Vítimas e assassinos

Em matéria de violência, não somos piores nem melhores que outros países

*Pedro Cavalcanti, O Estado de S.Paulo

02 Fevereiro 2018 | 03h04

Violência de maridos e ex-maridos, de namorados e ex-namorados, violência que vai do espancamento ao assassinato por ciúmes, por crises de brutalidade desencadeadas pela embriaguez ou por drogas ilegais, por desespero de ter sido traído ou abandonado, pelos chamados motivos fúteis. Seria ignóbil menosprezar a gravidade dessa realidade. Em números frios, no entanto, o número de vítimas de morte entre os homens, sobretudo jovens e velhos, é imensamente superior ao das mulheres.

Homicídio é principalmente um problema de homens, não apenas em termos de autores, mas também de vítimas, sobretudo entre os menores de 30 anos. Relatório recente divulgado pelo Conselho Econômico e Social das Nações Unidas sobre a evolução da criminalidade em todo o mundo indicou que cerca de 80% das vítimas de homicídio são homens. Mulheres são assassinadas em casa por seus parceiros, ex-parceiros ou familiares, homens morrem na rua vítimas de desconhecidos.

A grande diferença é que os homens vítimas da violência são também seus autores, o que ao olhar de muitos desautoriza qualquer piedade. Como se ouve pelas esquinas: bandido bom é bandido morto e quanto mais morrerem nas chacinas dos presídios ou tiroteios melhor será.

Um dos aspectos mais lamentáveis desse olhar impiedoso é o fato de terem quase desaparecido as denúncias contra a tortura em delegacias e quartéis da Polícia Militar (PM). Ao contrário dos torturadores da ditadura, que não são esquecidos, os do cotidiano policial não provocam hoje grande escândalo nem interesse. Nem causa escândalo maior o aumento dramático do número de mortos entre os PMS, aceito como fatalidade de quem escolheu uma profissão reconhecidamente perigosa. É esquecer os limites de escolha que se apresenta aos jovens das periferias das grandes cidades.

A origem social dos soldados da PM e dos chamados “soldados do tráfico” é muitas vezes a mesma. O confronto fatal se dá não apenas entre “bandidos e mocinhos”, mas entre ex-amigos, ex-colegas de escola, entre primos, entre irmãos.

Como era de esperar, o risco de um jovem brasileiro negro entre 15 e 29 anos morrer assassinado é quase três vezes maior que o de um jovem branco. A democracia reina somente entre as vítimas das balas perdidas. São pretos e brancos, moços e velhos, crianças no meio do sono, homens e mulheres a caminho do trabalho.

Há quem veja na grande violência masculina uma dependência biológica contra a qual seria fútil rebelar-se. Rapazes são amantes de esportes perigosos, do paraquedismo, do alpinismo, das acrobacias em asa-delta, pois isso é determinado por seus hormônios.

Na galeria dos heróis nacionais figura em lugar de destaque Ayrton Senna, cujo maior feito foi dirigir uma espécie de banheira cheia de gasolina a 300 km por hora. Por quererem imitá-lo, legiões de motoboys ou garotos de subúrbio em carros roubados sonham com a glória nas pistas e acordam no Hospital das Clínicas com a coluna fraturada e paralíticos da cintura para baixo.

Seria talvez, então, o caso de considerar o brasileiro como especialmente violento. No presente e no passado não faltam episódios apontando nessa direção. Entre outros, o genocídio secular dos índios, a escravidão, o reino do tráfico nas favelas e até as brigas de torcidas uniformizadas dentro e fora dos estádios.

Como exemplo da violência oficial cita-se ainda a Guerra de Canudos e o seu cruel desenlace, gravado para sempre nas frases finais de Os Sertões: “Expugnado palmo a palmo, na precisão integral do termo, caiu no dia 5, ao entardecer, quando caíram os seus últimos defensores, que todos morreram. Eram quatro apenas: um velho, dois homens feitos e uma criança”.

O final da Guerra do Paraguai também teve exemplos de dramaticidade comparável, incluindo os últimos dias da perseguição a Solano López, quando jovens guaranis de 14 anos defendiam a pátria destroçada com cacos de garrafa.

Mas bastaria um olhar na formação dos países da América Latina para ver que em matéria de violência não somos piores nem melhores do que os outros. Aliás, os países europeus, que hoje tanto se gabam da defesa dos direitos humanos, são insuperáveis na quantidade de sangue derramado por metro quadrado – sangue derramado entre vizinhos. Bastaria lembrar os 40 milhões de mortos na 2.ª Guerra Mundial.

Muito se tem falado dos radicais muçulmanos e seus atentados suicidas. Convém não esquecer que, segundo o Centro de Pesquisa e Documentação de Sarajevo, 98 mil pessoas morreram no conflito bósnio entre 1992 e 1995, na limpeza étnica comandada por cristãos contra muçulmanos.

Como separar vítimas de assassinos?

Há, sobretudo, um momento em que se tornam indissociáveis, o momento em que o olhar desesperado das vítimas e o esgar feroz dos assassinos se confundem no mesmo rosto. É a hora dos suicidas. E não são poucos. Segundo lembra Yuval Noah Harari em Homo Deus, “mais pessoas cometem suicídio do que todas as que, somadas, são mortas por soldados, terroristas e criminosos”.

Curiosamente, o número de homens que recorrem a essa solução fatal é duas vezes maior que o das mulheres, chegando ao triplo em países desenvolvidos. As mulheres tentam em maior quantidade, mas os métodos utilizados pelos homens são mais letais: armas de fogo e enforcamento.

No Brasil, o índice de mulheres que morreram por suicídio em 2015 foi de 2,7 por 100 mil, enquanto os homens atingiram taxas até quase quatro vezes superiores. As idades críticas são a juventude, entre 20 e 29 anos de idade – 6,8 casos a cada 100 mil habitantes –, e a velhice, além dos 70 anos, com taxas que se aproximam de 9 a cada 100 mil habitantes, entre 2011 e 2015.

É de perguntar se os homens, sobretudo os que tiveram uma vida mais confortável, sentem a aproximação da velhice como um naufrágio mais amargo e insuportável ou as mulheres são mais resistentes ao sofrimento. Ninguém sabe.

*Jornalista e escritor - e-mail: pra@uol.com.br

 

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