Desemprego mais alto por períodos mais longos

Desocupação no Brasil tem uma característica estrutural que a torna socialmente mais nociva

Editorial Econômico, O Estado de S. Paulo

15 de novembro de 2020 | 03h00

Entre os países que adotaram políticas erráticas, e por isso de baixa eficiência, no combate à pandemia de covid-19, o Brasil é um dos que manterão alta taxa de desemprego mesmo depois que a economia começar a se recuperar. Dos dez países que registraram o maior número de mortos pelo novo coronavírus em relação à população, o Brasil deve fechar o ano com o maior índice de desemprego, além de alto endividamento do governo.

São conclusões de um estudo do economista Marcel Balassiano, do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getúlio Vargas (Ibre-FGV), que o Estado apresentou em reportagem publicada há dias.

Além de alto, o desemprego no Brasil tem uma característica estrutural que o torna socialmente mais nocivo, e que a pandemia, longe de amenizar, pode ter acentuado. Trata-se do fato, constatado nas Pesquisas Nacionais por Amostra de Domicílios (Pnads) Contínuas e reafirmado pela Síntese de Indicadores Sociais – ambas do IBGE –, de que o desemprego é de longa duração para um número crescente de brasileiros.

A consequência da combinação desses dois fenômenos é que há mais brasileiros sem ocupação e a condição de desempregado tende a ser mais longa para um número crescente de trabalhadores.

Segundo o Ibre/FGV, o desemprego no Brasil deve alcançar 13,4% no fim do ano, acima da média de 9,6% dos dez países com mais mortes pela covid-19. Na comparação com os demais países, o Brasil só perde para a Espanha, onde o desemprego (16,8%) tem sido alto há bastante tempo.

As indicações para os primeiros meses de 2021 não animam. O fim do pagamento do auxílio emergencial, que evitou o empobrecimento mais acentuado de quase 70 milhões de pessoas, tende a reduzir a demanda já no início do ano, o que deve afetar o ritmo da produção e, consequentemente, da geração de empregos. Além disso, o fim do pagamento de renda extra pelo governo deve levar mais brasileiros a procurar emprego, o que tende a elevar a taxa de desocupação.

Antes mesmo de a pandemia ter destruído 14 milhões de postos de trabalho entre fevereiro e junho deste ano, o desemprego de longa duração já era amplo no País. A Síntese de Indicadores Sociais do IBGE mostrou que, no ano passado, 27,5% dos desocupados estavam nessa situação há dois anos ou mais.

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.