A recuperação claudicante dos investimentos

O quadro expõe melancolicamente a falta de políticas públicas robustas e inovadoras por parte do governo

Notas & Informações, O Estado de S.Paulo

19 de agosto de 2020 | 03h00

A pandemia continua provocando oscilações nos investimentos. Mas o fato de que elas estão ficando menos bruscas sinaliza uma gradual retomada da confiança. O Indicador de Formação Bruta de Capital Fixo do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada teve, em abril, queda de 27,5%, a maior na série histórica. No mês seguinte, registrou-se a maior alta, 28,2%. Junho foi marcado por uma nova queda, mas dessa vez bem mais suave: 1,3%.

No agregado do segundo trimestre, o recuo foi de 24,5% em relação ao período anterior e de 23,1% em relação ao mesmo período de 2019. No acumulado dos 12 meses, os investimentos caíram 4,1%. O destaque negativo ficou por conta de máquinas e equipamentos. A retração em junho foi de 13,9% na comparação com maio. Por outro lado, os investimentos na construção civil aumentaram 6,5% em relação a maio, que registrou aumento de 14,6% em relação a abril.

Antes da pandemia os investimentos já registravam algumas de suas piores marcas históricas e davam sinais de desaceleração. A queda na recessão de 2014 a 2017 foi tão intensa quanto nos períodos de 1981-84 e 1989-92, mas, segundo o Instituto de Estudos para o Desenvolvimento Industrial, nos anos de recuperação recentes a expansão foi cerca de 3 a 5 vezes mais lenta. Isso se deve sobretudo aos baixos índices de investimento público. Além disso, a ociosidade no parque produtivo é mais elevada.

Houve algum dinamismo nos investimentos em modernização tecnológica. Com o choque de digitalização provocado pela pandemia, esse fator deve se manter. Contudo, o seu potencial para alavancar a produtividade e empregos é baixo, dada a precária produção nacional dos sistemas de hardware, o que torna a indústria dependente de máquinas importadas.

Assim, se, no curto prazo, é plausível supor que a pior fase da crise pandêmica já passou, no médio prazo a produção deve apenas retomar a trajetória modesta dos últimos anos.

O quadro expõe melancolicamente a falta de políticas industriais por parte do governo. Afora as propostas de exoneração na folha de pagamento e redução de impostos de importação, não há qualquer plano de estímulo à recuperação da indústria, em especial no setor decisivo de equipamentos tecnológicos. Aos poucos, a produção nacional começa a sair da UTI. Mas sem políticas públicas robustas e inovadoras seguirá claudicando.

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