Fórum dos Leitores

Cartas de leitores selecionadas pelo jornal O Estado de S. Paulo

Fórum dos Leitores, O Estado de S.Paulo

30 de abril de 2022 | 03h00

Lula e a Lava Jato

O grande desejo

O Comitê de Direitos Humanos da ONU declarou o juiz Sergio Moro “parcial” no julgamento de Lula. Mas muitos esperavam mais. O grande desejo é ver a roubalheira ser declarada honesta.

A. Fernandes

standyball@hotmail.com

São Paulo

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Não nos esquecemos

Para o STF e para a ONU, a condenação em três instâncias é inválida por irregularidades processuais. A cobertura no Guarujá com um elevador exclusivo não era dele, a reforma no sítio em Atibaia com pedalinhos com o nome dos netos não era dele e o rombo de R$ 18 bilhões na Petrobras, com recuperação de R$ 6 bilhões, também é fake news. A Lei da Ficha Limpa para depurar o acesso político foi rejeitada e o desonesto “mais honesto deste país” lidera as pesquisas para a Presidência. Agora, seus advogados querem indenizações e reparos morais. Bandido virou mocinho e mocinho virou bandido. O crime compensou.

Humberto Schuwartz Soares

hs-soares@uol.com.br

Vila Velha (ES)

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Confetes e serpentinas

Depois da conclusão da ONU, Lula se sente inocente sobre a Petrobras, o sítio de Atibaia e o triplex do Guarujá, entre outras condenações, e diz que Sergio Moro era pau-mandado de alguém e que deveria assumir a Presidência do Brasil de imediato. O Samba do crioulo doido, canção composta pelo escritor e jornalista Sérgio Porto em 1966, retorna triunfal para assumir, na História do Brasil, seu indiscutível lugar de porta-bandeiras, não só do carnaval, mas da própria política do País. E os bilhões devolvidos pela Lava Jato devem ser os confetes e serpentinas em homenagem aos que se doaram em vão, tentando recuperar a honra e a dignidade de um país carnavalesco e de suas instituições.

Marcelo Gomes Jorge Feres

marcelo.gomes.jorge.feres@gmail.com

Rio de Janeiro

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Eleições 2022

O retorno

Alguns acreditam que o ressurgimento de Lula no cenário político, propiciado pelas ações da Corte Suprema que aniquilaram seus processos da Lava Jato e restauraram sua elegibilidade, transformou o cenário eleitoral para a Presidência numa arena de polarização radical, tendendo ao crescimento até outubro. A bem da verdade, porém, a influência do referido “descondenado” não se iniciou após sua repentina “inocentação”. Mediante excrescência que só existe aqui, em Pindorama, foi-lhe permitido que, mesmo preso, não se tivesse abstido de impor as estratégias eleitorais, felizmente fracassadas, adotadas pelos candidatos de seu partido nas últimas eleições, nunca deixando também de nutrir o sectarismo fundado por ele próprio por meio do desagregador “nós e eles”. Anunciar, pois, que o cenário de disputa se modificou a partir de seu retorno constitui, salvo melhor juízo, uma análise desfocada, na medida em que, rigorosamente falando, não houve retorno.

Paulo Roberto Gotaç

pgotac@gmail.com

Rio de Janeiro

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Hino socialista

Lula e Alckmin participaram de evento do PSB, em Brasília, ao som da Internacional Socialista, hino dos “comunas”, oportunidade em que o líder do PT disse que “o Brasil está precisando de alguém para salvar o País”. É o fim da picada!

José A. Muller

josealcidesmuller@hotmail.com

Avaré

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Primeiro, o 1.º turno

Ser anti-Bolsonaro não implica ser petista. Ser anti-PT não implica ser bolsonarista. Quem insiste no contrário está, voluntariamente ou não, a serviço dessa polarização. Antes do segundo, por óbvio, há o primeiro turno. Cenários completamente diferentes, com condições de contorno idem.

Hamilton Varela

hamiltonvarela@usp.br

São Carlos

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Sábio provérbio

“Aquele que teima em desprezar as correções será esmagado de repente, sem remédio. Quando os justos se multiplicam, o povo se alegra; quando é o ímpio que domina, o povo geme’’ (Provérbios 29:1-2). Traduzido para os dias atuais, diz-se que errar é humano, mas persistir no erro é diabólico e burrice. Os candidatos alternativos à desastrosa polarização de 2018, finalmente, começam a aplicar esse sábio provérbio e buscam o caminho do diálogo e da unidade em torno de um projeto comum para o Brasil. Que assim seja, para o bem dos que amam, querem e defendem a democracia, a liberdade e a paz.

