Alta de alimentos continua a onerar os mais pobres

Padrões de consumo diferenciados entre as famílias de acordo com sua faixa de renda explicam essa variação

Editorial Econômico, O Estado de S.Paulo

31 de dezembro de 2020 | 03h44

Tem sido notável a diferença do impacto da alta média dos preços sobre os orçamentos das famílias de baixa renda e os das com renda alta. Padrões de consumo diferenciados entre as famílias de acordo com sua faixa de renda explicam essa variação.

A alta de vários itens do grupo “alimentação e bebidas” é expressiva nos últimos meses. O arroz, por exemplo, subiu 69,5% de janeiro a novembro; o feijão, 40,8%; as carnes, 13,9%; o frango, 14%; o leite, 25%; e o óleo de soja, 94,1%. No outro extremo, nos primeiros 11 meses de 2020 caíram os preços das passagens aéreas (-35,3%), do transporte por aplicativo (-16,8%), da gasolina (-1,7%) e dos itens de recreação (-1,1%).

As famílias que consomem proporcionalmente mais os itens da primeira lista e menos os da segunda obviamente sentiram mais a inflação dos primeiros 11 meses de 2020 do que as que gastam menos com alimentos e mais com itens como transporte e lazer.

A diferença, aferida mensalmente pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), é expressiva. A inflação dos 11 primeiros meses de 2020 chegou a 4,56% para as famílias de renda muito baixa; para as de renda alta, limitou-se a 1,68%. O fosso se mantém na inflação acumulada em 12 meses até novembro: 5,80% para as famílias de renda muito baixa e 2,69% para as de alta renda.

No resultado acumulado de 12 meses, desde maio tem havido aceleração da inflação para todas as faixas de renda. Para as de renda muito baixa, a aceleração é mais intensa. Ainda não há indicações de que essa tendência pode mudar. “Consequentemente, a taxa de inflação acumulada em 12 meses do segmento de renda mais baixa mantém sua trajetória de aceleração em ritmo superior àquela apontada na classe de renda mais alta”, diz a técnica em planejamento do Ipea Maria Andreia Parente Lameiras, responsável pelo estudo.

A pesquisa considera que o grupo alimentação e bebidas responde por 28% dos gastos das famílias de renda muito baixa. No caso das famílias de alta renda, o peso desses itens cai para 13% do orçamento doméstico.

A inflação oficial medida pelo Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, sem levar em conta diferenças de renda, fica, obviamente, entre os extremos: 3,13% de janeiro a novembro e 4,31% em 12 meses.

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