Fórum dos Leitores

Cartas selecionadas para o Fórum dos Leitores do portal estadao.com.br

Fórum dos Leitores, O Estado de S.Paulo

19 de abril de 2020 | 03h00

Pandemia

'De estarrecer'

Nestes dias de pandemia, de proliferação de um vírus mortal, em que os que estão no Poder Executivo pensam em salvar vidas impondo o isolamento recomendado pela OMS, vemos pela mídia pessoas buscando ajudar os menos favorecidos, seja com atos de fé, pondo estruturas fabris para produzir máscaras ou angariando alimentos para as pessoas que estão na base da pirâmide social - onde falta de tudo pela interrupção das atividades econômicas -, entre outras atitudes que enchem de orgulho o "ser brasileiro", povo cordial, afetivo e solidário ao próximo. Enquanto isso, o que se vê em termos de solidariedade daqueles que vivem das benesses pagas pelo povo é o velho "Mateus, primeiro os meus": nada, absolutamente nada! Muito ao contrário, como muito bem demonstra o editorial Insensibilidade estarrecedora (18/4, A3). Nas três esferas de poder, e em todos os Estados e municípios, não há voz representativa dos apaniguados que venha solidarizar-se com a imensa massa de brasileiros desassistidos desde sempre, mas principalmente neste momento de tragédia na saúde. Com raríssimas exceções, não se vê quem mama nas burras do Estado abrir mão sequer de 1% de seus altos vencimentos para minimizar o sofrimento de tantos irmãos brasileiros - não, porém, pelo visto, seus irmãos.

CARLOS LEONEL IMENES

LEONELZUCAIMENES@GMAIL.COM

NAZARÉ PAULISTA

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Os intocáveis

Enquanto o País atravessa uma das maiores - se não a maior - crises de sua História, com o governo federal gastando mais do pode, pressionando ainda mais a dívida interna, e os trabalhadores tendo seus salários reduzidos para não perderem o emprego, uma casta faz ares de "não é comigo". É classe do alto funcionalismo público, aquela que ganha salários exorbitantes, desfruta benefícios que dão água na boca no resto da população e se aposenta com vencimentos integrais, que mais uma vez se nega a dar um quinhão de seus ganhos para ajudar o Brasil. No século passado um grupo de policiais comandados por Eliot Ness arruinou o império dos gângsteres americanos. Eram chamados "os intocáveis". Agora, no século 21, temos os intocáveis na versão brasileira, são aqueles que não podem ter tocados seus privilégios, à nossa custa. Enquanto temos medo do vírus, essa outra peste vai nos consumindo.

ADEMIR ALONSO RODRIGUES

RODRIGUESALONSO49@GMAIL.COM

SANTOS

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Peso das corporações

Infelizmente, cheguei à conclusão de que sem "atender às demandas" das corporações o Brasil é ingovernável. Pena.

GUSTAVO GUIMARÃES DA VEIGA

GGVEIGA@OUTLOOK.COM

SÃO PAULO

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Planejamento zero

Os políticos sempre dizem durante as campanhas eleitorais que a saúde será uma das prioridades de seus mandatos. A realidade, no entanto, é completamente diferente desse discurso vazio. A pandemia de covid-19 está mostrando claramente que os hospitais e postos de saúde públicos estão despreparados. Os países mais civilizados do mundo trataram os seus pacientes com muito mais recursos, que já existiam fazia tempo. Nós, brasileiros, estamos correndo atrás de máscaras e respiradores, pagando preços altíssimos, porque não nos preparamos para situações de epidemias. Uma vergonha, principalmente para políticos e funcionários do Legislativo e do Executivo, que estão com as mordomias garantidas e nunca se internam em hospitais públicos.

JOSÉ CARLOS SARAIVA DA COSTA

JCSDC@UOL.COM.BR

BELO HORIZONTE

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A diferença que faz a educação

Espetacular o vídeo exibido na internet por um rapaz que mora no Brasil, mas em viagem à Coreia do Sul fez o teste, deu positivo para covid-19 e foi tratado lá. Ele descreve todos os passos da doença: exames, preocupação com as demais pessoas e como o rastreamento é feito. A Coreia do Sul tem uma população de pouco mais de 51 milhões de habitantes, dados de 2018. Tomemos apenas o Estado de São Paulo, com pouco mais de 44 milhões de habitantes em 2014, com estimativa de 46 milhões em 2019. Comecemos por aí: nem o número de habitantes temos precisamente. Também não temos máscaras disponíveis, nem álcool, e não podemos deixar de registrar que foram encontrados à venda testes de coronavírus provenientes de uma carga roubada no aeroporto de Guarulhos. Sistema de saúde em colapso? Quem se surpreende? Sem querer comparar Brasil e Coreia, o fato é nunca vamos deixar de fazê-lo quando sabemos que a diferença está na (falta de) educação. Há muitos anos a educação - em que estão inseridos os valores morais e éticos que tanta falta nos fazem - deixou de ser prioridade no País. Hoje colhemos o resultado.