João Pedro da Fonseca

fonsecaj@usp.br

São Paulo

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Cartas selecionadas para o Fórum dos Leitores do portal estadao.com.br

CHORO DE PERDEDOR

Mais uma vez, Bolsonaro duvidou sobre o processo eleitoral brasileiro e o uso das urnas eletrônicas para a apuração do pleito (Pacheco e Lira defendem lisura das eleições um dia após novos ataques de Bolsonaro às urnas, 29/4, A12). Lembro que desde 1989 ele vem sendo eleito para a vida pública através desse sistema e nunca o colocou em dúvida. Será que somente após sua eleição para presidente o sistema começou a ser hackeado? De tempos em tempos ele muda o discurso, agora está falando que o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) tem que aceitar a sugestão das Forças Armadas de alteração do processo eleitoral. Disse que não precisamos de voto impresso. Sugeriu que basta que os dados, transmitidos via internet para os computadores do TSE – que, segundo ele, estão em uma “sala secreta”, coisa que o TSE já disse não existir –, sejam encaminhados aos computadores das Forças Armadas. Como se essa instituição, que foi criada com o objetivo de defender o Estado, as instituições democráticas e os poderes constitucionais, fosse mais confiável que todas as outras existentes no Brasil e que seus computadores fossem imunes a ataques de hackers. Essa insistência de duvidar do sistema eleitoral parece doença mental, delírio. Por quase quatro anos não governou, falou muita besteira e deixou a economia do País em frangalhos. Agora que o pleito se aproxima, e ele está vendo a viola em cacos e que esta será a hora de os brasileiros, através do voto, darem o troco por sua incapacidade, ele coloca em dúvida o sistema para tentar justificar sua não eleição. O discurso cheira a golpe, cheira a choro de perdedor.

 

Valdecir Ginevro

valdecir.ginevro@uol.com.br

São José dos Campos

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AS PORTAS DO ABISMO

Com 76 anos de vida e sendo semianalfabeto, eu não consigo entender o critério que Jair Messias Bolsonaro utiliza para governar o nosso país. Enquanto a inflação corrói o salário dos trabalhadores e a fome ronda os lares brasileiros, o discurso dele na maioria das vezes é atacar o sistema das urnas eletrônicas. Será que se ao invés de tantas motociatas nosso mandatário parasse para observar a situação que nosso povo está vivendo ele não mudaria seu discurso?

Virgílio Melhado Passoni

mmpassoni@gmail.com

Jandaia do Sul (PR)

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URNAS ELETRÔNICAS

A cinco meses do importante pleito de outubro, está mais do que na hora de dar um basta à descabida e injustificável polêmica envolvendo a lisura do processo eleitoral do País, que até o presente momento nunca apresentou o menor resquício de manipulação e interferência. A Justiça Eleitoral já deu mostras suficientes de sua competência e eficiência. As urnas eletrônicas são altamente confiáveis, ao contrário de Bolsonaro e Lula.

J.S. Decol

decoljs@gmail.com

São Paulo

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GOLPE

Quem ganha com o golpe? A primeira vítima é a política, pois perde seu protagonismo para os golpistas. É perseguida e cassada. A segunda, a liberdade de opinião e expressão, mesmo mídias submissas sofrem censura. Depois a economia, pois sem mercado interno entra em colapso e os investidores se afastam. A Justiça deixa de existir e torna-se inconstitucional, submissa à justiça dos golpistas. A manifestação política de Arthur Lira (presidente da Câmara) e Rodrigo Pacheco (presidente do Senado) acende a luz amarela. Vai de encontro ao golpe que Bolsonaro e militares saudosistas da ditadura de 1964 tentam implementar. Questão de sobrevivência. A tendência é que setores políticos e econômicos se manifestem contra. Agora é “fora, Bolsonaro” e “volta, Lula”, com Congresso progressista renovado.

Antonio Negrão de Sá

negraosa1@uol.com.br

Rio de Janeiro

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INSTITUIÇÕES

Em discurso no Congresso da Autorreforma do PSB, Lula afirmou, entre outras coisas, que Jair Bolsonaro não respeita as instituições. Sim, é verdade. Mas é bom lembrar que num passado não muito distante Lula chamou o STF de “acovardado” e quase foi nomeado pela então presidente Dilma Rousseff para assumir um ministério e assim escapar de eventual prisão. Ora, se esses episódios não significaram desrespeito às instituições, o que foram então? Bem, inverdades e incoerências sempre foram a marca registrada dos populistas, inclusive o desrespeito às instituições quando e como lhes convém. 

