Empresas têm liquidez, mas investir é difícil

A pandemia agravou, portanto, o quadro de declínio dos investimentos, com suas consequências nefastas sobre o emprego e a renda dos trabalhadores, sobre a demanda de bens de produção e sobre o crescimento.

Editorial Econômico, O Estado de S. Paulo

24 de outubro de 2020 | 22h00

As empresas brasileiras preservaram capital de giro e liquidez no primeiro semestre, mas cortaram investimentos, avalia o Centro de Estudos de Mercado de Capitais (Cemec-Fipe). Ainda mais grave é que a redução dos investimentos já ocorria no primeiro trimestre – antes da pandemia de covid-19 – e se deveu à queda da taxa de retorno do capital investido e das perspectivas de demanda, da alta ociosidade e das incertezas.

Segundo o estudo, a dívida bruta das 460 empresas analisadas – a maioria de grande e médio portes – cresceu no primeiro semestre com a tomada de crédito bancário facilitada pelas medidas do Banco Central (BC) e com o impacto da desvalorização do real sobre as dívidas em moeda estrangeira. Caiu a geração de caixa e cresceram dívida e despesas financeiras, mas os indicadores de endividamento, solvência e liquidez “ainda se situam em níveis menos preocupantes que os observados em 2015/2016”.

Interrompeu-se, entre o primeiro e o segundo trimestres, a tendência de aumento de investimentos iniciada em 2017. Entre o primeiro e o segundo trimestres, a taxa de investimento caiu de 15,56% para 15,14% do Produto Interno Bruto (PIB).

A pandemia agravou, portanto, o quadro de declínio dos investimentos, com suas consequências nefastas sobre o emprego e a renda dos trabalhadores, sobre a demanda de bens de produção e sobre o crescimento.

No segundo trimestre deste ano, a taxa de retorno médio do capital das empresas analisadas, excluindo Petrobrás, Eletrobrás e Vale, foi de 7,4% ao ano (há dois anos, esse porcentual atingiu 12,5% ao ano), enquanto o custo médio do capital, sob influência da valorização do dólar, foi de 11,4% ao ano. Este indicador mostra como pode ser muito alto o impacto do câmbio sobre as contas das empresas, contrastando com a queda da taxa básica de juros verificada nos últimos anos.

A dívida em moeda estrangeira representa, em média, 34% da dívida total das companhias analisadas e, entre as grandes empresas, 25,4% exibiam indicadores de endividamento considerados excessivos, nota o diretor do Cemec, Carlos Antonio Rocca.

Os números do Cemec mostram que a retomada econômica será decisiva para a preservação das empresas, mas não basta para assegurar a volta do investimento.

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