IZABEL AVALLONE

IZABELAVALLONE@GMAIL.COM

SÃO PAULO

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Quarentena furada

Apesar do esforço do governador João Doria, muitos prefeitos paulistas não seguem sua determinação e abrem o comércio em seus municípios. E por que agem assim? Porque conhecem a eficiência de seu "sistema hospitalar": a ambulância! É só ir para a frente do Hospital das Clínicas na cidade de São Paulo, de madrugada, e ver a quantidade de ambulâncias de vários municípios que chegam lá. Todos os dias. Aí é fácil, né?

MAURÍCIO LIMA

MAPELI@UOL.COM.BR

SÃO PAULO

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Futebol

Querem voltar com os jogos de futebol, mas com os portões fechados. E os jogadores, árbitros e que tais, usarão máscaras? Ou, por serem atletas, estão imunes à covid-19?

MILTON BULACH

MBULACH@GMAIL.COM

CAMPINAS

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Corrupção

A aquisição de hospitais de campanha no Rio de Janeiro já tem suspeitas de fraude, informa a imprensa. Estava demorando...

ROBERT HALLER

ROBELISA1@TERRA.COM.BR

SÃO PAULO

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DESEMPREGADOS

Nas últimas quatro semanas, 22 milhões de pessoas entraram com pedido de seguro-desemprego nos Estados Unidos. Depois da grande recessão de 2008/2009, 22,8 milhões de empregos foram gerados entre fevereiro de 2010 e fevereiro de 2020. Agora, em menos de um mês, quase a totalidade dessa recuperação econômica de uma década foi perdida. O cenário de depressão econômica aproxima a realidade atual daquele cenário sombrio da década de 1930. Há necessidade de vigorosos estímulos fiscais nos próximos anos e de medidas emergenciais que serão tomadas, em todo o mundo, para enfrentar os efeitos do isolamento social provocado pela pandemia do novo coronavírus.

Luiz Roberto Da Costa Jr. lrcostajr@uol.com.br

Campinas

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ATITUDES GENOCIDAS

Pior que o vírus desconhecido que paralisou o planeta são as atitudes genocidas de Donald Trump ao suspender a ajuda financeira de Washington para a Organização Mundial da Saúde (OMS), deixando os países pobres mais vulneráveis, e de Jair Bolsonaro e sua obsessão em trocar o competente e carismático ministro da Saúde num momento em que os números de casos confirmados e de mortes começam a crescer assustadoramente no Brasil.

  

Marcos Abrão m.abrao@terra.com.br

São Paulo

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MUNDO MÍOPE

Apesar da truculência, Donald Trump está certo em cortar o financiamento dos EUA à OMS, atualmente manipulada pelo etíope Tedros, que favoreceu a China - a mãe do vírus da covid-19 -, por sonegar informações sobre o vírus e por ter minimizado a epidemia que hoje se transformou em pandemia e é responsável por milhares de mortes no mundo, além de ter quebrado - e vai quebrar mais - milhares de empresas no mundo. O mundo está míope em relação à China. Nota: Trump também está certo em trazer de volta a fábrica do iPhone da China para os EUA, fortalecendo seu mercado interno e deixando de enviar dólares para os chineses.

Carlos R. Gomes Fernandes, medico crgfernandes@uol.com.br

Ourinhos

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APESAR DA TECNOLOGIA

Num mundo altamente dominado pela ciência e pela tecnologia, não consigo entender como a OMS, maior autoridade de saúde do planeta, não conseguiu, já no surgimento da doença, se antecipar e estancar a marcha caótica do coronavírus, que já infectou e matou milhões de pessoas. Afinal de contas, a OMS é o órgão máximo, responsável pelo monitoramento da saúde da humanidade.

