 km. Nasce na Mata Atlântica e logo entra no bioma Cerrado, onde se localizam 57% dos quase 64 milhões de hectares de sua bacia. Praticamente toda a água que o rio leva para o semiárido sai de Minas Gerais (68%) e do oeste da Bahia (30%). A grande caixa d’água, a torneira do São Francisco, é mineira. Os sertanejos detêm a caneca.

No passado, essa água escoava livremente para o mar, ao sabor de cheias e vazantes. Hoje não mais. Existem 34 barragens construídas na bacia, das quais 25 em Minas Gerais e na região oeste da Bahia. No semiárido são poucas, mas são canecas grandes: Sobradinho e os complexos de Paulo Afonso e Luiz Gonzaga (Itaparica). Barrar um rio dessa dimensão trouxe mudanças enormes e definitivas à vida da bacia.

A missão das barragens, em última instância, é gerar energia elétrica para as capitais nordestinas. Quem liga o ar-condicionado em Natal ou Fortaleza, quem usa eletrodomésticos em Aracaju ou João Pessoa ou, ainda, quem trabalha nas indústrias de Salvador ou Recife raramente sabe o preço alto que pagaram – e ainda pagam – os homens e o meio ambiente do vale do São Francisco, em benefício do mundo urbano.

A transposição das águas do São Francisco, mais uma vez, atenderá a demandas do mundo urbano, que as transformarão em esgoto. O projeto já gastou muitos recursos e segue questionado. A transposição é possível. Mas o projeto atual ainda não construiu uma capilaridade de benefícios para o mundo rural que atravessa. A ponto de ser necessário patrulhar a obra, para que os agricultores não “roubem” água para saciar a sede de seus familiares e rebanhos.

O projeto previa a revitalização da bacia, que pouco avançou. Até a definição do ministério, para planejar e operar esse processo, ainda não está clara. O tratamento efetivo do esgoto industrial e urbano das cidades na bacia do São Francisco deveria ser a prioridade número um da revitalização.

A Caatinga vive grandes transformações sociais e econômicas. Em três anos de seca, com 10 milhões de pessoas atingidas em mais de 1.300 municípios, não ocorreram saques, deslocamentos de flagelados, frentes de trabalho, invasões de cidades em busca de comida, ataques a armazéns ou campanhas para arrecadar ajuda às vítimas da estiagem. Esses fatos sempre aconteceram. Foram 1,2 milhão de alistados em frentes de trabalho em 1999. Hoje, não mais.

O programa Bolsa Família garante a alimentação das famílias no semiárido. A sinergia com outros programas, como a construção de cisternas, a ampliação do fornecimento de água, a interligação de adutoras, a distribuição de água com carros-pipa e outras ações – investimentos em infraestrutura e áreas irrigadas –, é real.

Muita gente parou de plantar ou reduziu a área cultivada. A Caatinga cresceu. Os rebanhos de caprinos e ovinos, também. A moto substituiu os jumentos. E os animais zurram e vagam abandonados pelas estradas.

A natureza não tem mais como salvar o rio. Ele está nas mãos de quem vive nas cidades, sobretudo no Nordeste. Sertanejos, irrigantes, agricultores e pescadores são mais vítimas do que causadores de problemas à vida do rio. Não há como compará-los à dimensão dos problemas ambientais criados por quem implantou barragens e se beneficia da geração de energia elétrica no mundo urbano.

O urbanoide se preocupa com o meio ambiente. Gosta de planejar o que não executa e avaliar o que não fez. Os desafios ambientais do Rio São Francisco pedem outras soluções.

Como estabelecer um processo decisório participativo no uso múltiplo das águas? A transposição e a irrigação são inovadoras nesse sentido, mas marginais, muito diferentes em suas funções e executadas apenas parcialmente.

Como garantir um futuro melhor para quem vive na bacia, e não só para os que se beneficiam de seus recursos em distantes áreas urbanas?

Uma improvável “cooperativa do Velho Chico” talvez fosse a solução. Como a criada pelo personagem Santo, na novela. No cooperativismo, um membro é um voto. Na gestão das águas do rio, os maiores interessados não votam. Nem são convidados para as “assembleias”. Recebem tarefas, encargos, migalhas compensatórias e tentam aproveitar oportunidades geradas. A gestão do Velho Chico está essencialmente na mão do setor elétrico e na demanda urbana, os novos e poderosos coronéis da região.

*Evaristo E. de Miranda é doutor em Ecologia e é chefe da Embrapa Monitoramento por Satélite

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