Luciano Harary

lharary@hotmail.com

São Paulo

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QUALIDADE DA DEMOCRACIA

O editorial do Estadão A qualidade da democracia depende da Câmara (29/4, A3) denota que ainda estamos engatinhando frente à maioria das grandes democracias, haja vista o flagrante despreparo dos "representantes do povo". Em grande número eles não sabem mesmo qual a função para a qual foram eleitos pelo povo brasileiro. Assim como este também não sabe o motivo maior de tal escolha, visto que poucos são os cidadãos que se lembram em qual candidato a vereador, deputado distrital, deputado estadual e deputado federal votaram na eleição anterior. Aí reside o grande erro na construção de uma verdadeira democracia: o descaso popular. O fato de se apontar o cidadão como responsável por essa desconstrução não exime, de forma alguma, o próprio Estado, principalmente enquanto educador que não cumpre o seu papel de preparar o homem desde a sua tenra idade para o exercício lúcido da sua maior função cívica no porvir, que é eleger da maneira mais correta os seus representantes através da sua participação pelo voto, o qual, se desdenhado no presente, deverá trazer consequências maléficas na posteridade – o Brasil atual que o diga! De momento, esta deseducação civil satisfaz plenamente aos interesses nefastos da maior parte dos políticos detentores de cadeiras tanto na Câmara Legislativa (DF) e de Vereadores (municípios), bem como nas Assembleias Legislativas (Estados membros) e Câmara dos Deputados (União), interesses esses em detrimento total da dita soberania popular. Em tempos de redes sociais abundantes e atuantes, não será impossível que, a partir das próximas eleições, este estado de coisas venha a ser destruído, mesmo que paulatinamente. A criação do voto distrital puro, com recall, será também uma ferramenta de inestimável valor nesse bom combate. Porém, a função educadora do Estado continua a ser primordial.

Emmanoel Agostinho de Oliveira

eaoliveira2011@gmail.com

Vitória da Conquista (BA) 

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FALTA DE DECORO

Não sou fã, muito menos eleitor do deputado Daniel Silveira, mas discordo da opinião do editorial Qualidade da democracia depende da Câmara. Bem ou mal (muito mais mal do que bem), o artigo 53 da Constituição determina que os deputados e senadores são invioláveis por suas opiniões, palavras e votos. Então, está claro que Daniel Silveira não pode ser punido pelo que disse – ainda que eu adoraria que fosse. Para mim, falta de decoro, para citar só dois exemplos, foi a indigesta “dança da pizza” de Angela Guadagnin (PT), que, em 2006, comemorou a absolvição de seu colega de partido João Magno do processo do mensalão. E também foi a cuspida do deputado Jean Wyllys em Jair Bolsonaro (de quem também não sou fã).

Luciano Nogueira Marmontel

automatmg@gmail.com

Pouso Alegre (MG)

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COMISSÃO DE CONSTITUIÇÃO E JUSTIÇA

Salvo evidência contrária, Daniel Silveira foi nomeado para a Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) pelo mérito de ter sido condenado pelo Supremo Tribunal Federal (STF) após ameaçar seus juízes e a própria democracia. Daniel Silveira não tem formação em Direito. Não encontrei, no regimento interno da Câmara dos Deputados, os requisitos para ser membro de uma comissão. Deveria ter, no caso de comissões técnicas como a CCJ, para evitar nomeações que tendam a acomodar indivíduos e seus partidos.

Leonardo Sternberg

bergzynski@gmail.com

São Paulo

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DEGRADAÇÃO TOTAL

Degradação, escárnio, incúria, inépcia, triste picadeiro, cenas aviltantes, zombar da mais alta Corte, parlamentar desordeiro. São palavras impressas nas cartas de leitores a respeito do circo em que se transformou a Câmara dos Deputados anteontem, 27/4, sob o comando do despresidente Jair Bolsonaro. Nada de bom pode-se esperar de um moleque no comando de um país. Em que triste costado veio aportar o Brasil! É preciso uma reação firme a fim de restaurar a moralidade na política e nos políticos do País. Quando a nau vai a pique, todo esforço é pouco para tentar salvá-la. As eleições estão próximas. Que os brasileiros aproveitem a oportunidade para colocar no Congresso gente decente e com propostas sérias para limpar toda esta sujeira que assombra a sociedade estupefata com o nível degradante que atingimos. Não se deixe enganar, eleitor, o mal está assanhado para abocanhar de vez nossa linda pátria. Reajam!