Marcelo de Lima Araújo marcelodelimaaraujo@yahoo.com.br

Rio de Janeiro

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OFENSA COMPARAR

Governos liderados por mulheres viram exemplo de combate à pandemia. Foi o que fizeram Alemanha e Nova Zelândia. Essa é a diferença. Não é tanto pelo gênero, mas pelas condições e estrutura que estes dois países têm na área da saúde. Embora um deles, Nova Zelândia, tenha 5 milhões de habitantes, o que facilita o controle, o principal é a sua estrutura na área da saúde. Eles têm, nós não. Nem para atender um curativo com BandAid. Então, é quarentena em cima de quarentena. Eles tomaram medidas logo no início, quando ninguém se preocupava com isso. Nem a OMS. O governo brasileiro decretou emergência no final de janeiro. Era para terem começado a tomar as medidas que a situação requeria. Deveriam ter cancelado o carnaval. Ah, não, e os interesses das escolas de samba? Ora, danem-se os interesses das escolas de samba, da mídia, dos patrocinadores, etc. A saúde do povo é mais importante. Eis a gritante diferença do Brasil para estes dois países. É até piada querer comparar. É ofender Alemanha e Nova Zelândia. Que isso sirva de lição para o País e o povo. Se depois disso os governos estaduais, municipais e federal não mudarem radicalmente na área da saúde, o povo tem de fazer alguma coisa. Não dá para ficar vendo a banda passar e bater palmas. A falta de estrutura é tanta que, se você chegar a um hospital passando mal por outro problema que não seja coronavírus, não te atendem. Você não morre de coronavírus, mas vai morrer por outra causa que nem vai para a estatística, que, aliás, diga-se de passagem, é confiável? Eu não acredito.

Panayotis Poulis ppoulis46@gmail.com

Rio de Janeiro

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MEDÍOCRES

"O que me preocupa não é o grito dos maus, mas o silêncio dos bons" (Martin Luther King). Em 1917/1918, o mundo enfrentou a gripe espanhola, o maior combate que encaramos até então, e 30 mil vidas brasileiras foram ceifadas. Mais uma vez, e com reflexos no mundo todo, estivemos na Segunda Guerra Mundial, quando cerca de 460 brasileiros perderam a vida. Agora, indubitavelmente, encaramos o maior embate desta geração e que versa em seu computo pela contagem diária de mortos por um inimigo invisível e cujo único objetivo é o de eliminar vidas. Não tem ideologia, não tem preocupação com o estado de riqueza, hierárquico, intelectual, etnia de quem quer que esteja à sua frente. O mote é matar, não quer riquezas, glória e muito menos tem pretensões políticas ou ideológicas. Já matou quase 1.800 brasileiros. A forma de combatê-lo, assim como a qualquer inimigo, está nas suas fraquezas que tão apenas a razão e o conhecimento científico podem identificar, assim como ocorreu em tantos quantos males que a ciência médica superou para o bem da humanidade. Mas no Brasil é diferente. Aqui, e como Albert Einstein disse, "os grandes espíritos sempre tiveram de lutar contra a oposição feroz de mentes medíocres", e medíocres se aliam a medíocres, e inovadores a inovadores. As ligações dos medíocres, entretanto, são mais perigosas, porque são baseadas em ameaças de força e geralmente partem de princípios pífios de argumentação, como a exigência de subordinação a que não se faça sombra ao medíocre; pois ele precisa de holofotes e não tem senso do ridículo. Mas temos vidas em jogo; aliás, milhões de vidas, e estamos presenciando em pleno século 21 a volta do negativismo ao conhecimento como demonstração de poder a sobrepujar outrem.

Oswaldo Colombo Filho colomboconsult@gmail.com

São Paulo

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ENROSCO

Como cidadão deste infeliz país, fiquei imensamente preocupado com o desfecho do embate entre Luiz Henrique Mandetta e o presidente Bolsonaro. De um lado, um profissional competente, agindo de forma científica e conforme o que determina a OMS; do outro lado, um indivíduo desqualificado que The Economist chega a sugerir que dá sinais de demência. Lamentável a situação a que chegamos, especialmente por sabermos que o pico da pandemia ainda não chegou e que o novo ministro da Saúde já declarou total alinhamento com o Planalto. Teremos como sair deste enrosco?

