Estrangeiros reduzem peso na dívida pública

Ressurgem os temores quanto à solvência da dívida e quais reformas fiscais críveis permitiriam atenuá-la

Notas & Informações, O Estado de S. Paulo

09 de junho de 2020 | 03h00

A dívida pública mobiliária diminuiu quase R$ 140 bilhões entre dezembro de 2019 e abril de 2020, de R$ 4,083 trilhões para R$ 3,944 trilhões. Os fundos de investimento reduziram de 3,44% sua participação entre os maiores detentores de dívida, para R$ 1,016 trilhão. Mas, proporcionalmente, foram os investidores estrangeiros os que mais diminuíram suas carteiras (R$ 56,5 bilhões ou 10,3%), de R$ 425,8 bilhões para R$ 369,3 bilhões. Só em abril as saídas dos estrangeiros superaram R$ 24 bilhões, num indício de desconfiança na administração de Jair Bolsonaro.

Os números da dívida relativos ao primeiro quadrimestre deixaram, assim, a desejar. Com a menor disposição dos investidores, há incerteza quanto à capacidade do Tesouro Nacional de colocar papéis federais nos próximos meses. É um quadro pior em relação ao ano passado, quando as dificuldades fiscais do País já começavam a reduzir o interesse dos aplicadores, em especial, dos estrangeiros. Em 2020, a redução da dívida é mais grave, pois é preciso financiar as despesas crescentes que vieram com a crise do novo coronavírus.

É preciso colocar mais papéis do que aqueles que vencerão em 12 meses, num montante de R$ 862,3 bilhões entre maio de 2020 e abril de 2021. Além disso, desse total 51,93% são papéis prefixados, os preferidos pelos investidores estrangeiros.

Fatores como a diminuição do custo da dívida em decorrência da queda do juro básico – o custo médio da dívida acumulado em 12 meses caiu de 9,53% ao ano em março para 9,36% em abril – e a redução do estoque de dívida externa passam a ter menos importância. Além da efetiva colocação de novos papéis, mais relevante – e preocupante – passa a ser o montante da dívida que vence no curto prazo.

A dívida mobiliária é a parcela mais relevante da dívida bruta do País, que deverá passar dos quase 80% do Produto Interno Bruto (PIB) atuais para 90% do PIB ou mais até o final do ano. Esses porcentuais pressupõem que o governo conseguirá obter financiamento no mercado sem ter de usar seu colchão de liquidez para pagar os investidores que não quiserem reaplicar os recursos. Ressurgem, assim, temores quanto à solvência da dívida, que reformas fiscais críveis permitiriam atenuar.

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