Jane Araújo 

janeandrade48@gmail.com

Brasília

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APATIA DO ELEITOR

O eleitorado polarizado – uma parte voltada para a direita com Bolsonaro e outra à esquerda com Lula – e os políticos tentando formar a terceira via, mas com dificuldade porque todos (ou quase) não abrem mão de que o próprio nome encabece a chapa “de consenso”. Basta raciocinar um pouco para se chegar à conclusão de que a política nacional enfrenta a falta de comunicação eficiente. Bolsonaro, mesmo com a feroz campanha de desconstrução encetada pelos seus adversários desde antes de sua posse, arrasta multidão e é aplaudido por onde passa. Lula, reabilitado pelas canetadas do STF, que colocou nulidades nas sentenças a que foi condenado em várias instâncias, não reedita a mobilização popular de outrora e é hostilizado nas raras aparições. E – até agora – nenhum dos que se dispõem a ser a alternativa a ambos conseguiu seduzir o povão. Apesar do discurso dos que em 1985 assumiram o poder depois que os militares o devolveram aos civis, não tivemos o desenvolvimento político que se apregoou durante todos estes anos. Era mentirosa a afirmação que se passava ao povo de que com democracia se resolveria todos os problemas do País. Pelo contrário, desaguamos nos malfadados mensalão, petrolão, eletrolão e outros escândalos financeiros em que as empresas estatais foram saqueadas para o governante de plantão poder comprar a maioria dos votos que necessitava para aprovar seus projetos no Parlamento. O povo viu tudo isso e hoje não acredita na classe política. É evidente que há muita gente boa no meio, mas, infelizmente, o que dá a imagem do grupo é o negativo dos escândalos. Estamos na véspera da campanha eleitoral, os políticos que se cuidem.

Dirceu Cardoso Gonçalves

aspomilpm@terra.com.br     

São Paulo  

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ALTERNATIVA À POLARIZAÇÃO

Impasse, disputas, desavenças, tensões internas, interesses pessoais e regionais, caciquismo político, choques de reivindicações, pressão do Palácio do Planalto, ausência de um nome agregador na terceira via. São expressões que grifei enquanto lia as notícias do Estadão a respeito de alternativas à polarização. Ah, grifei também “Prioridade é o Brasil, não somos nós”, “Prioridade é o Brasil e os brasileiros” e “É hora de desprendimento”. Vou continuar procurando referências a projeto nacional de desenvolvimento, agenda nacional

e outras expressões que indiquem rumo, direção, horizonte, pensamento estratégico, futuro, médio e longo prazos, interesse público, liberdade e democracia.

João Pedro da Fonseca

fonsecaj@usp.br

São Paulo

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TERCEIRA VIA DISTANTE

Como esperar que os partidos políticos deem atenção aos graves problemas e à enrascada em que o País se encontra quando cada um deles tem uma fortuna para gastar no curto prazo? Como cobrar do União Brasil, por exemplo, uma postura cívica se eles precisam gastar R$ 1 bilhão (!) nesta campanha eleitoral? Claro que não sobra cabeça (leia-se “vontade”) para fazer mais nada. Não dá para articular nenhuma união pelo bem do Brasil.  Agora é tempo de ir às compras com os bolsos cheios! O País quebrado? Ora, que se lasque o País!

 

Francisco Eduardo Britto

britto@znnalinha.com.br

São Paulo

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O CONSELHO NACIONAL DE JUSTIÇA E A LEI

O Conselho Nacional de Justiça (CNJ), desde o tempo em que conversava com o finado amigo e eminente jurista Márcio Thomaz Bastos, o grande incentivador do órgão, foi ele criado com a missão precípua de intervir, aperfeiçoar e regular o segmento administrativo da magistratura, realizando as modificações necessárias, mas não poderia legislar em matéria de vencimentos e vantagens salariais, setor que ficaria reservado ao Poder Legislativo. Porém, na atualidade, o CNJ realiza intervenções salariais fazendo-se às vezes de Legislativo, o que não merece nem palmas nem aplausos e muito menos aprovação da sociedade civil. Seria bom repetir aquele dito popular: quem parte e reparte só não fica com a maior parte se é bobo ou não tem arte.

José Carlos de Carvalho Carneiro

carneirojcc@uol.com.br

Rio Claro

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INFLAÇÃO E POBREZA

As três principais causas da inflação: 1) gastar mais do que arrecada e imprimir dinheiro para cobrir o rombo (expansão monetária); 2) aumento generalizado de impostos; 3) aumento dos preços dos combustíveis e da energia elétrica. Para a primeira há a Lei de Responsabilidade Fiscal. A segunda depende do Congresso. E a energia elétrica e os combustíveis são tratados como commodities e não como produtos estratégicos nacionais, e os preços dos combustíveis estão atrelados ao preço de paridade de importação (PPI), gerando inflação, instabilidade econômica e empobrecimento da população.