Nelson Penteado de Castro pentecas@uol.com.br

São Paulo

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MEXERAM NO TIME

No meio esportivo há um ditado afirmando que "em time que está ganhando não se mexe". Entretanto, nas hostes palacianas, seu chefe, conduzindo-se pela vaidade, alucinações persecutórias, equivocadas convicções extremadas e interesses eleitoreiros, resolveu desprezar o bom senso e a razoabilidade que se espera de um governante, substituindo o ministro da Saúde no meio do jogo e no momento em que o adversário está atingindo seu ápice. À parte a alucinada decisão, sujeitando a vida e a sobrevivência de 211 milhões de seres humanos durante o período de transição pela troca do jogador, resta-nos agradecer ao dr. Mandetta e sua equipe por ter-nos democraticamente informado o suficiente para utilizarmos nosso livre-arbítrio e decidirmos a melhor maneira de nos prevenirmos nesta crise sanitária. Agradecê-los também pela prudência na linguagem simples das apresentações, pela rara honestidade de propósitos, por cuidar do "paciente Brasil" com tanto carinho e dedicação, além de elogiá-los pela maturidade psicológica e equilíbrio emocional no enfrentamento da irracionalidade reinante no Palácio do Planalto, onde insanamente acham que a covid-19 será derrotada por decretos.

 

Honyldo Roberto Pereira Pinto honyldo@gmail.com

Ribeirão Preto

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NÃO ERA HORA

O ministro da Saúde foi exonerado na quinta-feira e substituído pelo médico oncologista Nelson Teich, numa vitória presidencial desta vez apoiada pelos generais, que consideraram que o ministro Mandetta pisou na bola ao desafiar a hierarquia. Esperamos que não seja uma vitória de Pirro, pois as vítimas seremos nós. O novo ministro é fundador do Instituto de Educação, Pesquisa e Gestão de Saúde, conhecido como Instituto COI, dedicado à oncologia, e colaborou na campanha do presidente. Seria um ato normal se não estivéssemos em plena ascensão da epidemia. Pesquisadores das áreas de Física e Medicina, ligados às universidades federais do Nordeste e de Brasília, baseados num modelo matemático, estimaram que no ritmo atual da evolução da pandemia no Brasil todas as unidades de terapia intensiva no País não serão suficientes para atender a demanda a partir de 21 de abril. Ainda que alguns hospitais de campanha continuem sendo erguidos a toque de caixa, se esses dados se confirmarem, nossa situação não está nada confortável. Não era hora de Bolsonaro trocar o ministro da Saúde. O presidente é somente um político. E o Brasil precisaria ter como presidente um estadista, que pensasse mais na população e menos na sua carreira. Todos os chefes de Estado do planeta que demoraram em determinar a quarentena assistiram, depois, arrependidos, à morte de milhares de pessoas. Inclusive Donald Trump, dos Estados Unidos, que está assistindo aos mortos de Nova York serem enterrados em valas comuns, num cemitério improvisado à beira do rio.  Enquanto isso, outros ministros do governo brasileiro que mereciam cartão vermelho há tempos não são exonerados, como o das Relações Exteriores e o da Educação, que ofenderam o governo da China, nosso maior parceiro comercial, a troco de nada. Ou o ministro do Meio Ambiente, que vem assistindo tranquilo aos recordes de desmatamento na Amazônia.

Gilberto Pacini benetazzos@bol.com.br

São Paulo

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PANELAÇOS

Se o ministro da Educação, Abraham Weintraub, e o ministro da Cidadania, Onix Lorenzoni, forem demitidos por Bolsonaro, haverá panelaço em algum lugar do País?

Rubens Carlos da Fonseca rubensfonseca38@hotmail.com

Jaú 

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ESCOLHA

Novo ministro da Saúde já propôs escolha entre tratar adolescente ou idosa com doença crônica (Estadão, 16/4). O novo ministro da Saúde, dr. Nelson Teich, não deveria se preocupar com a questão da "escolha" de quem fica e de quem vai. No que depender do chefe dele, com quem ele se disse completamente alinhado, a escolha já foi feita com a demissão do médico Luiz Henrique Mandetta.

Euclides Rossignoli clidesrossi@gmail.com

Ourinhos

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'NÃO FAZEMOS ESCOLHAS'

