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Venezuelanos comem menos

O Estado de S.Paulo

02 Julho 2014 | 02h 06

Um levantamento do Instituto Nacional de Estatística da Venezuela (INE), órgão oficial, mostra que o consumo de alimentos básicos no país diminuiu entre 2012 e 2013. É um reflexo direto da política econômica desastrosa do presidente Nicolás Maduro, que agora começa a afetar as necessidades mais elementares dos cidadãos do país.

A Pesquisa de Acompanhamento de Consumo de Mantimentos monitora 43 itens. A mais recente compara o segundo semestre de 2012 com o mesmo período de 2013. Nesse intervalo, houve redução no consumo de 41 produtos - ou seja, não se trata de um fenômeno localizado, fruto de algum desequilíbrio econômico específico, mas sim de uma tendência generalizada.

Os alimentos mais consumidos pelos venezuelanos foram justamente aqueles que apresentaram maior queda. Uma das variações mais significativas foi a da farinha de milho, alimento usado para preparar as arepas, um dos pratos mais tradicionais da Venezuela. Seu consumo caiu 16,55%. Houve queda também no consumo de leite (-13,6%), frango (-7,43%), carne (-7,3%), massas (-7,55%), arroz (-10,5%) e açúcar (-7,65%).

Além dos 43 itens regulares, a pesquisa investigou o consumo dos demais produtos que compõem a cesta alimentar básica. Resultado: dos 62 itens, 55 tiveram o consumo reduzido.

Esse fenômeno se explica pela forte alta dos preços desses produtos. A inflação dos alimentos básicos superou os 70% em 2013, enquanto o salário mínimo subiu apenas 45% - a maior alta do período chavista, mas obviamente insuficiente para enfrentar a carestia. A tendência se manteve neste ano: a inflação dos alimentos foi de 76,2% entre maio de 2013 e maio passado.

A alta dos preços resulta da escassez dos produtos, que atinge todos os setores da economia e é consequência do controle de preços exercido pelo governo. No caso dos alimentos, os indicadores mostram uma situação particularmente dramática: a falta, que era de 10% em março de 2012, chegou a 17,7% em 2013 e agora está em 26,9%, segundo dados do Banco Central da Venezuela. Além disso, a instituição detectou que, no caso dos 19 produtos considerados de primeira necessidade no país, a escassez variou de 53,4% a 100%.

Os dados do INE mostram também que a queda no consumo de alimentos ocorreu em todas as classes sociais. Mesmo entre os mais ricos, houve recuo da ordem de 10%. Mas a situação é pior entre os mais pobres, justamente aqueles que o chavismo diz resgatar. Segundo a pesquisa, o consumo per capita de arroz nessa faixa caiu 14%, enquanto o de farinha recuou 18%; o de massas, 19,5%; o de frango, 13,7%; e o de carne, 5,3%.

Esse cenário contrasta de forma dramática com as triunfantes estatísticas apresentadas pelo governo chavista ao final de 2012. Na ocasião, ainda sob administração do caudilho Hugo Chávez, o país anunciava que o consumo de alimentos havia duplicado em relação ao período anterior ao da "revolução bolivariana" e que a pobreza estava prestes a ser erradicada. A situação atual indica que os avanços alardeados por Chávez estavam assentados em bases irreais.

A estatística sobre a queda no consumo de alimentos vem se somar ao levantamento do mesmo INE que mostrou um aumento do número de venezuelanos que se encontram na situação de pobreza extrema. Entre o segundo semestre de 2012 e o segundo semestre de 2013, esse contingente cresceu de 7,1% para 9,8% da população. Em números absolutos, significa que cerca de 737 mil venezuelanos passaram a integrar a base da pirâmide socioeconômica somente no último ano.

A mesma pesquisa indica que a pobreza extrema vinha caindo durante o governo Chávez, mas à custa de programas assistenciais que exauriram as finanças nacionais. O desastre resultante dessa política não tardou a se manifestar. Quando Maduro assumiu o poder, em abril do ano passado, ele não herdou o carisma de seu criador, mas, sim, uma brutal crise econômica, que agora cobra a conta.

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