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Vende-se

Petrobrás procura compradores para 21 usinas térmicas, gasodutos e terminais de regaseificação

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O Estado de S. Paulo

15 Fevereiro 2016 | 03h00

Com grande atraso, a Petrobrás está colocando à venda ativos que não estão ligados diretamente à sua atividade principal, que é exploração, produção e refino de petróleo. A estatal procura compradores para 21 usinas térmicas, gasodutos e terminais de regaseificação (que processam o produto importado que chega na forma líquida). Com sua capacidade financeira exaurida, a empresa pretende concentrar investimentos no que considera seu grande trunfo: o pré-sal.

Não poderia ter sido outra sua decisão para tentar amenizar os graves problemas financeiros provocados por ingerência política em seus programas de investimentos, por gestão imprudente de recursos e, sobretudo, pelo amplo esquema de corrupção que desviou bilhões para cofres de partidos políticos e contas bancárias de políticos, funcionários, empresários e lobistas corruptos. A crise do mercado internacional do petróleo, que levou o preço do óleo para os níveis mais baixos em mais de uma década, tornou mais graves os já sérios problemas da empresa.

A rede de gasodutos controlada pela estatal tem 9 mil km. As usinas térmicas têm capacidade de geração de 6,14 megawatts. Essas usinas foram construídas no início da década de 2000, durante o governo Fernando Henrique Cardoso, na época do apagão. Por terem custo operacional mais alto, essas usinas só são acionadas quando o nível dos reservatórios das hidrelétricas está muito baixo. Neste momento, elas estão desligadas, o que impõe custos para a Petrobrás, que, por isso, quer vendê-las.

O objetivo da empresa, como mostrou reportagem do Estado, é receber US$ 57,7 bilhões (ou cerca de R$ 225 bilhões) com as vendas. Com o dinheiro que arrecadar, a Petrobrás vai reforçar seu caixa. Não será fácil, porém, concretizar as vendas, pois podem surgir dificuldades com a Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP) a respeito de questões regulatórias dos gasodutos – obviamente não haverá interessado na compra enquanto essas questões não tiverem sido resolvidas. Além disso, com os preços atuais do petróleo – caíram 70% em um ano e meio –, outras empresas do setor em todo o mundo estão colocando ativos à venda. Há menos interessados em investir na área e os que se dispõem a adquirir ativos querem pagar o menor valor possível.

Utilizada irresponsavelmente pelo governo do PT como instrumento de combate à inflação – por meio da severa contenção dos preços dos combustíveis –, a Petrobrás teve suas receitas fortemente comprimidas. Estima-se que o congelamento dos preços da gasolina e do óleo diesel causou perdas superiores a R$ 100 bilhões para a empresa.

A despeito dessas perdas, o governo forçou a Petrobrás a executar um bilionário programa de investimentos no pré-sal. Mesmo tendo comprometido os investimentos em outras áreas, como o refino e a manutenção adequada dos poços em operação na Bacia de Campos, o programa para o pré-sal, nas dimensões pretendidas pelo governo, se revelou financeiramente insustentável. O resultado não poderia ser outro a não ser a redução dos lucros e o aumento vertiginoso da dívida. Com uma dívida bruta recorde de R$ 506 bilhões no fim do terceiro trimestre de 2015, tornou-se a maior devedora entre as petroleiras do mundo.

A deterioração da imagem da Petrobrás decorrente dos escândalos desvendados pela Operação Lava Jato e o agravamento de seus problemas financeiros forçaram as agências internacionais de risco a rebaixar a classificação de sua dívida, o que encarece suas captações no mercado externo.

O Plano de Negócios e Gestão para o período 2015-2019, aprovado em meados do ano passado, era menos ambicioso do que o anunciado um ano antes, mas, mesmo assim, vem sendo revisto para baixo. Em outubro, os investimentos programados para 2015 foram reduzidos de US$ 28 bilhões para US$ 25 bilhões. Em janeiro, foram novamente revistos, para US$ 23 bilhões. Já os programados para este ano foram reduzidos de US$ 27 bilhões para US$ 20 bilhões. A persistência da crise pode forçar novos cortes.

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