Eu me lembro como se fosse ontem, e lá se vão mais de 30 anos. Eu era médico residente em cirurgia geral no Hospital Heliópolis, que ainda hoje fica rodeado pela então maior favela da cidade de São Paulo. Dávamos plantões de 12 horas a cada três noites, com trabalho continuado no dia seguinte. Era assim naqueles tempos. Eram plantões intermináveis, sabíamos que mal haveria tempo para engolir algo que sobrasse na cozinha, ir ao banheiro ou mesmo para algum cochilo inevitável, sentado numa cadeira da sala de pronto-atendimento. Muitas vezes, entre o sono e a vigília, ouvíamos, ao longe, um uivo, que aumentava aos poucos, até que nos colocava de pé novamente. Eram as ambulâncias, carros dos bombeiros ou da polícia com suas sirenes, lembrando-nos todo o tempo da razão de estarmos ali. Quando o uivo cessava, vinha o barulho das macas rolando, portas se abrindo, vozes, às vezes gritos e, depois, um silêncio que parecia durar uma eternidade. Naquela altura, já estávamos de pé, luvas calçadas, imaginando o que viria daquela vez. Entram os dois enfermeiros do turno, um em cada extremidade de uma maca trazendo alguém, homem, ofegante, roupas ensanguentadas. "Tiro, doutor!", falou um dos enfermeiros, como se dissesse simplesmente "boa noite, doutor". Em seguida, automaticamente, os procedimentos de rotina: cortar com uma grande tesoura a camisa e calça, arrancar os sapatos velhos e sem meias. Já completamente nu, viramos "alguém" de um lado e do outro para identificar as leões. Naquele momento, entra o plantonista cirurgião-chefe da noite, que nunca sabíamos exatamente quem seria, pois as escalas anunciadas mudavam constantemente. Mas, imediatamente, o identifiquei de outros turnos. Atrás dele vieram dois policiais. "Bandido, doutor! E dos piores!", disse um deles. "Podem aguardar lá fora, por favor", respondeu calmamente o chefe, sem nem olhar, apenas calçando suas luvas. Foi quando "alguém", mais ofegante, arregalou os olhos e, sem dizer palavra, olhou para o chefe e depois para mim, tentando desesperadamente respirar. "Tórax direito com saída e coxa esquerda sem saída", disse eu ao chefe, que, olhando apenas para o tórax do "alguém", seguiu: "Dreno de tórax". Com uma agilidade e destreza de mestre, drenou o tórax do "alguém" num gesto que para mim não durou mais que alguns segundos. Foi quando "alguém" soltou um grunhido, único som que saiu da sua boca naquela sala, seguido de tosse e um suspiro profundo, que fizeram o dreno espirrar sangue por toda a sala. "Raio-x e centro cirúrgico", disse o mestre. E os enfermeiros saíram como entraram com a maca e "alguém". No corredor, ao lado da sala e por onde passaram os enfermeiros, a maca e "alguém", seguidos pelo mestre, estavam os dois policiais. "E aí, doutor?", perguntou o mesmo que havia identificado "alguém". O mestre, que já havia passado, parou por dois ou três segundos e retornou. "Senhores", disse, quase em tom de ternura, "lá fora os senhores fazem o seu trabalho. Aqui dentro, nós fazemos a nosso". E seguiu "alguém" até o raio-x. E operou "alguém". Aquelas palavras me acompanham há mais de 30 anos. Senhores em suas poltronas, senhores com suas canetas, por favor, façam bem o seu trabalho, com dignidade e sabedoria, mas não nos peçam para fazermos escolhas. Para nós, somos todos iguais, bandidos e mocinhos, ricos e pobres, velhinhos e adolescentes... Não podemos fazer escolhas.

Ruben Ribeiro Penteado rubenpenteado@terra.com.br

São Paulo

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UM MINISTRO QUE VEIO DE MARTE

Todos os 7,7 bilhões de habitantes da Terra e, principalmente, os 213 milhões de brasileiros sabem tudo sobre a pandemia do coronavírus, a covid-19: suas características, como evolui, como acontece o contágio e o tempo de sua infecção, por meio do que vem acontecendo no planeta, desde a China até a costa do Pacífico, do Canadá ao Chile, e que, na ausência de vacina, o melhor a fazer é o isolamento social. Só não sabem disso o novo ministro da Saúde do Brasil, dr. Nelson Teich, e seu mentor, o ainda presidente Jair Bolsonaro. 

