Dificuldades para preservar o salário real

Desde dezembro de 2020, o reajuste mediano real dos salários tem sido predominantemente menor do que a inflação

Notas & Informações, O Estado de S.Paulo

06 de agosto de 2021 | 03h00

Dos quatro últimos semestres, o período janeiro-junho deste ano está sendo, em média, o menos favorável para os salários negociados entre empregados e empregadores. Desde dezembro de 2020, o reajuste mediano real dos salários acertados em acordos e convenções coletivas tem sido predominantemente menor do que a inflação, como mostra o Salariômetro da Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas (Fipe), estudo que acompanha mensalmente os resultados das negociações trabalhistas com base nos registros do Ministério da Economia. Nas únicas exceções do período, as negociações de fevereiro e maio apenas repuseram a inflação passada.

Nem mesmo no ano passado, fortemente marcado pela pandemia nos planos econômico e social, os reajustes foram tão pouco benéficos para os salários como estão sendo neste ano. Em 2020, apenas em abril o reajuste mediano foi inferior à inflação de 12 meses. No segundo semestre, com exceção de dezembro, os reajustes foram iguais à inflação.

O coordenador do Salariômetro e professor da USP, Hélio Zylberstajn, observa que o poder de barganha dos trabalhadores é condicionado principalmente por dois fatores: o nível de atividade da economia e a inflação acumulada entre uma negociação e outra. Quando a economia cresce e a inflação é baixa, é maior a probabilidade de os trabalhadores obterem ganhos reais de salários nas negociações de acordos coletivos (entre uma empresa e o sindicato de empregados) e convenções coletivas (entre sindicatos patronais e de trabalhadores).

Assim, os reajustes foram mais do que suficientes para repor a inflação no segundo semestre de 2019 e, com exceção de abril, nos primeiros seis meses de 2020. Já no segundo semestre do ano passado, quando em média não houve perda nem ganho salarial, a atividade econômica iniciava a recuperação sobre uma base de comparação muito baixa.

A despeito dos resultados positivos de diferentes segmentos da economia, a aceleração da inflação nos últimos meses parece ter sido o fator determinante para os resultados pouco expressivos para os trabalhadores no período.

As negociações coletivas depois da pandemia trouxeram à mesa dois novos assuntos: o trabalho a distância e a manutenção do emprego. À medida que a vida econômica e social se normaliza, porém, eles deverão perder relevância.

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