Valerio Bronzeado

valeriocostabronzeado@gmail.com

João Pessoa

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CURIOSIDADES TURÍSTICAS

Recém-regresso de uma viagem ao exterior, sinto-me à vontade para compartilhar algumas observações e curiosidades pessoais após visitar três capitais europeias: Londres, Berlim e Madri. O que elas tinham em comum? Turistas. Muitos. Por todos os lados. Impressionante o impacto que o setor tem na economia e na vida daquelas pessoas, principalmente neste período pós-covid. São vários fatores a favor para tal pujança, dentre os quais cito a enorme oferta de hotéis acessíveis, transporte público eficaz e muitas atrações turísticas, na maioria, gratuitas. Os aeroportos são ligados ao metrô, ônibus e trem. A eles é oferecido um serviço confiável, constante, econômico, seguro e fácil, que o deixa no centro de qualquer cidade em 30 minutos, no máximo. Até mesmo em cidades de menor porte, como Porto, com seus 240 mil habitantes, se oferece tal possibilidade. No entanto, em Guarulhos, o viajante comum tem diante de si um verdadeiro périplo: é preciso aguardar por um ônibus que o deixa num outro terminal, subir lances de escada para tomar um trem, que o deixa na Estação da Luz, no centro da capital. Simples, se esse for seu destino final e caso viaje sem malas ou não esteja cansado da viagem. No nosso caso, optamos por um carro com motorista de aplicativo, que, após espera de 35 minutos, enfrentamos outros 75 minutos de constantes congestionamentos até nosso destino. Pode-se afirmar que nossos governantes, até hoje, tendem a priorizar o transporte individual, em prejuízo ao coletivo. Enquanto as cidades europeias ligam seus aeroportos por trem ao centro da cidade, impressiona São Paulo, a maior cidade da América Latina, com mais de 10 milhões de habitantes, até hoje não oferecer esse serviço. Obras públicas não faltam aqui, porém a população enfrenta outros males: não cumprimento do prazo de conclusão e a megalomania. Se não, vejamos: Terminal Vila Sônia: obra entregue inconclusa com mais de dez anos de atraso, com enormes colunas decorativas de concreto, capazes de suportar um edifício de 50 andares. Feita para servir os ônibus da região Sul do País, ainda hoje aqueles que partem a Curitiba e Porto Alegre deixam o Terminal do Tietê, zona norte da capital. Imaginem o impacto no fluxo de veículos numa cidade já congestionada pelo trânsito local! Outro exemplo: obra na Avenida Roberto Marinho: não seria mais barato e rápido construir na superfície? Imagino o custo estratosférico de se construir essa linha a 50 metros do solo! Sabe-se lá quando será entregue à população. Deve estar atrasada há pelo menos seis anos. Outro ponto interessante é notar que a Espanha recebe em dois meses uma quantidade de turistas, algo em torno de seis milhões de pessoas, que supera o total de visitantes em um ano no Brasil inteiro. Atualmente, com a redução das restrições de viagem impostas durante a pandemia naquela região, a quantidade de visitantes neste ano deve superar em muito o total dos dois últimos. Coincidências à parte, um dos pleiteantes ao posto mais elevado do País este ano foi responsável durante anos pela Embratur, autarquia do governo, encarregada de fomentar o turismo interno e atrair turistas estrangeiros ao Brasil. Teria deixado uma herança marcante na sua gestão que reforce sua imagem? As cifras parecem bem modestas até hoje. Outra coisa que impressiona é o silêncio nas cidades de Londres e Berlim. Talvez em razão do frio, o uso de motocicleta é limitado, optando-se muitas vezes por motonetas, menos potentes e mais confortáveis. Não se ouve buzina, as motos não andam entre os carros, podendo executar esta manobra somente quando o trânsito estiver parado. Enfim, creio que uma explicação plausível para tamanha discrepância entre o vigor do turismo naqueles países europeus e o marasmo aqui enfrentado seja que, lá, os empresários se deram conta da relevância do setor, investiram pesadamente em infraestrutura e, principalmente, na capacitação da mão de obra e aprenderam a explorar o turismo, enquanto que, aqui, se focou em explorar o turista. A questão é que, quando o turista se sente explorado, provavelmente não regressa.

Marcos Nogueira Destro

mdestro@amcham.com.br

São Paulo

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