Paulo Sergio Arisi paulo.arisi@gmail.com

Porto Alegre

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COMO MANDETTA

A covid-19 apossou-se dos jornais e ramificou-se, atingindo todos os campos do poder. Não há nada que a ela não se relacione. Sai Mandetta entra Teich, os articulistas caem de pau no novo ministro e os governadores, particularmente os do Nordeste, declaram que seguirão os protocolos da OMS, como fazia Mandetta. Será que não ouviram o discurso de posse do novo ministro? Foi exatamente o que ele disse, e disse mais: as questões econômicas e de saúde estão associadas, mas o afrouxamento das medidas de isolamento não será adotado abruptamente, e, quando for, seguirão critérios técnicos, segundo o acompanhamento da evolução do mal nestes muitos Brasis que temos, após uma testagem mais ampla. Então ele pensa como Mandetta? Pensa, analisem sem paixão. Dará os créditos políticos do sucesso a Bolsonaro, mas não renunciou a eles por altruísmo, senão por não buscar dividendos políticos para si. Mandetta, por seu lado, fez um excelente trabalho, mas estava capitalizando todo o sucesso das suas ações, que dividiria, ou dividirá, com o partido que o indicou, partido de Maia, Neto e Alcolumbre. É um excepcional comunicador e a imprensa, enxergando-o como oposição a Bolsonaro, o colocou num altar. Bolsonaro é uma tosqueira, sua comunicação primária, não chega à elite dominante, que generaliza a sua opinião como se fosse de todo o público. Quando mais de 50% da população rejeita o isolamento, não se pode descartá-lo, claro, mas não se pode afirmar que a massa da população o apoie. 

Paulo Melo Santos policarpo681@yahoo.com.br

Salvador 

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PACIFICAÇÃO

Luiz Henrique Mandetta no Ministério da Saúde é coisa do passado. Resta, agora, ao seu sucessor, Nelson Teich, a tarefa de pacificar a área, promover o equilíbrio entre o combate ao coronavírus e a economia, para que morram menos brasileiros acometidos pelo mal e não se percam empregos e renda. Está claro que faltam vagas de internação, e isso poderá ser um problema se a pandemia se alastrar muito velozmente. O quadro expõe principalmente os governos estaduais que não investiram devidamente na área. Talvez por isso que os governadores estão sendo duros, para não mostrar que, como na fábula, o rei está nu. O mais sensato é não isolar a população. Apenas criar um regime diferenciado aos indivíduos de risco - maiores de 60 anos e portadores de comorbidades de todas as idades - e deixar os outros trabalharem. Exigir que, para circular rumo ao trabalho nas ruas, praças, transporte e locais públicos ou coletivos, todos sejam obrigados a usar máscara e até que as empresas forneçam esses protetores aos seus empregados, e as que não o fizerem fiquem impedidas de retomar as atividades. Essa a obrigação dos governos e dos centros de conhecimento em Saúde, que agora poderá ser cumprida com mais facilidade.

 

Dirceu Cardoso Gonçalves aspomilpm@terra.com.br

São Paulo

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O ÓBVIO

Costumo dizer que o óbvio não precisa ser dito. Mas tem gente que é tão inteligente que nem o óbvio convence.     Dito isso, quero assinalar que, caso os nossos governadores e prefeitos das grandes cidades não tivessem se antecipado e declarado o afastamento e o isolamento social no momento em que fizeram, certamente nossa situação seria bem pior. Ou seja, em vez de termos, na data de 14/4/2020, 14.026 casos confirmados de infecção pelo coronavírus, com 1.952 mortes, teríamos uma situação proporcional à dos Estados Unidos (433.277 infectados e 22.272 mortos), considerando que lá a população é de 328,2 milhões de habitantes. Principalmente, por causa de o presidente Donald Trump ter adiado em cerca de um mês as únicas medidas essenciais e eficazes, disponíveis até o momento, para evitar o alastramento desenfreado da doença. Para um melhor entendimento, é bom frisar que a população brasileira, que era de 210.147.125 habitantes em 2019, equivalia a 64,03% da americana, no mesmo período. Sorte nossa - vale frisar - que não dependemos apenas das decisões do governo federal, cujo chefe fez diversos discursos contra as medidas de afastamento e de isolamento social, sempre se declarou ser admirador do colega americano, deixando claro que estava alinhado com o pensamento e as atitudes de Trump, contra prefeitos e governadores (e, obviamente, contra a população e a saúde pública). Prova cabal disso é que, apesar de o seu ministro da Saúde Luiz Henrique Mandetta estar fazendo um excelente trabalho, sempre pregando a importância do isolamento social, alinhado com as orientações da OMS e de toda a comunidade científica do mundo inteiro, bem como com a grande maioria os governadores e prefeitos, com aprovação de 76% da população, o presidente o demitiu. Tudo isso tem explicação: ciúmes, para não dizer outra coisa. Pois, enquanto a popularidade de Mandetta só subia, seu chefe, que já não é muito popular, amargava mais uma queda, tendo aprovação de apenas 33% da população - obviamente daqueles que estão alinhados a ele pelo fisiologismo, por motivos ideológicos ou por mero fanatismo cego, mesmo. Para não dizer outra coisa, de novo! Assim, só nos resta esperar que o novo ministro da Saúde, Nelson Teich, seja um homem de caráter e um profissional responsável e esteja comprometido com o juramento de Hipócrates, ou seja, com o compromisso incondicional de defender a saúde e a vida humana, com a ciência e com a verdade, e nunca, jamais, com a submissão cega nem com o delírio de poder.

Luiz Rorato luizrorato@luizrorato.com.br 

Curitiba

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FALSO DILEMA REAL

Este aparente paradoxo é decorrente de discussões que têm sido travadas entre personalidades envolvidas no combate à pandemia que nos atinge. O dilema é presenciado todos os dias pelas posições antagônicas entre aqueles que defendem medidas de isolamento mais rígidas e os que acham que o isolamento poderia ser mais brando, mais seletivo. Os primeiros defendem o objetivo de salvar vidas e se contrapõem aos segundos, que acham que se deve afrouxar o isolamento para salvar a economia. Resumindo, o dilema é salvar vidas versus salvar a economia. Aqui entre nós, por exemplo, vimos acompanhando as posições conflitantes entre o então ministro da Saúde e o seu presidente. Entretanto, "iluminados" economistas mundiais, como Richard Baldwin, professor de Economia Internacional do Instituto de Pós-Graduação em Estudos Internacionais e Desenvolvimento em Genebra, consideram este uma falso dilema. Ele afirma, e para isso apresenta um arrazoado resumido num gráfico que chama de "dupla curva", que, afrouxando ou enrijecendo as medidas de isolamento, a recuperação econômica vai se dar no mesmo prazo.  Diante disso, diz ele, o que se deve adotar são medidas simultâneas, ou seja, além de promover um isolamento o mais rígido possível, ao mesmo tempo os governos dos países devem fornecer apoio a indivíduos e empresas para que não quebrem durante o confinamento. Isso é muito bonito quando se trata de países considerados de Primeiro Mundo, ricos. O apoio de Trump é de aproximadamente US$ 2 trilhões, que vão ser distribuídos em 1 milhão de cheques aos americanos de baixa renda no valor de US$ 1.200,00, US$ 400 bilhões para pequenas empresas e US$ 500 bilhões para as grandes. O de Angela Merkel é de 750 bilhões de euros. E o nosso? É de R$ 150 bilhões (cerca de US$ 30 bilhões), representados por três parcelas de R$ 600,00 (US$ 120,00) para cada brasileiro desempregado, incluindo ainda R$ 60 bilhões (US$ 12 bilhões) para a manutenção de empregos pelas empresas. Vejam a disparidade. Além disso, os EUA e a Alemanha têm folego para fazer novos aportes, se necessário. E nós? O próprio Baldwin diz que, "nos mercados emergentes, é uma história completamente diferente. Muitos desses países não têm capacidade fiscal para proteger pessoas de baixa renda, empresas ou bancos". Mas ele não diz como resolver o dilema nesses casos. Se ele deixasse sua sala confortável com ar-condicionado na Suíça e viesse para o "chão de fábrica" aqui e entrevistasse, como fez uma emissora de televisão, uma mulher na rua que puxava pelas mãos uma carreira de filhos pequenos, saberia qual o dilema "real". Perguntada sobre o que ela fazia na rua, explicou que tinha sido demitida e precisou ir buscar o sustento. Questionada pelo repórter se ela não tinha medo de se contaminar, ela respondeu: "Prefiro ficar doente e perder a vida do que ver meus filhos passarem fome". Notar que ela descartou a solução de salvar vidas. Não a de milhares de desconhecidos que morreram ou estão morrendo todos os dias, nem a dos conhecidos mais próximos que também morreram, mas a própria vida. Quero ver os que atacam a opção de salvar a economia acusarem, como fazem sempre, esta mulher de insensibilidade diante da vida humana.

José Claudio Marmo Rizzo jcmrizzo@uol.com.br

São Paulo

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QUARENTENA PRORROGADA EM SP

João Doria e David Uip estão se colocando numa "sinuca de bico" sozinhos, porque a prorrogação da quarentena em São Paulo até o dia 10 de maio não tem nenhum fundamento técnico, apenas político, principalmente o alegado congestionamento hospitalar. Infelizmente, essa postura vai acabar dando numa besteira social muito grande logo ali na frente.

Francisco José Sidoti fransidoti@gmail.com

São Paulo

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SABEDORIA

O governador do Estado de São Paulo anunciou a prorrogação do isolamento social no Estado até o dia 10 de maio. A decisão foi tomada exclusivamente em bases técnico-cientificas, assim se espera, no anseio de que a saúde pública não entre em colapso e vidas sejam salvas. Sabedoria tem que ver com entendimento - não com acúmulo de informações, por mais técnicas e científicas que possam ser, e espera-se que os líderes da Nação, não obstante o acúmulo de informações, sejam sábios. Sabedoria para equilibrar a necessidade de preservar a saúde pública com a não menos importante necessidade de evitar um colapso de todas as atividades econômicas do Estado. O Estado de São Paulo, assim como o restante do País, não pode ficar refém da visão tortuosa do presidente da República, assim como também não pode ser um joguete nas mãos de um govenador com grave ambição política. Os cidadãos não podem ser expostos ao perigo de um vírus, assim como não podem empobrecer - para alguns irremediavelmente - a cada dia. Quem se julga absolutamente objetivo em sua avaliação da realidade está dominado por profundas fantasias inconscientes, por isso nós, os cidadãos, não clamamos por uma abertura indiscriminada do isolamento social nem o fechamento dogmático de todas as atividades. O que ansiamos é que tanto o presidente quanto o governador deixem de lado suas pretensões políticas para, com sabedoria - e não somente com informações - encontrarem uma solução para o País. 

Luciano de Oliveira e Silva Luciano.os@adv.oabsp.org.br

São Paulo

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PERGUNTAR NÃO OFENDE

No Brasil, estima-se que mais de 10 mil pessoas vivam em asilos. São Paulo, onde se concentra metade dos infectados e das mortes desta moléstia pandêmica, mantém inúmeros deles. Sabemos, também, que comunidades menos assistidas pelo Estado têm um porcentual de mortes superior aos demais lugares. Que medidas estão sendo tomadas por aqueles que defendem o isolamento social para minimizar a infecção da sociedade carente, outra que o valor ora doado, insuficiente para uma clausura de prazo superior ao mês, e cujos doentes já lotam hospitais da zona leste da cidade? Embora a Prevent Senior, especialista em atendimento a idosos, tenha obtido grande evidência na mídia, qual é a proteção oferecida aos asilos, cujos cuidadores não são incluídos na testagem de equipes da linha de frente do combate ao vírus e cujos moradores são vítimas maciças e inglórias em locais similares no exterior? Perguntar não ofende.

Sergio Holl Lara jrmholl.idt@terra.com.br

Indaiatuba

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DA SINISTROSE AO REALEJO DA OAB

O noticiário sobre a pandemia da covid-19 descambou, no Brasil, para a torcida infame por mortos a galope, dia após dia, sonoplastia sinistra, efeitos de computação, empostação de voz dos apresentadores do Jornal Nacional para insuflar as pessoas não ao isolamento social, e sim ao descontrole emocional contra o presidente constitucional da República. Derrubar era a pauta. O objetivo, recolocar no Palácio do Planalto os criminosos do PT e acólitos liderados por corrupto lavador de dinheiro bicondenado da Justiça, em processo regular. Estarrece que para esse objetivo anti-Pátria concorra a bandidagem parlamentar acantonada no Congresso Nacional à espera de que, acuado, o Executivo ceda à trambicagem embutida nas emendas eleitorais e nas nomeações para estatais. Mais: ansiosa pelo regalo pestilento dos R$ 2 bilhões do fundo eleitoral, dos quais Rodrigo Maia e Davi Alcolumbre, no limite da histeria, recusam compartilhar porção para a guerra contra a fome, a peste, a morte. Estarrece ainda mais a prontidão do presidente do Supremo Tribunal Federal, a exemplo de Maia e Alcolumbre, para assinar notas à imprensa contra o presidente da República, movimento ensaiado que expõe ao mundo a democracia à brasileira, na qual só o chefe do Executivo é escolhido diretamente pelo povo. Realejo petista, a Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), por motivação personalíssima do presidente da entidade, também se travestiu de redatora de notinhas contra o presidente da República, papelotes sem eco, sem a autoridade moral e intelectual de, por exemplo, Raymundo Faoro, presidente da OAB entre 1977-1979, pleno regime militar.   

José Maria Leal Paes tunantamina@gmail.com

Belém

 

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